Críticas de Filmes Slideshow — 31 agosto 2016
O horror na maternidade e na adoção

Parece estar na moda os filmes de horror que buscam, de alguma forma, desmistificar a maternidade. A relação mãe-filho tende a um papel quase santificado, em que a mãe faz de tudo para proteger o filho, independente do que ocorra, sem qualquer problematização – p.e. “Poltergeist: O Fênomeno” (1982), “O Iluminado” (1980). Por conta disso, o horror também buscou o inverso, a mãe demonizada, essência de todo o mal – “Carrie, a Estranha” (1976). Recentemente, alguns filmes buscaram problematizar a relação mãe-filho, trabalhando as dificuldades a partir de elementos sobrenaturais, que metaforizam as querelas. Exemplos incluem “Mama” (2013), de Andres Muschietti, e “The Babadook” (2014), de Jennifer Kent. Em seu segundo longa lançado no ano por aqui – o primeiro (e melhor) “Hush: A Morte Ouve” (2016), estreou com exclusividade no Netflix –, Mike Flanagan trabalhou a relação de uma mãe com seu filho adotivo.

“O Sono da Morte” parte de uma premissa batida: família resolve adotar uma criança após a morte do filho biológico e coisas estranhas começam a acontecer. A diferença é que Cody (Jacob Tremblay) projeta no plano real seus sonhos, e, assim como nos sonhos, ele não tem qualquer controle sobre o que ocorre e é facilmente influenciado pelo cotidiano. O garoto é atormentado pela figura do Canker-Man, um monstro humanoide de aparência horrífica que come quem aparece pela frente. Em papel coadjuvante na trama, Cody apenas esboça uma representação das dificuldades de adaptação de uma criança adotada em seu novo lar – a privação do sono, a disparidade com os colegas de escola, a reticência quanto aos novos pais etc.

No centro, está a mãe Jessie (Kate Bosworth). Presa ao filho, que morreu num acidente bizarro, recusa-se a deixar a casa onde moram, a guardar seus pertences, e aceita uma nova criança no lar com reticências. Há uma frivolidade inerente ao contato: a polidez dos gestos de Jessie frente a Cody beiram o constrangimento. Não há carinho, não há toque, como se Cody fosse um convidado não muito bem-vindo: como aceitar uma nova criança? Na nova relação, só há espaço para a culpa. Cabe ao pai, Mark (Thomas Jane), integrar o garoto.

Jessie e Cody adentram um segundo estágio do relacionamento quando o garoto começa a sonhar. A mãe alimenta o novo filho com imagens em fotografias e em vídeos de Sean (Antonio Romero), sua prole biológica. Os sonhos de Cody são uma forma de Jessie voltar a encontrar Sean, de senti-lo, ouvi-lo. Ela não se importa em ser mesquinha e usar o garoto adotado que luta pelo reconhecimento, evidenciando constantemente seu apreço pelo seu filho de verdade. Cody só é legitimado quando projeta Sean. Cody, assim, passa a ser Sean, para Jessie. O comportamento abusivo da mãe torna-se psicótico e obsessivo. Seu dia consiste em esperar o sono do novo filho. É quando o Canker-Man aparece.

A aparição da besta aprofunda o distanciamento entre mãe e filho. Pois Cody deixa de ser Sean e passa a ser um monstro, o Homem-Cancro, que devora quem o afronta. Nesse estágio, Mike Flanagan delineia o medo da maternidade frente a adoção: será uma mãe capaz de amar um filho que não veio de seu ventre? Canker-Man é literalmente uma projeção de Cody. Como amar um monstro que pode fazer você perder tudo?

As metáforas de “O Sono da Morte” tendem a ser bastante óbvias, o que não chega a propriamente comprometer o longa. É uma construção ingênua – como quando Jessie deve escolher entre a projeção de Sean e o Cody, entre o passado e o presente –, mas efetiva.

Infelizmente, Flanagan aponta para um desenrolar óbvio, edificante, de superação. Na resolução, dois grandes problemas se apresentam: a necessidade de assegurar o status quo e reafirmar o papel quase santificado da mãe em relação a seu filho, salvando-o do mal, mesmo que em detrimento dos outros; e a obsessão da contemporaneidade em explicar todos os mistérios nos mínimos detalhes, sem deixar qualquer brecha ao entendimento do espectador. Ambos, claro, vêm de mãos dadas. Salvar o filho é entender o problema e explicar a ele (e a nós, como se fossemos crianças de 8 anos, como Cody) por que seus sonhos são assim, na mais primária interpretação freudiana. Traumas que o horror contemporâneo ainda precisa superar.

 

O Sono da Morte | Before I Wake
EUA, 97 min., 2016
Direção: Mike Flanagan
Distribuição: Playarte
Estreia: 1º de setembro

 

Por Gabriel Carneiro

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