Artigos Criação Narrativa — 09 outubro 2013
Para que serve uma teoria da ficção?

Pesquisadores na área da linguística e da semiótica de origem francesa estão cada vez mais próximos de encontrar um modelo teórico para o texto de ficção, algo muito útil aos criadores de histórias, romancistas e roteiristas, ávidos por aperfeiçoar seus métodos de criação com teorias mais concretas que as oferecidas em manuais, que ainda são insuficientes para adentrar nas camadas mais profundas do corpo ficcional. Conhecimentos novos que seriam bem vindos ao mercado em razão da demanda por conteúdos para cinema e TV no Brasil, que necessita de mais gêneros além da comédia. A questão desta teoria é um assunto predominante nas pesquisas acadêmicas, e que demora às vezes a chegar ao mercado de trabalho, especialmente estas teorias restritas às universidades.

Essas novas descobertas sobre a análise “interna” do texto abordam não apenas o seu discurso, relatando aquilo que o texto diz, mas a forma como ele diz. É o sentido do texto, da história e dos seus personagens, que entra em jogo. Teorias estas que partem da percepção de que essa análise interna dos textos narrativos tem um sentido gerativo que parte de um nível mais profundo, onde estão as relações emocionais dos personagens, passando por um nível meramente narrativo, com personagens cumprindo funções, até chegar ao nível do discurso, onde a história é relatada, considerado o nível superficial, de fácil visualização. E onde se estruturam as ações dos personagens que os autores conseguem chegar.

Este novo estudo interno do texto, em primeiro lugar, oferece modelos de análises da criação como o famoso percurso interno dos personagens, não mais na sua jornada mítica, mas na jornada existencial. Um modelo que tem dimensão analítica que ajuda o autor na percepção da criação e construção, tornando visível o imanente através dos estados patêmicos da alma desses personagens. Não se trata de uma nova forma de olhar o personagem, mas de que essas teorias, que engatinhavam com Roland Barthes e Umberto Eco, quando nos anos 60 lançaram os famosos ensaios “Análise Estrutural da Narrativa”, evoluíram para um novo patamar analítico, especialmente depois da existência da Semiótica das Paixões no início dos anos 90. Um modelo que passou a estudar não mais as ações dos personagens, por que são impelidos a agir, mas como seu estado emocional o leva à ação.

A Paixão quer dizer sofrer. Descartes, quando lançou “As Paixões da Alma”, estava relatando o “sofrer”, um percurso inerente ao ser do personagem. A Paixão de Cristo, por exemplo, é uma narrativa sobre o sofrer de Jesus no calvário. É chamado de paixão porque relata um percurso final de sua vida e crucificação. A partir desta visão, os semioticistas montaram um modelo de análise do percurso patêmico dos estados de alma dos personagens, onde podemos ter um bom estatuto da “vingança”, “ódio”, “ciúme”, mudando o foco da ação do “fazer” para o “ser”. Ou seja, saem os esquemas estruturais e entram os “modos existenciais”, através dos quais os personagens podem surpreender. Partindo do princípio de que todo personagem vive um estado de espera e que todo acontecimento gera uma ação de motivação existencial.

Com estes modelos analíticos, os linguistas contribuíram para uma série de desenvolvimentos da narrativa, para o roteiro e o romance, e que são capazes de gerar os pontos de virada da história, assim como o sentido das ações dos personagens com muito maior precisão e teorias sólidas. Com essas descobertas, podemos sair do modelo estrutural que conhecemos para o modelo passional, a grande novidade que a semiótica oferece aos profissionais do texto ficcional.

Essa teoria, entretanto, se baseia em um século de estudos e avanço no campo da análise científica da ficção, e vem se mantendo nos mesmos princípios ao longo desses anos nas mãos de diferentes teóricos. Em 2016, comemoram-se os 100 anos do lançamento do Curso de Linguística Geral, de Ferdinand Saussure; teorias que iniciaram uma revolução na forma de analisar o mundo, através do significante da coisa em si. Saussure definiu novos parâmetros para o pensamento francês moderno, oferecendo novos instrumentos para a análise textual em Barthes e Umberto Eco, para a antropologia de Lévi-Strauss, para o surgimento da psicanálise de Lacan, que inclusive inicia seus estudos explicando que toda sua teoria parte de uma análise do significante. E agora a contribuição para a Narrativa, a partir da análise do que significa o texto, camada por camada, com a inclusão da fenomenologia da percepção, absorvendo a filosofia nas teorias semióticas, através do linguista e filósofo A. J. Greimas, o criador da Semiótica das Paixões.

O grande problema para que este conhecimento chegue ao campo do cinema, sem dúvida, é porque se encontra na área das Letras e não do Audiovisual, e praticamente disponível no Brasil apenas na USP, somente a nível de mestrado e doutorado. Isso tem dificultado sua difusão junto a escritores, roteiristas e cineastas.

 

Por Hermes Leal, jornalista, escritor e documentarista, mestre em Cinema pela ECA/USP, doutorando em Semiótica na FFLCH/USP e autor do romance “Faca na Garganta” e da biografia “O Enigma do Cel. Fawcett”, entre outros livros

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