Centenário de Jean Rouch

Por Maria do Rosário Caetano

O cineasta Jean Rouch, um dos maiores e mais influentes documentaristas do mundo, faria, se vivo fosse, 100 anos nesta quarta-feira, 31 de maio. De 1947, quando realizou sua primeira reportagem cinematográfico-etnográfica, até sua morte, ele trabalhou sem descanso. O diretor de fotografia Philippe Constantini, codiretor de dois dos últimos filmes de Rouch (“Cine Retrato de Raymond Depardon” e “Folie Ordinaire d’une Fille de Cham”) e coordenador do restauro de seu legado, acredita que “sua filmografia resgatada somará 150 títulos”.

Número tão impressionante só foi possível porque Jean Rouch, engenheiro civil (e doutor em Letras) apaixonou-se pelo registro etnográfico de povos africanos e, para levar seu projeto adiante, contava com vida profissional assegurada. Funcionário do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique), não foi obrigado a submeter-se às regras do mercado. Ao longo de 55 anos, ele realizou dezenas de filmes (especialmente no Senegal, Niger, Mali e Gana), que ficaram à sombra de seus mais famosos e reconhecidos documentários: “Crônica de um Verão” (parceria com o sociólogo Edgar Morin), “Eu, um Negro”, “Jaguar”, “Pouco a Pouco” e “A Pirâmide Humana”. De sua obra etnográfica, o título que mais polêmica causou foi “Os Mestres Loucos”, premiado em Veneza, em 1957.

Insetos

Os registros cinematográficos de Rouch, hoje tão valorizados e estudados, lhe renderam, em seus primeiros anos, muitas críticas. Por filmar rituais de iniciação, possessão e transe (“Os Mestres Loucos” tem seu foco no povo Haoukas, do Niger),  foi acusado de faltar com a ética. Enfrentou a ira de colegas, como o etnólogo e professor da Sorbonne, Marcel Griaule (1898-1956). Depois de ver o filme, numa sessão no Museu do Homem, em Paris, o etnólogo, secundado por outras vozes, chegou a sugerir que o documentário fosse destruído. Os opositores de Rouch detectaram em seu trabalho etnográfico “um olhar de entomologista” dirigido a “práticas incompreensíveis a não-iniciados”. Registros cinematográficos de atividades religiosas (como os feitos por Rouch) contribuiriam, reafirmavam seus críticos, para que povos africanos fossem vistos como “selvagens e primitivos”.

Jovens cineastas africanos, como o senegalês Ousmane Sembene (1923- 2007), discípulo do soviético Marc Donskoi e autor de um dos mais belos clássicos do cinema africano, “La Noire de…” (“Garota Negra”, 1966), foram ainda mais incisivos. Sembene acusou Rouch de “mostrar os africanos como insetos”.

No Brasil, quase 30 anos depois, Rouch se viu, mais uma vez, no centro de um furacão. Primeiro, ele passou pela Jornada Internacional de Cinema da Bahia, em setembro de 1979. O festival baiano, premido por dificuldades de patrocínio, recebeu abrigo em João Pessoa, capital da Paraíba. Vladimir Carvalho, um dos mais ativos participantes da Jornada de Cinema acolhida pelos paraibanos, relembra a passagem de Rouch por João Pessoa: “ele desembarcou na cidade, naquele setembro de 1979, levando a tiracolo seu valete de chambre, Jacques D’Arthuy, com o objetivo, pelo menos deste último, de introduzir o Super 8 no âmbito das atividades cinematográficas da UFPB (Universidade Federal da Paraíba)”.

Acostumados a filmar em película 35 milímetros, suporte do seminal “Aruanda” (Linduarte Noronha, 1960) e de todos os filmes de Vladimir e companheiros de geração, a ideia do Super 8 não agradou. O diretor de “O País de São Saruê” conta, em seu livro “Jornal de Cinema” (editado pelo Festival é Tudo Verdade, 2016), que o clima esquentou: “Junto a Manfredo Caldas, Paulo Melo e o inefável Ipojuca Pontes, nos reunimos no Hotel Tambaú, e propusemos a Rouch e a D’ Arthuy, que pelo menos fosse contemplada a bitola 16 milímetros, uma vez que o ciclo da Paraíba, já histórico, havia se concretizado com filmes rodados em 35 mm”.

“Não houve acordo” – lembra Vladimir – “embora sobrasse cordialidade. Eu mesmo insinuei, vislumbrando o mar por uma nesga de janela do Hotel Tambaú, que havia ‘novos piratas franceses nas costas do Nordeste’. Ao que Rouch, “no seu inabalável bom humor e generosidade, me replicou, sem perder a classe e olhando por um ângulo, por onde divisava todo o oceano, e alguém na boca traduziu do francês: – ‘Esse tempo já passou, mon chére’. Vladimir arremata suas lembranças: “E, de fato, passada a Jornada, a UFPB comprou a ideia de Rouch e uma alegre revoada de futuros cineastas foi conhecer Paris e o templo do guru”.

Depois da edição paraibana da Jornada da Bahia, Rouch permaneceu no Brasil e aceitou convite para participar do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (24 a 30 de setembro de 1979). Glauber Rocha, então com 40 anos, filmava “A Idade da Terra” nas três capitais históricas brasileiras (Salvador, Rio de Janeiro e Brasília). Encontrando-se na capital do país, resolveu aparecer no Hotel Nacional, que abrigava os convidados do Festival. Ao deparar-se com Rouch, com quem convivia desde que se conheceram num festival italiano, o Colombianum (no qual Glauber apresentou “Deus e o Diabo na Terra do Sol”),  o cineasta baiano acusou Rouch de “espião e colonizador”. Exaltado, gritou: “você está espionando o Nordeste brasileiro”. Decerto Glauber ouvira algum relato sobre a polêmica passagem de Rouch e D’Arthuy pela Paraíba. O documentarista francês, que abrigara Glauber em suas viagens de exilado a Paris, ficou atônito, sem entender muito do que se passava.

Rouch perdoante

Em seminário dedicado à análise da obra de Jean Rouch, promovido pelo Festival É Tudo Verdade, em abril deste ano, Mateus Araújo Silva, professor da USP, e o diretor de fotografia Philippe Constantini destacaram a imensa importância do documentarista francês para o cinema documental.

Mateus lembrou as muitas viagens de Rouch ao Brasil. Além da estada dele no Festival do Rio – registrada por Pierre Kast no filme “Les Carnets Brésiliens” (1965/66), e recuperada por Eryk Rocha no longa “Cinema Novo” (2016) –, houve visitas, para seminários e apresentação de novos filmes, à USP (Universidade de São Paulo), à Cinemateca do MAM (com Cosme Alves Netto de anfitrião), à Jornada da Bahia e ao Festival de Brasília, em 1979”. Foi neste evento – lembrou Mateus – que se deu “o coice de Glauber” (acima relatado). O professor da USP fez questão de registrar, também, um “Rouch perdoante”, que assistiu, em Paris, à mostra retrospectiva da obra de Glauber, morto aos 42 anos, em agosto de 1981 (menos de dois anos depois da virulenta performance no Hotel Nacional). O perdão ficou ainda mais claro em texto que Rouch escreveu para o caderno “Ideias”, do Jornal do Brasil, em 22 de agosto de 1987, no qual assegurou: “Glauber pula a fogueira e arrisca mais que Jean Luc Godard”.

Guido Araújo guarda, com emoção, lembranças das duas Jornadas de Cinema da Bahia, que receberam Rouch. “A primeira participação dele” – recorda – “resultou na criação do Nudoc (Núcleo de Documentação da UFPB)”. A segunda, “aconteceu em setembro de 2003 e é marcante por seu simbolismo. Ele estava acompanhado pela esposa africana e apresentou, na ocasião, seu último filme ‘O Sonho Mais Forte que a Morte’. Esta seria sua última participação em um festival de cinema, pois poucos meses depois ele morreria numa estrada da África, continente que muito amou e que foi o universo de vários dos seus preciosos documentários”.

 

O cinema humano, livre e poético de Jean Rouch

Por Marcos de Souza Mendes*

Fui aluno do grande documentarista etnográfico Jean Rouch, em Paris, nos já distantes anos de 1980/82. A disciplina por ele ministrada, Problemas de Realização, fazia parte do primeiro ano do Curso de Doutorado de Terceiro Ciclo em Cinematografia, o DEA, Diploma de Estudos Aprofundados, da Universidade de Paris I Panthéon /Sorbonne – Paris X/Nanterre. As aulas aconteciam na antiga Cinemateca Francesa, próxima ao Comitê do Filme Etnográfico, criado por Rouch nos anos 50, no Palais de Chaillot, aos sábados pela manhã, no mítico espaço dos eventos ocorridos em 1968, em defesa de Henri Langlois, o fundador da Cinemateca – local nostalgicamente referenciado nos filmes “Beijos Roubados” (“Baisers Volés”), de François Truffaut, e “Os Sonhadores” (“The Dreamers”), de Bernardo Bertolucci.

As projeções em película na misteriosa e confortável sala escura, antecedidas por curtas apresentações de Rouch a citar seu pequeno Sadoul (depois, finalizadas com debates entre professores e cineastas convidados) nos apresentavam clássicos do Cinema Documentário Mundial, como os primeiros filmes de Louis Lumière, “Nanookof the North”, de Robert Flaherty, “Les Brisants et Le Pont”, de Joris Ivens, “O Homem da Câmera” e “Entusiasmo” (ou “A Sinfonia do Donbass”), de Dziga Vertov; “À Propos de Nice”, de Jean Vigo, “Le Tempestaire”, de Jean Epstein, “Noite e Nevoeiro” (“Nuit et Bruillard”), de Alain Resnais, que se entrelaçavam com a exibição de vários filmes de Rouch: “Yenendi, les Hommes qui Font la Pluie” (“Yenendi, os Homens que Fazem Chover”); “Au Pays des Mages Noirs” (“No País dos Magos Negros”); “Jaguar”; “Cimetières dans la Falaise” (“Cemitérios na Falésia”), “Moi, un Noir” (“Eu, um Negro”); “La Goumbé des Jeunes Noceurs “(“A Goumbé dos Jovens Festeiros”), “Tourou et Bitti, les Tambours d’Avant” (“Touru e Bitti, os Tambores de Outrora”).

A leveza da câmera desses filmes, a espontaneidade de seus protagonistas e atores naturais de vários povos africanos, cheios de humor, humanismo e autenticidade a viverem ao som de suas danças, ritos e diálogos cotidianos – sincronizados ou em off –, se abriam em novo caminho para a dramaturgia documentária que estudáramos na Universidade de Brasília com os mestres Heinz Forthmann e Vladimir Carvalho, e que começáramos a desenvolver em nossos primeiros filmes.

Este caminho, aerado pela sua janela aberta ao conhecimento do próximo e pelo respeito as suas culturas originais, se abria livre também para novas estradas de realização documentária: a do rigor com o tempo real da realidade bruta em sua evolução em gestos e cânticos (uma dança de possessão, por exemplo); e a da improvisação, a do imaginário e da poesia, esta, a flutuar nas tênues fronteiras do real e da ficção.

De retorno ao Brasil, o legado de Rouch se manifestou diretamente no documentário em vídeo sobre a reidratação infantil – Terapia de Reidratação Oral – realizado por mim, em conjunto com Sérgio Moriconi e Laura Maria Coutinho, no Hospital Regional da L2 –Sul de Brasília: o acompanhamento da vida em seu processo; o despojamento da presença da mínima equipe de realização e de seu aparato de filmagem e gravação. Ou seja: a humildade do diretor; a câmera leve na mão; a câmera plácida no tripé quando necessário, sem afetação e vaidade, com todo respeito em olhar e ouvir as pessoas, mas sem negar a sua presença.

Anos depois, em 1994, voltei a Rouch, ao festival do Bilan (balanço), organizado pelo Comitê do Filme Etnográfico de Paris, com o filme póstumo de Heinz Forthmann, “Rito Krahô”, montado por mim e pelo saudoso Francisco Sérgio Moreira. Foi uma felicidade imensa rever os antigos professores, Xavier de France, discípulo fiel de Rouch, Annie Comolli, Françoise Foucault, secretária do Bilan. Mais alguns anos depois, o encontro no Brasil, na Mostra Internacional do Filme Etnográfico, organizada com esmero por Patrícia Monte-Mór e José Inácio Parente, no Rio de Janeiro. Em meu Doutorado no Instituto de Artes da Unicamp, o encontro com Rouch se daria de maneira indireta, através do Professor Marcius Freire, continuador direto da linha documentária de Nanterre, preconizada por Rouch e Claudine de France, através de suas aulas, livros e traduções.

Na corrida do tempo, Rouch volta ao Brasil em 2003, convidado por Guido Araújo para a Jornada Internacional de Cinema da Bahia. Em cadeira de rodas, não perdia o humor. Junto ao documentarista Lionel Lucini, o fotografei e ouvi sua curta frase para gravação de João de Lima Gomes, professor da UFPB: “[...] o mais importante para o Cinema é a Poesia!”.


* Marcos de Souza Mendes é cineasta e professor de Cinema da UnB (Universidade de Brasília)

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