Críticas de Filmes Slideshow — 19 julho 2016
Todo custo para se fazer rir em “Chocolate”

Que medo! Ao final de uma das sessões realizadas para mostrar à imprensa o longa “Chocolate”, surge a dúvida durante um bate papo: o filme poderia ser taxado de racista? Nestes chatíssimos tempos onde o politicamente correto parece ter mesmo chegado para ficar, tudo parece possível. Até considerar racista um filme de um diretor de origem árabe que retrata a trajetória verídica de um importante artista negro que fez história na virada do século 19.

O diretor em questão é Roschdy Zem, francês de família marroquina, mais conhecido dos brasileiros como ator nos filmes “A Garota de Mônaco”, “London River” e “Fuga Implacável”, entre dezenas de outros. A partir de um roteiro desenvolvido por ele próprio e mais três roteiristas, Zem filmou a história real de Rafael Padilla, um escravo cubano foragido que conseguiu, graças às inúmeras e inacreditáveis volta que o mundo dá, reinventar-se como Chocolate, palhaço que revolucionou as artes circenses na sofisticada Paris do começo do século 20.

Claramente direcionado ao grande público, “Chocolate” opta por uma narrativa das mais clássicas e tradicionais dentro do subgênero das “cinebiografias”. Ainda que totalmente francês, ele traz toda a estética convencional das grandes produções norte-americanas deste estilo, apoiando-se para isso numa vistosa reconstituição de época e numa caprichadíssima produção de orçamento estimado em cerca de US$ 20 milhões, cifra bastante respeitável para o mercado da França.

O roteiro também é cartesiano. O palhaço Footit (James Thierrée), tentando reverter a forte tendência de queda de sua carreira, tem uma ideia ousada para um novo número: usar um parceiro negro, Chocolate (Omar Sy, de “Intocáveis” e “Samba”), para fazer as vezes de palhaço “Augusto”. Explicando: a tradição circense trabalha basicamente com dois tipos de palhaços, o Branco, mais compenetrado e pensador, geralmente vestindo roupas e maquiagem claras, e o Augusto, mais libertário, irreverente, colorido e extravagante. O Branco seria a parte racional da dupla, enquanto o Augusto encarna o humor mais escrachado. E é justamente sobre esta dicotomia que o filme trabalha.

Num primeiro momento, a plateia rejeita a novidade, mas logo se percebe que o público passa a reagir positivamente nos momentos em que Footit agride ou humilha Chocolate. E, como no mundo dos espetáculos o que importa é a audiência, imediatamente cria-se na dupla uma relação de dominador/dominado, agressor/agredido, opressor/humilhado – com o negro, obviamente, sempre no papel submisso – que estoura como um megassucesso popular. Paga-se cada vez mais para ver o negro apanhar.

A questão – ou uma das questões – é que Chocolate não tem a menor percepção desta relação nociva. Pelo contrário, até gosta dela, na medida em que ele enriquece com o aplauso popular.

As questões raciais e/ou preconceituosas que o filme pode eventualmente levantar residem no fato de “Chocolate” não construir seu personagem-título sob a formatação do herói. Pelo contrário, correndo o risco de dar spoiler, recai sobre ele a responsabilidade dos piores momentos da dupla. O que seria absolutamente normal não fosse o patrulhamento politicamente correto que permeia a sociedade atual, sempre disposta a acender luzes inexistentes de alerta.

De qualquer maneira, relevando-se este aspecto, “Chocolate” trata com desenvoltura do tema da arte como profundo instrumento de transformação, ao mesmo tempo em que abre o viés político-social através de uma progressiva conscientização do protagonista. Uma conscientização, porém, que se por um lado lhe abre as portas de sua liberdade enquanto indivíduo, por outro também lhe mostra os caminhos de uma arrogância que se revelará destrutiva.

Confirmando ainda mais o talento e a versatilidade de Omar Sy, que aqui alterna com bastante eficiência momentos cômicos e dramáticos, “Chocolate” levou cerca de 2 milhões de franceses aos cinemas.

 

Chocolate | Chocolat
(França, 90 min., 2016)
Direção: Roschdy Zem
Distribuição: Califórnia Filmes
Estreia: 21 de julho

 

Por Celso Sabadin, crítico de cinema

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