Um balanço de 2015 e as perspectivas para 2016
“Até que a Sorte nos Separe 3” © Gabriel Borges

Diferente do esperado pelo mercado, que tem investido cada vez mais em filmes com potencial de bilheteria, 2015 repetiu o resultado medíocre de 2014 e manteve a estagnação do cinema brasileiro nas salas comerciais, com aproximadamente 12% de market share, número médio dos últimos dez anos, diferente apenas em casos de estreias isoladas que alavancam as receitas – caso de “Tropa de Elite 2”, “Nosso Lar” e “Chico Xavier”, em 2010, e “De Pernas pro Ar 2” e “Minha Mãe É uma Peça – O Filme”, em 2013, por exemplo. O ano começou mal, tendo um primeiro semestre bastante negativo, com média de ocupação de salas inferior a 10%, e se recuperou no segundo semestre, com média de 18%. Ao total, foram mais de 20 milhões de ingressos vendidos.

Bruno Wainer, da Downtown Filmes: “Se a economia do país não naufragar, 2016 será o melhor ano do cinema brasileiro desde a Retomada, superando a marca de 30 milhões de ingressos”

Como já esperado, as comédias, com apoio da Globo Filmes, mais uma vez, dominaram entre as maiores bilheterias brasileiras de 2015. Até o fechamento desta reportagem, no início de dezembro, dos seis filmes que ultrapassaram a barreira de um milhão de espectadores, cinco são comédias: “Loucas para Casar”, de Roberto Santucci, com 3,7 milhões, “Vai que Cola – O Filme”, de Cesar Eduardo Rodrigues, com 3,3 milhões, “Meu Passado me Condena 2”, de Julia Rezende, com 2,6 milhões, “Os Caras de Pau em o Misterioso Roubo do Anel”, de Felipe Joffily, que estreou no final de 2014, com 1,2 milhão em 2015 (e 1,9 no total), e “S.O.S. Mulheres ao Mar 2”, de Cris D’Amato, com 1,5 milhão. A exceção foi o infantil “Carrossel – O Filme”, de Alexandre Boury e Maurício Eça, com 2,5 milhões.

“Loucas para Casar”, de Roberto Santucci, fez 3,7 milhões de espectadores, a maior bilheteria do ano

Comédias ainda prometem em 2016 

São elas, aliás, que reservam as melhores expectativas para 2016. Bruno Wainer, da Downtown Filmes, está otimista. “Se a economia do país não naufragar, 2016 será o melhor ano do cinema brasileiro desde a Retomada, superando a marca de 30 milhões de ingressos. Atingiremos um novo paradigma. Nunca tivemos tantos títulos com tanto potencial num mesmo ano”, afirma. Entre as expectativas para ultrapassar o milhão de espectadores, estão “Até que a Sorte nos Separe 3”, de Roberto Santucci, que estreou em dezembro passado, “Um Suburbano Sortudo”, também de Santucci, “Vai que Dá Certo 2”, de Maurício Farias, “O Último Virgem”, de Rilson Baco e Felipe Bretas, “Um Namorado para Minha Mulher”, de Júlia Rezende, “Toc”, de Teo Poppovic e Paulinho Caruso, “Tô Ryca”, de Pedro Antônio, “Porta dos Fundos – Contrato Vitalício”, de Ian SBF, “Penetras 2”, de Andrucha Waddington, “O Shaolin do Sertão”, de Halder Gomes, e “Minha Mãe É uma Peça 2”, de André Pellenz. Há também “Mundo Cão”, de Marcos Jorge, “Zoom”, de Pedro Morelli, “De Onde Eu te Vejo”, de Luiz Villaça, “Tudo Bem Quando Acaba Bem”, de José Eduardo Belmonte, “A Comédia Divina”, de Toni Venturi, “Doidas e Santas”, de Pedro Antônio e César Rodrigues, “Depois de Você”, de Marcus Ligocki Jr., e “Malasartes e o Duelo com a Morte”, de Paulo Morelli.

“Vai que Cola – O Filme”, de César Eduardo Rodrigues, com 3,3 milhões de ingressos, é um dos grandes sucessos de bilheteria de 2015 © Páprica Fotografia

Curioso notar que as franquias cada vez se mostram mais fortes e cada vez mais balizam as produções e as bilheterias. Em 2015, vieram da televisão “Vai que Cola”, Os Cara de Pau” e “Carrossel” e, em 2016, teremos o filme do canal de internet “Porta dos Fundos”. Além de diversas continuações, como as já citadas “Meu Passado me Condena 2” e “S.O.S Mulheres ao Mar 2”, 2015 teve também “Qualquer Gato Vira-Lata 2”, de Roberto Santucci Filho e Marcelo Antunes Braz (807 mil espectadores), “Divã a 2”, de Paulo Fonetenlle, e “Pequeno Dicionário Amoroso 2”, de Sandra Werneck e Mauro Farias, os dois últimos com resultados pífios. Para 2016, teremos as continuações “Até que a Sorte nos Separe 3”, “Vai que Dá Certo 2”, “Penetras 2” e “Minha Mãe É uma Peça 2”, além de “Carrossel 2”. O que se tem notado é que essas adaptações televisivas têm ganhado repercussão no cinema, criando uma própria franquia (caso de “Meu Passado me Condena”, “Os Penetras”, “Carrossel”).

Bárbara Sturm, da Pandora: “Acredito que possamos ter mais esperança de uma terceira forma de cinema, com filmes que não são comédias com piadas prontas ou totalmente fechados e de arte, construindo um cinema inteligente e bem pensado/produzido” © Letícia Godoy

Outra tendência que tem voltado a aparecer nas comédias é a mistura com elementos fantásticos, que já renderam sucessos, como “Se Eu Fosse Você” (2006) e “A Mulher Invisível” (2009). Em 2015, tivemos “Linda de Morrer”, de Cris D’Amato, com 956 mil espectadores, e “Entre Abelhas”, de Ian SBF, com 439 mil. Em 2016, estreia “Um Homem Só”, de Cláudia Jouvin.

“Meu Passado me Condena 2”, de Julia Rezende, com 2,6 milhões, ficou entre as cinco maiores bilheterias do ano © Páprica Fotografia

Ainda que as comédias sejam a razão do cinema brasileiro manter ao menos esses 12% de market share e muito se investir no gênero, parece haver um esgotamento do modelo, com muitos filmes não rendendo o esperado. Ou seja, se não se vincular a um sucesso ou não renovar as ideias, o gênero pode ter dificuldades no futuro. Filmes como “Superpai”, “Divã a 2”, “Entrando numa Roubada”, “A Esperança É a Última que Morre”, “O Vendedor de Passados”, “Sorria, Você Está Sendo Filmado – O Filme”, “Ponte Aérea” e “Pequeno Dicionário Amoroso 2” tiveram resultados muito decepcionantes, com pouco retorno em relação ao número de cópias lançadas. Bruno Wainer acredita que isso se deve ao fato de muitos desses filmes não se filiarem exclusivamente à comédia ou não serem essencialmente populares. “Não vejo nenhum desgaste do gênero, ao contrário, acho que ainda entregamos poucas comédias realmente populares anualmente”, pontua.

“S.O.S. Mulheres a Mar 2”, de Cristiane D’Amato, com 1,5 milhão, ficou em quarto lugar nas bilheterias

Outros gêneros, como ação e infantil, também se destacam 

Em 2015, “Carrossel – O Filme” teve um resultado estrondoso, com seus 2,5 milhões de espectadores, recuperando um gênero que desde Xuxa e Didi não obtinha sucesso, o infantil. Adaptado da versão brasileira da novela mexicana, exibida no SBT, o filme tem continuação prevista para 2016, prometendo mais um sucesso de público. O gênero, porém, só parece triunfar quando vinculado à televisão.

Jean Thomas Bernardini, da Imovision: “Poderia ser muito melhor com a existência de um circuito capaz de receber filmes independentes de qualidade. Infelizmente, não há” © Mário Miranda Filho

Outro gênero que tem tentado se firmar em frequência é a ação, representado em 2015 por “Operações Especiais”, de Tomás Portella (350 mil espectadores), e que em 2016 será representado por “Reza a Lenda”, de Homero Olivetto, e “Em Nome da Lei”, de Sérgio Rezende. Entre as cinebiografias, teremos “Aldo”, de Afonso Poyart, sobre o lutador José Aldo, “Elis”, de Hugo Prata, sobre a cantora Elis Regina, “O Pequeno Segredo”, de David Schurmann, sobre sua irmã Kat, “O Rei das Manhãs”, de Daniel Rezende, sobre a vida de Arlindo Barreto, o primeiro palhaço Bozo, e “João – O Milagre das Mãos”, de Bruno Barreto, sobre o maestro João Carlos Martins. Em 2015, o destaque ficou com o documentário “Chico – Artista Brasileiro”, de Miguel Faria Jr., sobre Chico Buarque, e com “Chatô – O Rei do Brasil”, de Guilherme Fontes, sobre o magnata das mídias Assis Chateaubriand. “Chatô”, lançado após 20 anos de polêmica, em que seu diretor, Fontes, foi processado por má administração de verbas públicas, não conseguiu se beneficiar da publicidade como gostaria. Conseguiu apenas 19 salas em sua estreia, em novembro, alcançando quase 12 mil espectadores – com boa média por número de cópias, em compensação.

“Carrossel – O Filme”, de Alexandre Boury, Maurício Eça, teve 2,5 milhões de espectadores, e terá continuidade em 2016

Para Wainer, “estes gêneros custam mais caro e são mais complicados de roteirizar e produzir. Mas sei de muitos projetos destes gêneros em gestação e logo os teremos de forma mais constante nas telas”.

O espaço para os independentes

Se parece promissor o cinema de maior apelo popular para 2016, o mesmo não se pode dizer dos independentes. “[2015] foi aquém do esperado, infelizmente. Notamos uma diminuição de tickets vendidos que se acentua a cada ano. Obviamente, as expectativas são de pessimismo também”, aponta Jean Thomas Bernardini, da Imovision. “Poderia ser muito melhor com a existência de um circuito capaz de receber filmes independentes de qualidade. Infelizmente, não há. Esse fator e o fato de que existem produções independentes em número bem superior ao que o mercado pode absorver são os dois problemas a resolver”, complementa. Para Bruno Wainer, isso é uma questão estrutural de nosso mercado. “Os filmes autorais, para terem um bom resultado, precisam, infelizmente, de reconhecimento externo. O público mais ‘refinado’ é altamente colonizado, contrariamente ao público popular, que não precisa de aval externo para consagrar os filmes brasileiros de sua preferência”, aponta.

“Um Homem Só”, de Claudia Jouvin, drama surrealista com estreia prevista para este ano © Páprica Fotografia

Bárbara Sturm, da Pandora Filmes, também não tem muitas expectativas. “Não consigo enxergar nenhuma tendência num mercado tão dividido entre as formas antigas e arcaicas de lançamento e promoção, e as novas formas abertas e criativas de divulgação e programação”, pontua. Ela, porém, não perde a fé. “Acredito que possamos ter mais esperança de uma terceira forma de cinema, com filmes que não são comédias com piadas prontas ou totalmente fechados e de arte, construindo um cinema inteligente e bem pensado/produzido”, complementa.

“Mate-me por Favor”, de Anita Rocha da Silveira, bem sucedido em festivais, é uma das promessas do cinema independente para 2016

Foi por essa linha que a Pandora teve uma das maiores bilheterias brasileiras do ano, com “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert. O filme passou por Sundance e Berlim, onde foi premiado, antes de chegar aos cinemas comerciais brasileiros. Protagonizado por Regina Casé, com apoio da Globo Filmes, o longa retrata de maneira cômica e crítica a relação de uma empregada doméstica com seus patrões após a chegada de sua filha de Pernambuco. Com 500 mil espectadores, o filme representou um aumento de quase 1000% na renda da distribuidora em relação aos filmes brasileiros se comparado a 2014. O longa teve um ganho de circuito e público após a seleção como representante do Brasil ao Oscar de 2016. Para Bárbara Sturm, o que explica o resultado foi a persistência da distribuidora. “A principal estratégia foi não abandonar o filme depois da estreia, e sim seguir semana a semana entendendo onde ele funcionava e onde não funcionava, desenhando os circuitos semana a semana, e otimizando o trabalho de assessoria de imprensa, assessoria digital e programação”, afirma. Para 2016, a Pandora deve lançar “Trago Comigo”, de Tata Amaral, “Aspirantes”, de Ives Rosenfeld, “Ralé”, de Helena Ignez, “Canção da Volta”, de Gustavo Rosa Moura, “Ponto Zero”, de José Pedro Goulart, e “Quase Memória”, de Ruy Guerra.

“Malasartes e o Duelo com a Morte”, de Paulo Morelli, uma comédia bem diferente, com fantásticos efeitos especiais da O2 Pós, que promete atrair um bom público

As surpresas dos festivais 

Entre os filmes com boas passagens por festivais e que devem aportar no circuito comercial em 2016, estão “Mate-me por Favor”, de Anita Rocha da Silveira, “Campo Grande”, de Sandra Kogut, os três da Imovision, “Big Jato”, de Cláudio Assis, “Para minha Amada Morta”, de Aly Muritiba, “Fome”, de Cristiano Burlan, “Prova de Coragem”, de Roberto Gervitz, “O Touro”, de Larissa Figueiredo, “As Fábulas Negras”, de Rodrigo Aragão, José Mojica Marins, Joel Caetano e Petter Baiestorf, “Nise – O Coração da Loucura”, de Roberto Berliner, “Um Filme de Cinema”, de Walter Carvalho, “A Família Dionti”, de Alan Minas, “Mais do que Eu Possa me Reconhecer”, de Allan Ribeiro, “Clarisse ou Alguma Coisa sobre Nós Dois”, de Petrus Cariry, “Todas as Cores da Noite”, de Pedro Severien, “Futuro Junho”, de Maria Augusta Ramos, “Brasil S/A”, de Marcelo Pedroso, e “Ela Volta na Quinta”, de André Novais Oliveira.

“Reza a Lenda”, de Homero Olivetto, filme de ação que tentará emplacar este ano

Outros filmes, se não estrearem, devem ao menos começar a fazer o circuito de festivais, como “Amores Urbanos”, de Vera Egito, “A Frente Fria que a Chuva Traz”, de Neville D’Almeida, “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues, “Era el Cielo”, de Marco Dutra, “Taís & Taiane”, de Augusto Sevá, “Uma Noite em Sampa”, de Ugo Giorgetti, “Açúcar”, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, “Xale”, de Douglas Soares, “Amor em Sampa”, de Carlos Alberto Riccelli, “Mãe Só Há Uma”, de Anna Muylaert, “Curumim – O Homem que Queria Voar”, de Marcos Prado, “Deserto”, de Guilherme Weber, “Cartografia do Prazer”, de Eduardo Kishimoto, “O Escaravelho do Diabo”, de Carlos Milani, “O Filme da Minha Vida”, de Selton Mello, “No Vazio da Noite”, de Cristiano Burlan, “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, “Vazante”, de Daniela Thomas, “A Cidade dos Piratas”, de Otto Guerra, “Guerra do Paraguay”, de Luiz Rosemberg Filho, “A Cidade onde Envelheço”, de Marília Rocha, “Elon Rabin Não Acredita na Morte”, de Ricardo Alves Jr., “Animal Político”, de Tião, “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé, “O que Eu Poderia Ser se Eu Fosse”, de Bruno Jorge, “Vermelho Russo”, de Charly Braun, “Um Certo Joaquim”, de Marcelo Gomes, e “Como nossos Pais”, de Laís Bodanzky.

“Canção da Volta”, primeiro longa de fição de Gustavo Rosa Moura, será uma das apostas da distribuidora Pandora

 

Por Gabriel Carneiro

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(1) Reader Comment

  1. O filme “Os dez mandamentos” não foi mencionado na reportagem. Impossível ignorar um filme com tamanha bilheteria!

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