Colunas Entrevistas Slideshow — 15 dezembro 2011
Cláudio Assis continua indomável
Foto: Mario Miranda

“Agora é só poesia”, diz o cartaz de “Febre do Rato”, novo filme de Cláudio Assis. Será que depois de “Amarelo Manga” (2002), um anticartão-postal de Recife, e “Baixio das Bestas” (2007), um conto moral na zona da mata pernambucana, filmes interessados em perversões, na desestabilização de uma certa ordem de coisas, na possibilidade de inversão de determinados valores, Assis teria amolecido? “As pessoas não diziam que era violento? Agora então vamos de poesia, mas com a mesma intensidade”, brinca o premiado e polêmico cineasta por telefone, para esta entrevista exclusiva à Revista de CINEMA, direto de uma mesa de bar em Recife. “Febre do Rato”, centrado no poeta Zizo (Irandhir Santos) e na pequena família que vive ao seu redor (um coveiro casado com um travesti e um traficante que vive com três amigos), é Cláudio Assis puro sangue. Um filme disposto a iluminar áreas sombrias negligenciadas pelo cinema, com uma marca extremamente pessoal, que levou o prêmio de melhor filme no último festival de Paulínia. Para qualquer plateia do Brasil ou do mundo, Assis saúda com a palavra “caralho!”. É sua marca registrada. Ao receber um prêmio no festival de Roterdã, Assis gritava “caralho, caralho!” e a tradutora dizia “maravilhoso, maravilhoso”. Impossível amordaçá-lo.

Nascido em Caruaru, no interior de Pernambuco, em 1959, Assis estudou dois anos de comunicação e outros dois de economia, antes de ganhar o palco como ator no teatro e, pouco depois, fazer carreira no curta-metragem. Na verdade, sempre gostou de cinema. Costumava colecionar restos de película que sobravam dos três cinemas de Caruaru. Lá e também em Recife criou diversos cineclubes e foi vice-presidente da ABD Nacional (Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-metragistas) por duas vezes. Em 1993, em Olinda, fundou com Marcelo Gomes (“Cinema, Aspirinas e Urubus”) e Adelina Pontual a produtora Parabólica Brasil. Quatro anos mais tarde, seria diretor de produção de “Baile Perfumado” (1996), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. E com “Texas Hotel” (1999) pode-se vislumbrar o que aconteceria quando Assis chegasse aos longas.

Nesta entrevista, Assis relata como surgiu a ideia de “Febre do Rato”, quando ainda preparava o lançamento de “Amarelo Manga”; sublinhou como é difícil captar recursos para os seus filmes e celebrou o momento do cinema em Pernambuco. O cineasta rechaçou o termo “violento”, em geral associado aos seus filmes. Para ele, essas acusações não passam de hipocrisia e é o cinema que anda conservador e higiênico. Com o nome de seus parceiros na ponta da língua (entre os mais frequentes estão a produtora Júlia Moraes, o roteirista Hilton Lacerda, o fotógrafo Walter Carvalho, a diretora de arte Renata Pinheiro e o ator Matheus Naschtergaele), defendeu um cinema de irmãos, despojado e abusado. “Esta é a mensagem de ‘Febre do Rato’: faça o que quiser fazer”. Os caretas que se cuidem.

 

Revista de CINEMA – O que o levou a “Febre do Rato”? É verdade que o projeto começou a tomar forma ainda em 2003?

Cláudio Assis – É verdade. A ideia surgiu quando ainda estávamos nos preparando para lançar “Amarelo Manga”. Naquela época, Hilton Lacerda já tinha até escrito algumas cenas. Queríamos uma história urbana e poética. Era algo que se aproximava do “Soneto do Desmantelo Blue” (1993), curta que havíamos feito em preto e branco baseado na obra do poeta Carlos Pena Filho. Em Pernambuco, há toda uma geração de poetas urbanos marginais muito interessantes. Mas o fato é que nós fomos todos atropelados pela repercussão do “Amarelo”. Eu ainda estava aprendendo o ofício, tinha acabado de estrear em longas. E, naquele momento, pensei que seria melhor explorar um outro espaço antes de retornar a Recife. Então, seguimos para “Baixio das Bestas” e deixamos “Febre do Rato” para depois.

Revista de CINEMA – E que filme você vê em relação ao que queria ter feito?

Cláudio Assis – A ideia inicial ainda esta lá. Na verdade, a gente foi perseguindo essa ideia. Ela foi amadurecendo, crescendo. Em 2003, queríamos contar uma história que saísse da boca de um poeta e em preto e branco. Isso foi preservador. É o coração do filme.  O poeta admite tudo, pode tudo, tem o poder de ser quem quiser. O mundo, no entanto, é dos caretas, dos conservadores. Portanto, entre a poesia e a realidade, há choques.

Revista de CINEMA - Muitas pessoas consideram seus filmes violentos. O que acha disso?

Cláudio Assis - Uma hipocrisia! Meus filmes não são violentos. Isso é uma mentira! Eu posso te contar uma história sobre isso. Exibi o “Amarelo” no Planalto para o ex-presidente Lula, sua mulher e alguns ministros. Alguns deles estavam preocupados com o Lula e sua esposa, pois consideravam o filme violento. Pois bem, no final do “Amarelo”, dona Marisa retrucou: “esse filme não é violento. É forte. É necessário”. Essa é a diferença. Eu filmo a vida como ela é. A minha câmera está interessada em personagens que em geral não aparecem no cinema e muito menos na TV. O que é mais violento: os meus filmes ou a Igreja Evangélica? Ninguém se choca com a violência do noticiário televisivo, mas basta eu filmar um boi sendo morto… algo tão natural e corriqueiro, que acontece aos montes todos os dias… Agora, quando o Tarantino faz o que faz, ele vira cult…

Revista de CINEMA – O “agora é só poesia” do cartaz do filme parece ganhar duplo sentido, não é? Refere-se tanto às poesias do personagem como um novo momento de seu cinema.

Cláudio Assis – As pessoas não diziam que era violento? Agora então vamos de poesia (risos). Mas com a mesma intensidade. A poesia não é bonitinha. Ela é forte. Ela tem endereço. Na verdade, estou filmando as mesmas pessoas e os mesmos problemas. Continuo o mesmo.

Revista de CINEMA – Você poderia falar um pouco sobre sua parceria com Hilton Lacerda? Como funciona?

Cláudio Assis – É uma coisa de irmãos. Nós somos completamente diferentes, mas nos respeitamos. Ele me respeita. Eu o respeito. O Hilton é culto e inteligente. Ele me entende e me traduz em palavras. É extraordinário. Acho que ele é o melhor roteirista do Brasil. E não falo isso só pelos meus filmes. O Hilton escreve os melhores diálogos do cinema brasileiro. E o nosso trabalhado é baseado no respeito e na liberdade. Eu dou muita liberdade. Busco sempre a coautoria. Nós conversamos muito. Não é um roteiro de encomenda. Muito pelo contrário. Os meus projetos levam bastante tempo para serem realizados. E nesse meio tempo, a gente vai e volta ao roteiro. Na verdade, essas idas e vindas seguem até a filmagem. É algo bem dinâmico.

Revista de CINEMA – Como foi o processo de captação de “Febre do Rato”? Ficou mais fácil viabilizar seus filmes?

Cláudio Assis – Não! Faça as contas. “Baixio das Bestas” foi lançado em 2006. Estamos em 2011. São cinco anos! Não é fácil. Desta vez, não ganhei o edital de Baixo Orçamento. Nós tivemos que correr atrás. A gente padeceu. Eu enlouqueci total. E agora mesmo, já estou angustiado com o lançamento do “Febre”. É tudo muito difícil. O cinema brasileiro cresceu. Não há como negar. Uma enorme quantidade de filmes nacionais estão sendo lançados todo ano. Mas lançados de que maneira? Os longas entram e saem de cartaz sem ninguém saber. Eu quero que o povo veja o “Febre”. Quero que os jovens vejam este filme. Eles têm de entender que podem fazer o que bem entenderem da vida. Mas, para isso, as pessoas precisam saber que este filme existe. Eu tenho certa preguiça de ir aos festivais. Claro, é bacana, as pessoas são interessantes, nós ganhamos prêmios e tal, mas os longas não chegam no público. O governo deveria pensar de maneira mais estratégia, investir na visibilidade do cinema nacional. Foi o que fizeram nos EUA e na Europa.

Revista de CINEMA – E o cenário do cinema no nordeste?

Cláudio Assis – Melhorou sensivelmente. Quando fizemos o “Amarelo”, era preciso trazer tudo do Rio e São Paulo. Até mesmo câmeras 35 mm. Veja bem: não havia câmeras 35 mm no nordeste! Bom, isso mudou. A tecnologia facilita as coisas. Tem muita gente fazendo cinema em Recife por causa do digital. Mas é verdade também que o governo do estado tem trabalhado muito neste sentido e vem investindo milhões e milhões no cinema pernambucano. Existe um edital anual somente para o audiovisual. Até cineclube recebe dinheiro.

Revista de CINEMA – Como se prepara para as filmagens? Realiza storyboards? Faz muitos ensaios?

Cláudio Assis – Eu não faço storyboard. Não gosto quando sei o que vai acontecer no set. Não quero fazer assim. Eu gosto de misturar documentário com ficção, ator e não ator. Durante as filmagens do “Febre”, por exemplo, um mendigo se aproximou e pediu para trabalhar. Nós arranjamos um papel para ele entrar no filme. É assim que gosto de trabalhar. Os atores e não atores ensaiam bastante entre eles. Depois, vamos ao set. Eu gosto do calor do momento.

Revista de CINEMA – Durante as filmagens de “Febre do Rato”, vocês tiveram alguns problemas com a polícia, não é?

Cláudio Assis – Foi sim. Algo ridículo. Estávamos filmando nas ruas do bairro Boa Vista, no Recife. Era uma sequência em que o Zizo incita as pessoas a tirarem as roupas para se despirem de sua simbologia social. Era 7 de setembro, Dia da Independência. A cidade em geral fica vazia. E nós fechamos todas as ruas ao redor. Pagamos por isso. A prefeitura não só não deu um tostão para o filme como ainda nos obrigou a pagar para poder fechar as ruas e filmar. Alguém, no entanto, ligou para a polícia e fez uma denúncia. E a Polícia Militar apareceu. Eram um dez carros e outras motos. Quiseram levar o Irandhir preso, uma das atrizes… Foi uma correria danada. A produção tentando tirar os atores de lá… E as câmeras filmando tudo. A nossa sorte foi que o comandante da corporação sabia quem eu era, tinha visto “Amarelo Manga”, e apaziguou os ânimos dos subordinados. Isto não é violência?!

Revista de CINEMA - No “Amarelo” a câmera é urbana, ela anda atrás das coisas. No “Baixio” a câmera absorve o tempo parado daquelas pessoas. Como é a câmera de “Febre do Rato”?

Cláudio Assis – É uma mistura desses dois aspectos. Ela precisava fazer as duas coisas. É uma câmera urbana, que acompanha o Zizo aonde ele for. É uma câmera poética, que tenta materializar na imagem a energia poética do personagem. Era isso que eu e Walter Carvalho queríamos. A imagem tinha que ser de alguma maneira o olhar do poeta. A fotografia tinha que ser poesia. Por isso optamos pelo preto e branco, por exemplo.

Revista de CINEMA – Walter Carvalho é outro parceiro de longa data.

Cláudio Assis – Sim. Eu trabalho com parceiros. Sempre. É como eu sei fazer. Quero essa parceria de ideias. Quero um cinema despojado, abusado. Um cinema de pau duro! Não quero ter vergonha das coisas que faço. Quero que meus filhos tenham orgulho dos filmes que fiz. Eu encorajo a minha equipe a ser criativa. Todo mundo, do Walter Carvalho aos motoristas da van. Eles precisam entender que o filme é nosso. Eles precisam comprar este cinema. Claro que eu serei responsável pela qualidade do longa. Mas a autoria é de todos nós.

Revista de CINEMA - Você se considera um esteta?

Cláudio Assis – Não sou esteta coisa nenhuma! Eu sou um guerreiro. Um guerreiro que se junta a outros guerreiros, e, juntos, fazemos cinema. Não tem nada de esteta.

Revista de CINEMA – “Febre do rato” é uma expressão popular típica do nordeste que designa pessoas fora de controle, sem limites. A ideia era fazer dessa febre algo contagioso?

Cláudio Assis – Na verdade, o título do filme faz alusão a duas coisas. Uma delas é essa expressão nordestina de alguém que está fora si, como os integrantes do maracatu que bebem azougue antes de entrar na folia. A outra diz respeito aos alagamentos recordes que ocorreram nos anos 60, quando as águas chegaram a 2 metros e houve um surto de febre de rato. Então, tem esses dois lados. Acima de tudo, no entanto, febre de rato é uma atitude. Uma atitude que é minha e de minha equipe, e que, como algo contagioso mesmo, queríamos passar para o público. A expressão batiza o jornalzinho publicado por Zizo, um poeta anarquista e revolucionário que acredita que as pessoas têm direito de ser o que quiserem. Esse sentimento dele e as coisas que ele escreve vão atingindo as pessoas ao redor.

Revista de CINEMA – Todos os seus outros filmes foram lançados no Festival de Brasília. O que o fez estrear “Febre do rato” em Paulínia?

Cláudio Assis - Meu lugar sempre foi Brasília. Todos os meus filmes foram para lá. Mas Brasília não é mais em novembro. Antecipou-se para setembro, antes do Festival do Rio. E Paulínia é uma cidade que vem investindo bastante no cinema nacional. Por que eu não haveria de prestigiar o festival de Paulínia? Muito pelo contrário. Nós refletimos muito sobre o assunto e achei importante estrear por lá. Foi uma atitude pensada mesmo.

Revista de CINEMA – Como tem sido a recepção das pessoas?

Cláudio Assis – Ótima. Por que gosto tanto de Brasília? Porque lá a plateia é bem plural. Não tem só cariocas ou paulistas. Tem gente do Brasil inteiro. Pois as sessões de Paulínia me surpreenderam positivamente. O público era em sua maioria do interior de São Paulo, com gente de todas as idades. E as pessoas reagiam ao filme. Entravam no filme. Eram contagiadas por aquilo. Não foi como o “Baixio das Bestas”, que dividiu o público já em sua primeira exibição lá em Brasília. Foi na estreia em Paulínia que vi que tínhamos acertado. O “Febre” estava mesmo do jeito que queríamos.

Revista de CINEMA – Poderia falar de seus próximos projetos?

Cláudio Assis – São dois. Um deles é uma adaptação de um romance do Xico Sá. A história se passa no sertão, na região do Crato. Eu, o Xico e o Hilton estamos trabalhando no roteiro. A ideia é pensar o Brasil. Quem somos? É algo sério, mas como humor, rindo de nós mesmos. Afinal, sem isso… O outro projeto é para um filme infantil. Chama-se “Chão de Estrelas”. Foi meu filho que pediu para eu fazer um filme que ele pudesse assistir. E eu estava no aniversário do Beto Brant quando o Paulo Lins, autor do romance que deu origem ao “Cidade de Deus” (2002), me disse que o haviam pedido para escrever o livro infantil. Ele me perguntou porque não fazíamos também um filme. Começou assim. Ainda estamos no roteiro.

 

Por Julio Bezerra

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  1. Gostei!

  2. Claudio Assis é um guerreiro mesmo! Conseguir fazer o cinema que ele faz é quase impossível. Poesia subterrânea e suja e real, extremamente real. Parabéns pela entrevista.

  3. Claudio Assis – Claudio Magro – A lembrança me leva ao tempo do teatro com Vital Santos, Acimar, Biuzinho, Suit-berto, Greta, Tião, e outros que pairam nas minhas lembranças,

    Hoje fico feliz em ver que conseguistes, e melhor que isso, você nobre amigo mantivestes tua ideologia e respeito aos teus ideais.

    Lembranças da peça “O Uivo”, e outras mais, em que procuravas sempre fazer o teu melhor.

    Saudade do sarapatel na barraca da feira apos os ensaios.

    Hoje só lembranças, e a alegria de te ver como diretor da arte natural e real brasileira.

    Estou aqui, boa sorte nobre amigo, bom te ver.

  4. Pingback: Cláudio Assis | Voo subterrâneo

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