“Serra Pelada” – Western Tacacá
© Cia de Foto

Wagner Moura tem defendido a produção de filmes que sejam capazes de dialogar com o grande público, sem abrir mão de empenho temático e artístico. No mundo cinematográfico dos sonhos do ator (agora produtor e, em breve, diretor de “Marighella”), a dicotomia entre filmes “cabeçudos” e produções caça-níqueis chegará ao fim.

“Serra Pelada”, disponível em 300 salas brasileiras, a partir desta sexta-feira, 18 de outubro, tem Wagner como ator e coprodutor. Ele agregou seu nome e prestígio a um filme que busca o diálogo com o grande público, sem apelar para soluções fáceis.

Os protagonistas de “Serra Pelada” são o ex-boxeador Juliano (Juliano Cazarré) e o professor Joaquim (Júlio Andrade), que deixa a mulher grávida em São Paulo para, junto com o amigo, tentar a sorte no garimpo. Wagner Moura desempenharia o papel que ficou com Cazarré. Como abraçara o projeto “Serra Pelada” desde o início, ao deparar-se com compromissos internacionais, o ator restringiu-se a participação especialíssima como Lindo Rico (Heitor Dhalia garante ter encontrado este nome tão brega em suas pesquisas sobre o mega-garimpo do sul do Pará).

Lindo Rico é um aventureiro violento, que se impõe à custa de armas e capangas, neste típico western tacacá (temperado com muito da gramática dos filmes de gângster). Wagner, senhor de seu ofício, interpreta o ambíguo Lindo e Rico em registro fascinante: calmo, de fala mansa e persuasiva. Debaixo desta capa aparente, porém, está um homem que tem sangue nos olhos e mata sem pestanejar.

Wagner Moura como Lindo Rico. © Cia de Foto

O Garimpo de Serra Pelada, que, em 1982, ambientou pioneiro filme de Renato Aragão, Dedé, Mussum e Zacarias (“Os Trapalhões na Serra Pelada”) aparece também, neste ano, como tema central de um ótimo documentário, “Serra Pelada – A Lenda do Ouro”, de Vitor Lopes. O garimpo está presente, ainda, num dos mais fortes trechos de “Revelando Sebastião Salgado”, de Betse de Paula, registro da trajetória do famoso fotógrafo brasileiro. Nunca é demais lembrar que é da lavra de Salgado o mais rico acervo de imagens do imenso garimpo a céu aberto. Os dois documentários, ainda inéditos no circuito comercial, enriquecem de forma significativa o tema que levou Heitor Dhalia a realizar seu quinto longa-metragem.

“Serra Pelada”, ao dialogar com o western e com os filmes de gângster, evoca duas importantes matrizes: “Os Bons Companheiros”, de Martin Scorsese, e “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles. O filme tem tudo para mobilizar o grande público.

O narrador da história é Joaquim (Júlio Andrade), amigo desde a infância de Juliano (Juliano Cazarré). Ao chegar ao garimpo paraense, os dois descobrem o formigueiro em que foram se meter. Alimentados pelo sonho de bamburrar (tirar a sorte grande), terão que decidir se serão “formigas” (carregadores de sacos de terra e cascalho, por imensas escadas) ou donos de catas. Graças à força física de Juliano, eles conseguirão se impor e assumir um pedaço de chão. Mas para conquistá-lo e mantê-lo, Juliano adotará práticas de gângsters. Matará, sem mostrar arrependimento. Joaquim, mais instruído, será o sócio e contador dos “negócios” da dupla. Quer juntar dinheiro para voltar para a mulher e o filho. Juliano, por sua vez, se apaixonará por Teresa (Sophie Charlotte), jovem que deixará a prostituição para casar-se com seu protetor, o fazendeiro Carvalho (Matheus Nachtergaele), dono de muitas catas no garimpo. O noivo tudo fará para comprar a cata de Joaquim e Juliano. A dupla se negará a vender seu maior bem.

A paixão por Teresa, alimentada por fortes cenas de sexo, vai tumultuar a vida do viril garimpeiro. Vai arremessá-lo cada vez mais pelos caminhos do crime.

Joaquim, vendo o rumo que a vida no garimpo vai tomando, começa a esconder parte da grana gerada pela cata para ampliar seu “pé-de-meia”. Juliano descobre e rompe com o amigo. Com o assassinato do explorador Carvalho, no dia de seu casamento com Teresa, outra figura de procedimentos brutais cruzará os tortuosos caminhos de Juliano e Joaquim: Lindo Rico.

Júlio Andrade, Sophie Charlotte, Heitor Dhalia, Juliano Cazarré e Wagner Moura, na pré-estreia de "Serra Pelada", em São Paulo, no dia 14 de outubro

Como o modelo de Dhalia é o filme de gângster, com tempero brasileiro, o espectador ouvirá diálogos duros, recheados de expressões brutais e palavrões (inclusive da boca da jovem Teresa). Não encontrará personagens certinhos, de feitio cristão, para com eles se identificar. Há sangue no olho do belo e carismático Juliano. Joaquim não hesitará em roubar o amigo. Teresa não posa de virgem no bordel. As “marias”, denominação dada a travestis que também foram garimpar ouro e homens, são femininas quando lhes convém e machos sanguinários quando o perigo se aproxima.

“Serra Pelada” é um filme recomendado a quem gostou de “Os Bons Companheiros”, “Cidade de Deus” e “A Rainha Diaba”.

Épico banhado em sexo e sangue

Heitor Dália, diretor de “Serra Pelada”, a produtora Tatiana Quintella e a corroteirista Vera Egito, que está preparando o longa-metragem “Maria Antônia – A Incrível Batalha dos Estudantes”, respondem a questões levantadas pela Revista de CINEMA.

Heitor Dhalia nasceu no Rio, criou-se em Pernambuco e hoje está radicado em São Paulo. Casado com Vera Egito, eles têm uma filha pequenina, Glória. Antes de estrear no longa-metragem com “Nina”, Dhalia escreveu roteiros para longas como “As Três Marias”. Conheceu o sucesso com “O Cheiro do Ralo”, um filme de baixíssimo custo, que rendeu 150 mil espectadores. Seguiram-se “À Deriva”, produção internacional com elenco encabeçado por Vincent Cassel, e – nos EUA, como diretor convidado – realizou “12 Horas”. Não gostou da hierarquia imposta pelos produtores. Regressou logo ao Brasil para mergulhar em paixão antiga: recriar a história do maior garimpo manual da história de país. O de Serra Pelada, no sul do Pará.

Heitor Dhalia nas filmagens de "Serra Pelada"

Revista de CINEMA - “Serra Pelada” dialoga com o western e com “Os Bons Companheiros”, de Scorsese. Western mais filme de gângster. Com que outras referências você dialogou?

Heitor Dhalia – Na verdade, o filme tenta um diálogo com os westerns e os filmes de gângster, como você mesmo apontou. Mas a nossa grande referência foi mesmo Serra Pelada. A história real era tão rica que nos ofereceu grande parte do material que usamos para construir o filme. Foram mais de 5 mil fotos, entrevistas com garimpeiros que por lá passaram e com jornalistas que cobriram o garimpo. Se você pensar em termos de outros filmes com os quais dialogamos, eu lembraria “Scarface” (Brian de Palma) e “Sangue Negro” (Paul Thomas Anderson), pela construção de protagonistas trágicos ou “Apocalypse Now” (Francis Ford Coppola). Este, por retratar um “set” surrealista e caótico. Mas sem dúvida nenhuma minha grande inspiração e influência vieram das histórias e imagens do próprio garimpo de Serra Pelada.

Revista de CINEMA - Gostaria que você falasse da escolha do Lito Mendes da Rocha para a fotografia e como vocês dois chegaram a este resultado em que tons terroso-dourado-vermelho, quentes e suados, são a força matriz-motriz.

Heitor Dhalia - O Lito tem sido um parceiro constante em vários projetos de menores dimensões. Ele tem um grande senso estético e um grande apuro na concepção visual de um plano e de uma cena. O processo de concepção visual foi longo e teve, de novo, a grande influência da iconografia e das imagens do garimpo. Nós queríamos trazer de volta a força e a energia daquele ambiente povoado por milhares de garimpeiros. E a câmera do filme procura isso o tempo todo. O garimpo tinha (tem) grande força e um elemento caótico que tomava conta de tudo. A fotografia do filme busca isso, o desequilíbrio, uma pulsão vital de conquista e ganância. Além, claro, das cores vibrantes dos “puteiros dos 30” e as cores terrosas e douradas da cava. O Lito foi um grande parceiro neste desafio, que foi trazer a vida de novo à cava e ao garimpo de Serra Pelada.

Tatiana Quintella é produtora e sócia da Paranoid Filmes. Comandou a equipe que criou o Polo de Cinema, a Escola Magia de Cinema e o Festival de Paulínia, em meados dos anos 2000. Responde pela parte brasileira da produção do documentário que Spike Lee realiza sobre o Brasil.

Tatiana Quintella, sócia da Paranoid Filmes, produtora de "Serra Pelada"

Revista de CINEMA – Como você e equipe de produção montaram a engenharia financeira e de locações do filme? Afinal, ele foi feito no Pará e, principalmente, em São Paulo (Paulínia e Mogi das Cruzes). Como comandar projeto tão complexo, com “cenários” complicadíssimos como aquele garimpo de dimensões quase bíblicas, em prazo curto? Sim, porque o filme, apesar de suas dimensões, ficou pronto logo e já está no mercado!

Tatiana Quintella - Esse foi um dos maiores desafios que tive em minha carreira, depois da implementação do Polo de Cinema de Paulínia, dos documentários e dos filmes que produzi com o Cláudio Torres, “Mulher Invisível” e “O Homem do Futuro”. Estes foram projetos difíceis, mas muito mais fáceis de realizar, pois não exigiam a grande complexidade que “Serra Pelada” exigiu, principalmente pela quantidade de dinheiro de que dispúnhamos. “Serra Pelada” é realmente um filme grande. Por sorte, tivemos muita ajuda em sua concepção e desenho de produção. Montamos estrutura e logística com os recursos que tínhamos. Tivemos muita ajuda na infraestrutura e fundamental consultoria de amigos e parceiros, como a Mineradora Caravellas e a Estre. Eles nos cederam máquinas e profissionais nas grandes construções. E eles foram essenciais para a realização do longa. A Sabesp nos cedeu caminhão pipa e água para a equipe e figurantes. Também tivemos boas parcerias com hotéis, empresas fornecedoras de materiais para figurino, arte e outros itens. O Pedro Stech, da empresa Destra, foi nosso consultor ambiental e essencial para acharmos os terrenos que nos serviram de locações. Fizemos excelente pesquisa na fase de desenvolvimento do projeto e uma grande pré-produção no estado do Pará. E percebemos, em tempo, que era inviável economicamente filmar lá. Isto por causa dos preços, infraestrutura e das questões de logística. Eram tantas as dificuldades, que a produção no local, ou seja, no espaço mesmo do Garimpo de Serra Pelada, se mostrou inviável. Filmamos quase tudo em São Paulo, Paulínia e Mogi das Cruzes. Em Belém, capital do Pará, reconstituímos muito do que era Serra Pelada e seu entorno. A famosa magia do cinema nos permitiu recriar de forma convincente o Garimpo de Serra Pelada em Mogi das Cruzes. Não foi, repito, uma missão fácil, mas conseguimos. E nossa equipe merece o adjetivo “campeã”, pois cinema só é realizado quando reúne um time comprometido, unido e que tem orgulho do projeto. Sobre ficar pronto logo, pondero que “Serra Pelada” ficou pronto em um prazo dentro do normal. Só em sua complexa etapa de pós-produção consumimos dez meses.

O olhar feminino do roteiro

Vera Egito, diretora de cinema e roteirista, autora dos curtas “Espalhadas pelo Ar” e “Bond”, está preparando seu primeiro longa de ficção, “Maria Antônia – A Incrível Batalha dos Estudantes”, nova produção da Paranoid Filmes. Vera, que escreveu o roteiro de “Serra Pelada” com Heitor Dhalia, fala das personagens femininas da narrativa.

Vera Egito, corroteirista de "Serra Pelada", com Glória, filha dela com Heitor Dhalia

Revista de CINEMA - Há duas personagens femininas na história: Isabel (Eline Porto), uma Penélope que espera o marido, e Teresa (Sophie Charlotte), uma jovem prostituta que busca segurança e proteção, mas não baixa a cabeça. Ao escrever o roteiro com Heitor, que discussões vocês travaram para compor estes dois perfis femininos?

Vera Egito – Bonita a relação feita entre Isabel e a personagem Penélope. Não foi uma referência direta, mas é uma personagem clássica de que eu gosto muito. O que aconteceu é que os personagens mudaram muito ao longo dos três anos em que desenvolvemos o roteiro de “Serra Pelada”. Teresa, por exemplo, não era uma prostituta. Sua ligação com Carvalho (Matheus Nachtergaele) era muito mais emocional, mais dúbia, existia carinho entre eles. Nas filmagens, Heitor (Dhalia), Matheus (Nachtergaele), Juliano (Cazarré) e Sophie (Charlotte) compuseram uma personagem muito mais rude. O que ficou muito bom também. Gosto muito da Teresa como ela é. Mas o resultado veio de um processo múltiplo, fruto de escolhas feitas no roteiro, nos ensaios, nas filmagens e na montagem. Isabel sempre foi um a personagem pura. Mas não era garantido que ela ficaria esperando por Joaquim (Júlio Andrade). Por isso, a partir de um momento do filme, Isabel para de dar notícias e ficamos sem saber se ela ainda está à espera do marido. Mas, o que acontece ali é amor verdadeiro. Sim! Nós acreditamos nele! Eles se amam e querem ficar juntos. Joaquim passa todo o tempo pensando em Isabel. Eles são desses casais para o qual a gente olha e comenta “que casal, legal!”.

Nossos debates sobre os personagens femininos se concentraram na curva de transformação de cada um e no que isso contribui para o arco da narrativa geral. Nosso processo criativo nunca passa pelo simplismo do “eu gosto, eu não gosto”. Para mim também sempre foi muito claro que esse era um filme do Heitor. Nesse sentido, meu trabalho como roteirista sempre foi o de ajuda-lo a chegar, como diretor, aonde ele queria chegar. Encontrar soluções e construir cenas com o estilo do Heitor, cenas que ele gostaria de filmar. Ser corroteirista é isso. Entender o estilo daquele autor e contribuir com sua obra. Acho o Heitor muito talentoso. Então, viver esse processo com ele também é aprender muito. É totalmente diferente quando escrevo sozinha. Meu primeiro longa, “Rua Maria Antônia – A Incrível Batalha dos Estudantes”, que será filmado no ano que vem, inclusive, acabamos de fechar a distribuição com a Europa Filmes, é um roteiro que escrevi só. Aí eu preciso pensar no meu estilo de direção. É muito diferente escrever para dirigir. As ideias se unem. Por isso, muitas decisões do Heitor roteirista já eram decisões do Heitor diretor. De qualquer maneira, entre a gente não há grandes embates criativos. O que manda é a dramaturgia. No “Maria Antônia”, Heitor é produtor e deu opiniões precisas para o roteiro. E eu atendi às opiniões dele, pois, justamente, eram questões referentes à curva dramática, à trajetória das personagens. Tudo muito pertinente.

 

Confira aqui o trailer do filme “Serra Pelada”.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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(2) Comente

  1. Pingback: Bijuterias Limeira 'Fomos contaminados pela febre do ouro', diz diretor de 'Serra Pelada' – Jornal Dia a Dia | Bijuterias Limeira

  2. Não vi e não verei, do mesmo jeito q tentei ver e não consegui: “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite”, “Carandiru” – não sou fã, como muitos que conheço tb não são, desse cinema nacional “superrealistas, com exageros de violência (qual a diferença para o Datena),sexo quase q explicito (qual a diferença para as pornochochadas) e palavrões.

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