Entrevistas Slideshow — 15 maio 2014
Os deslocamentos e as pertubações no cinema de Karim Aïnouz
Karim Aïnouz © Joe Dilworth

Doze anos depois de estrear em longas-metragens com “Madame Satã”, em 2002, exibido dentro da mostra Un Certain Regard, em Cannes, Karim Aïnouz chega, enfim, à considerada elite do cinema, competindo com seu quinto longa, “Praia do Futuro” (2014), dentro da seleção oficial do 64° Festival de Berlim, que ocorreu em fevereiro deste ano. No meio do caminho, o brasileiro, nascido em Fortaleza/CE, em 1966, dirigiu os longas “O Céu de Suely” (2006), “Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo” (2009), em parceria com Marcelo Gomes, ambos selecionados para a Mostra Orizzonti, do Festival de Veneza, e “O Abismo Prateado” (2011), selecionado para a Quinzena dos Realizadores, de Cannes, além da série televisiva “Alice” (2008), feita ao lado de Sérgio Machado.

Filho de mãe brasileira com pai argelino, neto de um dos fundadores da Frente de Libertação Nacional, grupo que comandou o processo de independência da Argélia, Karim saiu de casa cedo, aos 16 anos, e rodou o mundo. Morou em Brasília, Rio de Janeiro, Nova York, Paris etc. Graduado em Arquitetura e Urbanismo, na Universidade de Brasília, mestre em Teoria e História do Cinema, pela New York University, Karim trabalhou como assistente de montagem e direção de longas como “Veneno” (1991), de Todd Haynes, “Swoon” (1992), de Tom Kalin, e “Arizona Dream” (1993), de Emir Kusturica, ao passo que começava a realizar seus primeiros curtas – “O Preso” (1992), “Seams” (1993), “Paixão Nacional” (1994) e “Hic Habitat Felicitas” (1996).

Hoje, Karim fica entre Berlim, Fortaleza e São Paulo. Tal fator biográfico é forte em seu cinema: seus personagens estão sempre em deslocamento, em busca de algo que, muitas vezes, não sabem o que é. Em “Praia do Futuro”, não é diferente. Donato (Wagner Moura) é um salva-vidas da Praia do Futuro, em Fortaleza. Após não conseguir salvar uma pessoa no mar e encontrando um novo amor, o alemão Konrad (Clemens Schick), Donato parte para Berlim, deixando para trás seu irmão Ayrton. Oito anos depois, Ayrton (Jesuíta Barbosa) parte em busca de Donato.

Em entrevista exclusiva para a Revista de CINEMA, diretamente de Berlim, Karim Aïnouz conta sobre o processo de criação de “Praia do Futuro” e sobre algumas características importantes e recorrentes em seu cinema.

 

Revista de CINEMA – Como surgiu a ideia para o “Praia do Futuro”?
Karim Aïnouz – Estava muito a fim de fazer um filme que tivesse mais ação e menos contemplação, o contrário de meus filmes anteriores; queria brincar com um pouco mais de tensão. Queria me engajar com certos códigos tradicionais do cinema, trabalhar com o melodrama. Também queria um personagem que tivesse uma profissão com uma questão de vida ou morte. O cinema, pra mim, é sempre uma questão de vida ou morte, não pode ser simplesmente um desejo raso. Pensei, assim, num personagem salva-vidas, com questões que me interessam mais intimamente. Sempre tive essa imagem de um personagem que quer se mudar, mudar de vida, começar tudo de novo. Coisa que fiz muitas vezes na minha vida e que me tornou mais tolerante, com um repertório maior. E a Praia do Futuro – que é meio que minha casa, frequentava muito lá, lugar pra onde sempre volto – traz o mar, coisa que sentia estar presente em todos os outros filmes. Nisso, pensei nesse personagem que ficava sempre olhando para o mar, que era uma coisa que eu fazia bastante quando jovem, em Fortaleza – e tem a coisa da praia que olha para o norte, e não para o leste, como em boa parte do Brasil. Isso tudo é muito abstrato, mas foi o ponto de partida do filme. Tinha vontade de fazer um filme sobre irmãos – nunca tive irmão e nem vou ter –, dois irmãos que se separam e depois se reencontram e fazem as pazes. Começo pensando em tons, imagens, conceitos e depois isso vira uma história. Essa história dos irmãos é a história de Berlim, dois irmãos que estão juntos, se separam e depois se juntam novamente, para virar outra coisa que não sabemos direito o que é.

Os atores Clemens Schick, Wagner Moura e Jesuíta Barbosa, em “Praia do Futuro”: relações afetivas fazem a ligação entre Ceará e Berlim. © Alexandre Ermel

Revista de CINEMA – Essa percepção que teve sobre Berlim veio da vivência na cidade?
Karim – Berlim sempre me encantou muito porque tem uma coisa muito singular nela: foi a única cidade do mundo a ser capitalista e comunista ao mesmo tempo. Não faço cinema só porque quero contar boas histórias. Cinema é para falar do mundo também. É uma maneira de pensar o mundo, senão fica pequeno. Não tem nada disso no filme, mas ele parte desse lugar. Como um lugar que teve metade capitalista e metade comunista se entende depois? Isso está um pouco na história dos dois irmãos, que estão em pontos diferentes, se reencontram e vão para um lugar em que não sei onde é. Isso é algo que me interessava explorar no sentido íntimo: como contar uma história que também é a história da cidade? Queria terminar o filme num tom poético, num lugar abstrato, desconhecido. Falo que é numa praia no mar do norte, mas podia ser na lua. Tem um trabalho de som, inclusive, nada realista. O desejo de falar de uma experiência contemporânea: para onde estamos indo? Não que você pense isso, mas reflete de onde veio a motivação para escrever o filme.

Revista de CINEMA – Você já residia em Berlim quando escreveu “Praia do Futuro”?
Karim – O roteiro é uma carta de saudade. Morei em Berlim em 2004 [por conta da bolsa Berliner Künstler Program do DAAD] e voltei para o Brasil, onde fiz “O Céu de Suely”, “Alice” e “Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo”. E fiquei com uma saudade enorme de Berlim, uma cidade que está tentando se achar – meio como o Brasil. Em 2008/2009, me encontrei com a Geórgia [Costa Araújo, produtora do filme], e contei que queria fazer um filme que se passasse na Praia do Futuro e um que se passasse em Berlim. Quando encontrei o Felipe [Bragança, corroteirista], chegamos a uma história que se passava nos dois lugares, o que parecia meio absurdo, porque eram lugares muito distintos. Tentamos encontrar uma razão poética. Então, o filme tem mais a ver com a saudade do lugar do que com o fato de estar aqui hoje. O filme encarnou essa vontade, tornou-a um objetivo concreto. Vim morar em Berlim entre 2009 e 2010, com o filme já em processo. Mas sempre voltei à Praia do Futuro, a cada seis meses, quando ia visitar minha mãe. Depois da casa dela, sempre ia à praia.

Karim com os atores Jesuíta Barbosa e Sophie Charlotte Conrad durante as filmagens de “Praia do Futuro”, em Berlim

Revista de CINEMA – Como se deu a parceria com o Felipe Bragança e como se dá a relação na prática?
Karim – Conheci o Felipe através do roteiro de “No Meu Lugar” [2009], do Eduardo Valente. E gostei muito do jeito que o roteiro foi escrito. Conheci o Felipe, então, pessoalmente, e o convidei para ser assistente de direção em “O Céu de Suely”, mas ele era muito ruim na função, não era o negócio dele. Deixei-o como diretor-assistente, dirigindo algumas cenas. E, no processo, acabamos trocando muitas ideias sobre o roteiro que foram incorporadas. O Felipe é um autor, no sentido literário. A escrita dele é linda, muito poética, muito numa linha do que me agrada. A carta que ele escreveu para o “Desassossego” é exemplo disso. Quando fui fazer o “Praia do Futuro”, o chamei para participar e foi ótimo. O Felipe é um cara, também, muito ligado ao imaginário dos super-heróis, conhece muito quadrinhos. Eu não conheço nada, mas queria isso no filme, porque o Donato é meio um super-herói da vida real, há várias referências a isso – o irmão o chama de Aquaman, por exemplo. Ele veio para Berlim algumas vezes. Conversávamos muito sobre o processo, sobre o filme, sobre o que nos interessava. Às vezes, andávamos pela cidade, tomávamos um café. E aí ele ia embora, para o hotel onde estava, ou para algum lugar mais reservado, e escrevia. Escrevia bastante, sem parar. No dia seguinte, líamos e conversávamos sobre o que estava escrito, o que podia melhorar etc. Dessa vez, ele não esteve no set quando filmamos, mas se tinha algo que achava que estava faltando, algum diálogo que achava que não estava funcionando, ligava pra ele e logo ele me mandava uma sugestão nova.

Revista de CINEMA – “Praia do Futuro” está sendo desenvolvido já há vários anos, mesmo antes de “O Abismo Prateado”. O que fez com que o projeto demorasse esse tempo para ficar pronto?
Karim – O filme demorou para ficar de pé, não só o roteiro, como também financeiramente. É um filme que envolve dois países que não têm prática de diálogo. Demoramos a conseguir uma coprodução, a levantar dinheiro – é um filme um pouco mais caro, envolve muita viagem etc. Demorou também um tempo para ser gestado. No meio do processo, apareceu “O Abismo Prateado”. Era um projeto super bacana e resolvi não ficar esperando aparecer o dinheiro. Quando “O Abismo Prateado” ficou pronto, voltei para o “Praia do Futuro” – e por isso só lancei “O Abismo” depois de filmar o “Praia”.

Wagner Moura, em cena de “Praia do Futuro”, interpreta Donato, um salva-vidas angustiado que foge para a Alemanha. © Alexandre Ermel

Revista de CINEMA – Por que escolheu o título “Praia do Futuro”, que é o nome do bairro de Fortaleza onde se passa parte do filme, sendo que a maior duração do longa se passa em Berlim?
Karim – O título do filme começou como o nome de um lugar, mas acho que a razão de adorar esse nome, para além de descrever um lugar pleno de memórias para mim, é que sempre achei esse nome tão bonito. ‘Praia’ tem algo do porvir, que é meio sinônimo do futuro. E acho que a “Praia do Futuro” do título nem é o local em Fortaleza, mas sim no porvir, no final do filme. Além da questão literal do bairro, tem a coisa de Berlim ser meio uma cidade do futuro, que aponta para frente, uma cidade cheia de tragédias e tentando digeri-las para seguir.

Revista de CINEMA – Nos seus filmes, é muito forte a característica de não-pertencimento dos personagens, de precisarem sempre andar, viajar, para tentarem se encontrar. Por que te interessa também esse viés?
Karim – É o meu quinto filme e tem umas coisas que não são bem planejadas. Outro dia me falaram: ‘todos os seus filmes terminam em estradas, com exceção do “Madame Satã”’. E não é que é verdade? Não foi algo que eu tenha pensado muito. Mas o que importa se pensei ou não? Meus filmes me parecem tão diferentes, mas tem coisas que são inevitáveis, são as questões que te perturbam. Quando você faz arte, que é uma expressão subjetiva, há sempre questões recorrentes, o que a psicanálise chama de ‘lapso’. Todos os meus filmes têm personagens meio deslocados. Me perguntam se meus filmes são autobiográficos: todos são um pouco e todos não são. Tem que ser um pouco também, mas não acho que seja calculado, que quero fazer sobre um personagem que não-pertence. Sou um pouco assim, saí de casa aos 16 anos, fui rodar o mundo, morei em mais de 15 casas e isso me fez um cara muito feliz, menos medroso, mais tolerante, sem medo de se arriscar. Claro que vai engrossando a casca. É a expressão talvez de uma experiência íntima, mas também não é só isso, senão fica meio narcísico. São personagens à procura de alguma coisa, mais do que não-pertencimento. Eles não sabem direito o que é. Madame Satã, Suely, Zé Renato [protagonista de “Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo”], a coitada do “O Abismo Prateado”, estão todos possuídos por uma inquietação. O Donato nunca fala porque ele sumiu. Temos uma inquietação ontológica. Quem não é inquieto, é paralisado. Acho que o não-pertencimento de um jeito ou de outro gera inquietação. A vida é assim: se você está achando que está tudo bem, tem um problema. O não-pertencimento fermenta isso. Acho que é importante o não-pertencimento como plataforma para falarmos do que é estar no mundo hoje, a partir de um desconforto, que talvez seja uma palavra mais precisa, um desconforto produtivo.

Alessandra Negrini em “O Abismo Prateado”, filme sobre o “não-pertencimento” para explicar o mundo de hoje a partir de um desconforto

Revista de CINEMA – Em “Praia do Futuro”, essa sensação de não-pertencimento extrapola as fronteiras nacionais. A ida para Berlim traz uma ideia forte de recomeço, de reinvenção. Por que isso?
Karim – Saí muito novo, aos 16 anos, para morar em Brasília, e depois fui para França, aos 18, passar três meses lá. Não tinha dinheiro, comprei uma passagem barata, fiquei estudando francês e foi muito bacana. Nem sei se o Donato se encontrou. Ele saiu de casa e bateu a porta, não voltou mais, foi ver como era o mundo lá fora. Isso talvez seja o elemento mais importante do filme. É um cara que saiu da água e entra na vida adulta. Tinha uma coisa na minha geração – porque talvez fosse mais difícil sair de casa, de Fortaleza para São Paulo, de Iguatu para Fortaleza, coisas que fui fazendo no decorrer da minha vida –, você não saía e voltava, você saía; era algo meio violento, mas muito bonito. Hoje em dia, não dá mais pra sumir, como o Donato fez. Alguém vai te achar de algum jeito. No filme, há algo muito geracional nesse sentido. Ele se aventura, se joga. Tenho uma sensação de que a nossa geração se arriscava mais. Me parece que o mundo contemporâneo é muito pautado pelo medo, que se arrisca menos, porque tudo é muito competitivo. Sinto falta do risco no mundo. A extrema direita na Europa é muito forte e se calca muito no medo dos outros. Portanto, não me parece algo da fronteira nacional. Ele atravessa o Atlântico, ele mergulha e sai em Berlim, para começar de novo. Sempre achei que as pessoas têm vontade de se jogar no mundo e serem outras pessoas. Importa a travessia para outro lugar para ser outra pessoa. Esse é o lado mais metafórico do filme. Mais do que se encontrar, me interessava mais o salto.

Revista de CINEMA – Outra característica forte em seu cinema é a sensação de abandono de seus personagens. Como trabalha isso?
Karim – Minha família é uma família típica brasileira, em que os homens iam e as mulheres ficavam. Os homens tinham a liberdade de ir porque não engravidam, precisam ganhar dinheiro. Os homens da minha família vão muito embora e essa sensação de abandono de meus personagens talvez venha de algo muito pessoal. O abandono não produz vítimas necessariamente, pode produzir heróis, vida também. Na minha família, nunca ninguém virou vítima por causa do abandono, todo mundo fez sua vida. Achava importante falar disso. No cinema, é bom você ver os outros se fuderem, pois a gente sai falando “ao menos, não me fudi tanto”. Era importante, pra mim, falar que a vida é dura, somos todos abandonados em algum momento – quando nascemos não estamos mais no corpo da mãe, por exemplo –, e que isso produz vida também.

Hermila Guedes em “O Céu de Suely”, onde Karim exerce um intenso trabalho corporal relacionado ao contexto do filme

Revista de CINEMA – Em seus filmes, também é muito forte sua relação com o filmar a sexualidade e o corpo em ação. Por que isso?
Karim – Isso foi acontecendo por acaso. Em “Madame Satã”, pra mim, o personagem estava vivo não por questões místicas, mas porque lutou a vida inteira, fisicamente, dançava etc. Falaram da questão do corpo. Não tinha pensado nisso. Depois me dei conta de que adoro filmar corpos. Acredito muito no momento do aqui, agora. A presença do corpo e a fisicalidade me interessam. Se viajo, por exemplo, não consigo muito ficar no email etc., preciso sair, ficar com as pessoas. É algo muito físico. O mundo me dá prazer pela presença física nele. A presença do corpo na tela é muito potente. Fiz um curta nos anos 1990 [“Hic Habitat Felicitas”], com plano fixo, mesma lente, e algo me incomodava. Sentia a necessidade de ficar próximo aos personagens. Os outros filmes vieram nessa toada. Gosto de filmar presença humana, gente respirando, cantando, dançando, fazendo ações vitais, como sexo, dança, comida, viagem, que são ações muito presenciais. Em “O Céu de Suely”, já trabalho bem isso, a presença corporal dentro de um espaço, um contexto. Não há coisa melhor do que comer, fazer amor, dançar, então, acho importante documentarmos isso e o cinema é muito potente para tal.

Revista de CINEMA – A temática homossexual, em algum momento, foi uma questão para você? Como trabalhar esse tema e por que utilizá-lo?
Karim – De um lado, havia um desejo de fazer uma coisa que nunca havia feito. Me interessava muito fazer um melodrama masculino, gênero muito ligado ao feminino. Nos anos 1970, não tinha videogame e computador, tinha novela, que era basicamente melodrama. Por isso, a questão homoafetiva, homoerótica no filme. Nós homens temos uma maneira de negociar afeto de modo muito particular e queria adentrar nisso. Como são dois homens que são irmãos? Como são dois homens que são amantes? Dois homens que são inimigos? Como se dá o afeto entre homens? Acho que o filme tem essas camadas todas. Tem o amor e o ódio entre dois irmãos, entre dois amantes. Isso me interessava mais do que trabalhar a homossexualidade por si só. Me interessava falar também o que era uma relação afetiva e sexual entre dois homens. Mas não dá para falar que tanto faz. Não acho que seja um assunto neutro. Nunca ninguém me perguntou por que escolhi fazer um filme sobre um personagem heterossexual (risos). Acho que isso fala de um estado de coisas do nosso mundo. Claro que é uma prática sexual de exceção, se não essa pergunta não teria sido feita, mas acho importante atacá-la. Estamos em 2014. Era importante falar da relação entre dois homens sem o peso da questão, sem precisar justificar. Óbvio que aquilo tem um peso dentro da história, porque o Donato é do exército, vem de um lugar muito homoerótico, mas também muito homofóbico. Quando o irmão fala “você foi dar o cu escondido no polo norte”, tem isso também, mas ele foi fazer outras coisas. Não queria partir de um pressuposto de que isso era um problema capital para o personagem do Donato, mas sim para o irmão, que pergunta logo de cara. Donato não responde. É um problema ficar discutindo casamento gay, porque casamento gay tem que existir e pronto, tem que ter casamento de tudo. Tem que falar sobre o que está acontecendo na Síria, sobre o preço da passagem no Brasil, isso sim é muito mais importante. Queria falar disso subjetivamente. Fui fazendo um filme atrás do outro com personagens femininos muito fortes e queria falar que sei fazer outra coisa, que é falar do masculino. Hoje, está todo mundo fora do armário, mas não é bem assim. No Brasil, ainda se matam 300 homossexuais por ano. É uma questão sim. O personagem Donato tem uma certa vergonha de não conseguir falar para o irmão. Em geral, temos personagens trágicos, que não conseguem falar isso e morrem, ou personagens muito bem resolvidos. Era importante ter uma sutileza no personagem do Donato, ao mesmo tempo em que aquilo não lhe é uma questão, porque ele aceita, não há dúvida, também o é muito ali no seu íntimo. Mas penso que falo mais do masculino do que do homossexual.

Revista de CINEMA – Como se deu a escolha do elenco: Wagner Moura, Jesuíta Barbosa e Clemens Schick?
Karim – A vontade de trabalhar com o Wagner já vem de um bom tempo, já vínhamos conversando, mas não tinha papel pra ele. Já tinha até falado pra ele pensar numa história, que eu faria. Quando escrevi o “Praia do Futuro”, mandei pra ele o roteiro e ele adorou, me ligou super emocionado, e fiquei feliz. Queria muito alguém que fosse de Fortaleza, mas o Wagner poderia ser de lá; o físico é importante pra mim. O Donato é um personagem muito silencioso, fala e explica pouco. O Wagner tem um carisma tão impressionante e acho que ele fala muito nos filmes. Queria colocá-lo num lugar mais lacônico, a potência estava muito ali. O Jesuíta veio de uma pesquisa de elenco, há uns três anos, antes do “Tatuagem” [2013]. Quando bate, bate. Em teste de elenco, tem a cena e tem também os atores sem fazer nada, filmados num close – pra mim, o que mais importa em teste de elenco ‘open call’. O Jesuíta tem um mistério que não se entende quem é aquela pessoa; às vezes, é meio menino, às vezes, é meio homem, meio violento, meio misterioso. O Clemens também veio de uma procura de elenco na Alemanha. Queria um ator famoso. O Clemens nem era tão famoso. Assisti à batelada de testes de atores famosos e quis abrir mais. Foi quando recebi o teste do Clemens e foi muito bacana. Morria de medo de fazer um filme com um alemão bonito, loiro, alto. E o Clemens é até loiro, bonito, mas tem uma cicatriz, é todo meio bagunçado, meio rock’n’roll. Queria que o personagem fosse a encarnação do rock’n’roll. E o azul do olho dele me lembrava o azul-verde do mar de Fortaleza, que é onde o Donato tinha que se perder. É também um ator de poucas palavras, assim como o personagem, o único que não tem arco dramático, fica ali jogando luz nos dois irmãos. Quando ele mandou o teste, estava no Brasil, não o conhecia. O Clemens é um ator que faz uns espetáculos teatrais solo, com muita ação física, e trabalha muito com a fotógrafa Nan Goldin.

Jesuíta Barbosa, Karim Aïnouz, Wagner Moura e Clemens Schick. © Joe Dilwortth

Revista de CINEMA – Como foi trabalhar com eles com relação às línguas?
Karim – Ninguém falava a língua do outro. Quando as pessoas se encontram, elas falam, em geral, em inglês, é o ponto médio. Mas o Jesuíta não falava inglês, ele falava cearencês (risos). No filme, tem isso, os personagens não conseguem plenamente se comunicar. Era importante que eles não se entendessem direito, por isso escolhi que não aprendessem a língua do outro e proibi o inglês, tem apenas uma ou outra fala. O Jesuíta foi o que aprendeu mais. Queria que ele aprendesse uma espécie de alemão do Google Tradutor, todo enviesado, de quem ficou praticando oito anos na frente do computador, e ele começou a ter uma embocadura de quem estudou. O Wagner e o Clemens, nos ensaios, se comunicavam em inglês e depois aprenderam as falas. Algumas foram dubladas. Eu, que adoro improvisar, não tinha como fazer isso, porque os atores tinham que aprender as falas com o coach, mas tem muitas cenas silenciosas entre eles que era do fato de não falarem a língua do outro. Ficaram poucas falas e me parece bom pros personagens.

Revista de CINEMA – Como foi trabalhar com uma equipe mista? Há alguma diferença em filmar no Brasil e na Alemanha?
Karim – Foi trabalhoso. Cem por cento da equipe não falava a língua do outro, então falávamos inglês. Mas não era só a língua que fazia ser trabalhoso. Era a questão do método de trabalho, do processo. O alemão está acostumado a planejar o ano inteiro. Nós planejamos o amanhã. Tinha uma coisa, culturalmente, de encaixar as equipes, que deu trabalho. Gerenciar a coprodução foi complicado. Havia uma coisa comum: o ofício de fazer cinema. É a mesma tribo. Através da prática, nos encontramos culturalmente. Filmamos as primeiras cinco semanas na Alemanha e depois mais três no Brasil. Tem uma coisa que é engraçada lá. No Brasil, você filma e no último dia tem a festa da filmagem, todos ficam bêbados, come todo mundo. Lá, não. São cinco semanas. Depois de duas, você faz uma festona, quando tudo está meio encrencado, e fica todo mundo doido, e ali tudo se junta. Daí pra frente, foi super tranquilo.

Revista de CINEMA – A música também costuma ter um papel forte em seus filmes. Em “Praia do Futuro”, David Bowie tem um peso grande nos créditos, com “Heroes” em sua versão alemã. Como a música se relaciona na sua obra?
Karim – A minha relação com a música é totalmente intuitiva. Quando vou fazer um filme, tenho algumas canções na cabeça que meio que o norteiam. O “Praia do Futuro” talvez tenha começado pelo “Heroes”. Queria fazer um filme que tivesse a alegria e a melancolia, a harmonia, a batida dessa música. É a semente do filme. Quando vi “Eu, Christiane F., 13 Anos – Drogada e Prostituída” [1981], não me lembrava que tocava “Heroes”. Descobri a música quando morei na Inglaterra, nos anos 1990, e pra mim é a música mais linda que já ouvi na vida. Quando quis falar de casa, a música tinha que entrar. Ela tinha que estar no filme mais como tom dele do que como trilha. Sempre que tentava encaixar a música no filme, parecia um videoclipe. Mas não dava para terminá-lo sem “Heroes”. Na preparação do roteiro, vi “Christiane F.” de novo e percebi a música. Não me lembrava que “Heroes” falava do muro, que é sobre Berlim. Coloquei nos créditos porque queria que as pessoas saíssem lembrando da música e do filme juntos. Nos meus outros filmes, não tem muita trilha. Nesse, como é mais melodrama, senti falta. Não entendo muito de música, mas gosto do uso de uma trilha que se repete no filme inteiro. Chamei o Volker Bertelmann e ele fez umas quinze músicas, tadinho, e acabamos usando só umas duas, porque queria esse efeito. Cheguei a ir para o estúdio dele e íamos encaixando na cena. A música meio que perfura o celuloide e o celuloide começa a sangrar e a respirar. Foi assim, fui sentindo a trilha.

Revista de CINEMA – “Praia do Futuro” é seu primeiro filme a participar da competição principal de um dos grandes festivais europeus, no caso Berlim. Como é isso? Muda algo?
Karim – Não sei se muda (risos). Tudo é exponencial, o público, a tensão, o sucesso, a crítica. Pode ser até que volte para a segunda divisão, mas é um pouco como se estivesse jogando na primeira divisão do futebol. Foi um momento bom, é algo ótimo na minha idade, mas quero continuar fazendo cinema, independente de estar na competição dos festivais grandes. Tive um reconhecimento maravilhoso com o primeiro filme em Cannes, no Un Certain Regard, e dez anos depois entrei na competição. É um reconhecimento de que continuo trabalhando. Fiz lá também a conferência de imprensa enorme, com jornalistas do mundo todo. Foi tudo muito novo, muito emocionante. Mas é só um festival. Acho que foi bom pra nossa geração. Não só o fato de estar em competição, mas em termos de reconhecimento do nosso cinema.

Revista de CINEMA – Recentemente, você também participou do longa em episódios em 3D “Cathedrals of Culture”. Como se deu isso e como foi filmar em 3D?
Karim – O Wim Wenders é fã do Marcelo Gomes por conta do “Cinema, Aspirinas e Urubus” e viu, em Berlim, o “Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo” e adorou. Um ano depois, ele me ligou porque estava fazendo uma série sobre arquitetura, em 3D. Para ele, o 3D já nasceu comprometido com o cinema comercial, mas acredita que pertença à outra ordem e está investindo nisso – o 3D como uma nova mídia. Ele chamou seis diretores, cada diretor escolhia um prédio que seria personagem. É um filme em primeira pessoa. Começa com o prédio dizendo: “Paris acordou às 6 da manhã. Quando acordo, não consigo me mexer porque sou todo feito de ferro”, criando a narrativa a partir de um objeto inanimado. O Wenders fez sobre a Filarmônica de Berlim, o Michael Glawogger, da Áustria, fez sobre a Biblioteca Nacional de São Petersburgo, o Michael Madsen, da Dinamarca, fez sobre a Prisão Halden, a Margreth Olin, da Noruega, sobre a casa de Ópera de Oslo, o Robert Redford fez sobre o Salk Institute. Eu fiz sobre o Bo Bo [o Centro Pompidou]. É um projeto para expandir o conceito de arquitetura. Havia duas premissas: que fossem documentários e que tratasse o objeto como personagem. O Bo Bo é um personagem de trinta e sete anos, que já foi jovem, que quando nasceu era absolutamente iconoclasta e está envelhecendo – o que é hoje, como se relaciona com a cidade, com quem o usa? Eu tinha um certo preconceito com o 3D, mas depois que vi “Gravidade” [2013] fiquei impressionado. Sou curioso e resolvi arriscar, ainda mais porque era um documentário, com câmera em movimento. É caro, mas não é tão complicado. Fiz com a estenógrafa do “Pina” [2011], Joséphine Derobe, e ela fala do cinema em relevo, que é muito bacana. E é sobre o Bo Bo, que, quando fui para a Europa, passava meus sábados lá.

Centro Georges Pompidou, o Bo Bo, no episódio da série de documentários em 3D “Cathedrals of Culture”, dirigido por Karim à convite de Wim Wenders. © Ali Olcay Gözkaya

Revista de CINEMA – Seu próximo longa é “The Beauty of Sharks” mesmo? Quais os próximos projetos?
Karim – Não sei qual é o meu próximo filme e não deve ser o “The Beauty of Sharks”, que está ainda sendo negociado. Tenho alguns filmes em desenvolvimento, dois a serem feitos no Brasil, um no Japão e um na Argélia. Queria muito filmar lá, meu pai é de lá e nunca fui para lá. Creio que chegou a hora.

 

Assista ao trailer de “Praia do Futuro”, que estreia no dia 15 de maio nos cinemas.

 

Por Gabriel Carneiro

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(3) Comente

  1. Gostei muito da entrevista, bem ampla , em si mesmo, e na obra do cineastra. E fiquei curiosa para ver como se resolve/ desenvolve , no filme, a questão do não-pertencimento que, de certa forma está já no titulo : no / do Futuro, e ,talvez, no que se espraia. Bem interessante.

  2. Pingback: Anônimo

  3. Adoro Madame Satã,mas no resto acho K.A.meio fragmentado e dispersivo inclusive nos meios que escolhe…

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