Colunas Críticas de Filmes — 04 julho 2012
Os Deuses Malditos

Os anos 60 foram generosos com o cinema italiano. Roberto Rossellini, Frederico Fellini, Pier Paolo Pasolini, Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti são nomes presentes em qualquer história do cinema. Isso para ficar só nesses: em franca atividade, seus filmes eram aguardados ansiosamente. É o que ocorreu com a trilogia alemã, de Visconti: “Os Deuses Malditos” (1969), “Morte em Veneza” (1971) e “Ludwig” (1973). Dessa trilogia, o primeiro sai agora em DVD pela Versátil.

“Os Deuses Malditos” tem como fundo histórico o relacionamento entre a aristocracia alemã e o Partido Nacional Socialista. O barão Joachim von Essenbeck é um magnata da indústria siderúrgica que comemora seu aniversário em sua faustosa casa. No jantar, ao mesmo tempo, anuncia que em proveito da Fábrica pactuará com os nazistas e convive com dissensões familiares, como resultado de sua decisão. Logo em seguida, o barão é assassinado e aquele que se opôs frontalmente à sua decisão é rapidamente acusado de tê-lo matado. A convivência entre os membros da família von Essenbeck e a ascensão de Hitler é tratada de modo a exigir do espectador atenção para o detalhe. Um dos diretores mais minuciosos da história do cinema, Visconti se esmera no cuidado de detalhes cenográficos. Em “Os Deuses Malditos”, atenção para a quase inexistência de cenas externas. Ao fazer essa escolha, que não ocorre em filmes históricos como “Senso” (1954) e “O Leopardo” (1963), Visconti acentua como a mobília da mansão dos von Essenbeck passa a conviver com estandartes e insígnias nazistas.

Nesse detalhe que pode passar despercebido, um fio condutor para o espectador se antecipar aos acontecimentos da trama e, simultaneamente, perceber como a aristocracia alemã conviveu com a ascensão do nazismo. Vale destacar que no período entre guerras a nobreza alemã, portadora de valores tradicionais, também está ajustada ao capital: os von Essenbeck são magnatas da indústria; o titulo de nobreza esconde que são de fato burgueses. Ajustados ao capitalismo, nisso as desavenças e disputas familiares que levam os von Essenbeck à desagregação e à tragédia final. Nisso se entender também por que viam em Hitler aquele que os protegeriam da ameaça comunista.

Seria simplificação, no entanto, tomar “Os Deuses Malditos” pelo viés histórico e social. O que o torna uma obra prima é a maneira como Visconti retrata um universo familiar em desagregação, como ele traça o perfil psicológico de personagens num espaço em que toda sorte de promiscuidade é possível. Para quem viu “Rocco e seus Irmãos” (1960), não deixa de ser impressionante notar como Visconti não cai em maneirismos, como desloca o foco e possibilita ao espectador ver algo novo em uma mesma temática.

Um aspecto que realmente merece ser destacado no conjunto da obra de Visconti é a predominância dos conflitos de classes e, ao mesmo tempo, a inadaptabilidade da aristocracia ao mundo moderno. Com isso pode-se aproximar realidades distintas como a de “O Leopardo”, e a nobreza italiana no momento da unificação da Itália, e “Os Deuses Malditos”. Com isso, igualmente, separar os valores que movem os Salinas de “O Leopardo” e os dos von Essenbeck. Descendente da Casa de Visconti, Visconti, o cineasta, também era comunista. Essa dupla condição, talvez, lhe tenha dado elementos para que fosse o mais sincero e refinado artista a mostrar mundos antagônicos numa realidade conflitante, explosiva e decadente.

 

Por Humberto Pereira da Silva

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