Artigos Produção Audiovisual — 14 setembro 2011

Nos anos do pós-renascimento o cinema brasileiro tinha ficado meio pudico, casto, envergonhado. Traumatizado com a imagem que o público tinha de que nosso cinema era demasiado erótico, o cinema brasileiro seguiu o caminho inverso: todos passaram a criticar a pornochanchada e nosso cinema ficou bastante bem-comportado, focando em filmes sérios (dramas sociais e dramas históricos) e em comédias românticas leves sobre o universo da classe média tradicional.

O sucesso recente de dois filmes (“Bruna Surfistinha” e “De Pernas para o Ar”) mostrou que o erotismo ainda é um elemento de atração do público, seja na comédia, seja no drama. Analisar e refletir sobre o sucesso desses dois filmes ajuda a pensar possibilidades para nosso cinema.

“De Pernas para o Ar” retoma um tipo de sexualização que lembra os primeiros anos da pornochanchada, quando o gênero ainda era mais chanchada que pornô. As comédias eram mais puras e a sexualidade era muito mais um tema do que um fato. As cenas de sexo e nudez eram poucas e/ou inexistentes. “De Pernas para o Ar” faz isso, mas com uma grande novidade: é uma pornochanchada do ponto de vista feminino! Ao contrário do que acontecia nos anos 70, com a maioria dos filmes falando de liberação do ponto de vista masculino, a novidade de “De Pernas para o Ar” foi inserir no gênero o universo feminino. Mudar o ponto de vista de um gênero é sempre uma formula de inovação e sucesso. “Tropa de Elite” inovou ao construir um policial do ponto de vista da polícia e “De Pernas para o Ar” inovou ao construir uma pornochanchada do ponto de vista da mulher. O filme se tornou, assim, uma bem-sucedida autoajuda para a liberação sexual feminina.

“Bruna Surfistinha”, por outro lado, não tem nada de chanchada. Está mais para o que o critico Inimá Simões chamou de “cinema erótico paulista”. “Bruna” é um drama muito bem realizado e feito na dose certa para, simultaneamente, chocar e fascinar as mulheres da classe média atual. Muitas são liberais no discurso, mas não na prática; adoram ler sobre putas (há dados que mostram que o universo de “Bruna” era mais lido por mulheres do que por homens), mesmo que depois as critiquem veementemente, em verdadeiros surtos de moralismo exacerbado. Enquanto a personagem de “De Pernas para o Ar” é feita sob medida para conquistar o padrão da mulher consumidora atual, a personagem de “Bruna” é uma rebelde que desce aos infernos e gera uma identificação de outro tipo, uma identificação que mistura repulsa e fascinação. O fato de ser baseado em fatos reais e ter um blog de sucesso é, evidentemente, um elemento que ajuda na promoção do filme. Mas, mesmo assim, não era um filme de sucesso garantido. Uma coisa é ler o blog sozinha em casa, outra coisa é ir ao cinema assistir isso em imagens e com família reunida. O tema é ousado e um erro de tom poderia espantar o público. Por outro lado, se for demasiado pudico, não terá os elementos que o público busca.

Trabalhar nesse limiar é um desafio que tem que ser resolvido na realização: no roteiro, na direção, na fotografia, etc… E assim foi! A rebeldia da personagem ficou bem construída na apresentação e sua “decadência” foi gradativa e justificada dramaticamente. Um destaque de direção são os vários pequenos momentos líricos, magnificamente construídos pela fotografia, que nos ajudam a entrar na emoção da personagem.

Além de mostrar a possibilidade de erotização, a comparação desses filmes com a pornochanchada evidencia ainda outro aspecto de nosso cinema contemporâneo: a elitização dos personagens. A pornochanchada era um gênero popular e, via de regra, trabalhava com personagens populares. Tanto “De Pernas para o Ar” quanto “Bruna Surfistinha” trabalham com a classe média tradicional. Em “De Pernas para o Ar” a personagem é uma executiva e, até mesmo a entrada no mundo irracional do sexo é justificada pela “racionalidade” empreendedora de abrir um negócio. Em “Bruna”, o que choca não é ela ser “puta”, é ela ter saído da “Vila Mariana”, ser “uma de nós”. Depois do ciclo de interesse pela favela (que foi revelada para a classe média via cinema e cujos filmes interessaram mais a classe média do que aos favelados) nosso cinema volta a centrar esforços na representação da classe média tradicional que é, atualmente, a grande consumidora de cinema. O próximo passo, no entanto, é a representação dos “emergentes”, os batalhadores da nova classe média, que são a grande novidade em nosso país. Eles são classe média em termos financeiros, mas não “culturais”, e consomem uma cultura de subúrbio vastamente contemplada na imensa variedade de nossa indústria musical, mas ainda ignorada por nossa indústria cinematográfica. Esta aí o nosso novo desafio!

Por Newton Cannito

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