Almanaque da Rosário — 12 outubro 2016
A Bola de Sebo de Maupassant

O CPC-UMES (Centro Popular de Cultura dos Estudantes Secundaristas) continua firme em seu propósito de recolocar o cinema da era soviética e o russo contemporâneo em nosso mercado. Mesmo que seja em nicho restrito. Em novembro, a instituição realiza a 3ª Mostra Mosfilm de Cinema, na Cinemateca Brasileira. E, até lá, vai lançando, em DVD, títulos de grande importância, como “Bola de Sebo” (Mikhail Romm, 1934), “O Velho e o Novo” (Eisenstein & Alexandrov, 1929) e “Tigre Branco”, (Karen Shakhazarov, 2012).

Muitos leitores brasileiros têm “Bola de Sebo”, de Guy de Maupassant (ao lado de “Pai Contra Filho”, de Machado de Assis), como o momento mais luminoso da história do conto mundial. Muitos (e grandes) cineastas buscaram neste texto a fonte inspiradora de seus filmes: Mizoguchi (“Oyuke, a Virgem”, 1935), Ford (“No Tempo das Diligências”, 1939), Christian-Jaque (“Anjo Pecador”, 1945) e Ettore Scola (“Casanova e a Revolução”, 1982). Se estes autores optaram por adaptações livres, o “Bola de Sebo” soviético é fidelíssimo.

A cópia lançada pelo CPC (o original é mudo) traz versão sonorizada e com narrativa em off, comandada, em 1955, pelo próprio Romm. Cinéfilos não devem se apavorar, pois a narração incomoda apenas no início. Não há como resistir à história da rechonchuda prostituta Bola de Sebo (magistralmente interpretada por Galina Segeyeva). Ela enche a tela e a diligência, que carrega aristocratas, burgueses e duas freiras, num tempo de guerra (1870, quando o Exército Prussiano ocupa a região de Rouen, na França).

O filme constrói vertiginosa sucessão de imagens em preto-e-branco à altura das produzidas para as obras-primas de Eisenstein. Seus enquadramentos são ousadíssimos. Cenas sintéticas evocam a guerra. As vestimentas e os gestos dos nobres, burgueses e freiras engrandecem a potência do filme. A narrativa em off ajuda a contextualizar o tempo histórico e a nos lembrar o texto primoroso de Maupassant. Este poderoso filme está à altura do grande cinema universal da era muda e nos ajudar a entender por que os marxistas de todos os tempos amam tanto o conto “Bola de Sebo”. Incluindo na lista Bertoldt Brecht, que criou a Jenny da “Ópera dos Três Vinténs”, por sua vez matriz da Geni, de Chico Buarque.

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