Festival Aruanda – Dandara protesta, Elba reencontra Ruy Guerra e Peréio relembra “A Lira do Delírio”
Elba Ramalho e Ruy Guerra © Maria do Rosário Caetano

Por Maria do Rosário Caetano, de João Pessoa (PB)

A atriz Dandara de Morais, que protagoniza, junto com Maeve Jinkings, o longa pernambucano “Açúcar”, fez subir a temperatura do debate de dois concorrentes  — “Açúcar” e “Nó do Diabo”— ao Trofeu Aruanda, no Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro. O evento paraibano entrega seus prêmios na noite desta quarta-feira, dia 6 de dezembro. A atriz assegurou não ter ficado “100% satisfeita” com seu papel em “Açúcar”, dos pernambucanos Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira. E revelou sua negativa a convite para atuar em “Nó do Diabo”, realizado em Campina Grande, por três diretores paraibanos (Ramón Porto Mota, Jhésus Tribuzi e Ian Abé) e um mineiro (Gabriel Martins).

Dandara justificou a recusa ao papel que lhe caberia no quinto e último episódio de “Nó do Diabo”: “fiquei horrorizada com o que li na escaleta inicial do roteiro”. Depois, ao receber o roteiro já devidamente desenvolvido, continuou incomodada e não aceitou o papel. Afinal, detalhou: “nele, apareceriam partes de corpos, membros decepados com a máscara de flandres, enfim, imagens muito doloridas para uma pessoa negra”.

No caso de “Açúcar”, filme em que Dandara, bailarina e atriz de 27 anos, interpreta uma jovem doméstica, ela pediu a Renata e Sérgio que criassem novas sequências para dar densidade à personagem. O que foi feito, tornando-a mais complexa.

A atriz pernambucana, protagonista de “Ventos de Agosto”, de Gabriel Mascaro, lembrou que “as personagens negras agora têm falas nos filmes, mas continuam na cozinha e na senzala”. Por isto, propôs aos diretores que, ao escrever seus roteiros com histórias ligadas aos afro-brasileiros, tenham uma pessoa negra a seu lado, prestando consultoria. Lembrou que é uma atriz tão boa quanto as  brancas com as quais trabalha. “Temos subjetividade”, reafirmou, mas “continuamos em papeis secundários, sem complexidade”.

Dandara rebateu, ainda, “ideia corrente no meio cinematográfico” de que atrizes (como Zezé Motta e Isabel Zua, ambas do elenco de “Nó do Diabo”) interpretam papel de escravas, porque querem, ninguém as obriga. “Atrizes negras não fazem estes papéis porque querem, mas porque não têm alternativa”. Elas necessitam trabalhar e como “as chances são rarefeitas, têm que aceitar interpretá-los, para garantir a própria sobrevivência artística e cotidiana”.

O Número da Besta

O ator gaúcho-carioca Paulo César de Campos Velho, o Peréio, de 77 anos, recebeu das mãos de Ruy Guerra, com quem trabalhou nos filmes “Os Fuzis”e “A Queda”, um Troféu Aruanda especial por sua trajetória no cinema, que soma mais de cem filmes. Para completar a noite, foi exibido o longa documental “10 Centavos para o Número da Besta”.

O ator adorou o “nome enigmático” do filme, mas o diretor Guillermo Planel decifrou o enigma para a plateia, que debateu o documentário e questionou a razão de tal escolha. “Enquanto filmávamos”— contou o documentarista —, “Peréio me mostrou recebido no valor de R$599,90 gastos em restaurante e me perguntou se poderíamos buscar ressarcimento junto a nosso patrocinador, já que fizera a despesa durante as filmagens. O valor da nota fiscal nos levou à constatação de que faltavam 10 centavos para 666, o número da besta”.

O ator-personagem e o diretor do filme descobriram naquele instante, que podiam não ter o dinheiro de volta, mas que haviam encontrado um ótimo título para o filme, o primeiro longa-metragem dedicado ao protagonista de “Iracema, uma Transa Amazônica” e “Eu Te Amo”, a ser concluído (“Pereio Eu te Odeio”, de Allan Sieber, não foi finalizado ainda).

Paulo César Peréio, que atuou em filmes essenciais do Cinema Novo (caso de “Terra em Transe”), do cinema marginal (“Bang Bang”, de Andrea Tonacci) e também em pornochanchadas e filmes policiais, revelou sua imensa estima por personagem que interpretou em “A Lira do Delírio”, de Walter Lima Jr. Para espanto da plateia, já que este longa-metragem não foi evocado em “10 Centavos para o Número da Besta”. “É que me esqueci de falar dele”, contou no debate. “Fica”— brincou — “para o “Número da Besta – Parte II”.

Peréio guarda as melhores lembranças das loucuras que moveram as filmagens do hoje cult “A Lira do Delírio”. Tudo aconteceu num carnaval em Niterói, terra do cineasta fluminense, que venderia, depois, um milhão de ingressos com “Inocência”.

“Em “A Lira do Delírio” — detalhou — “Walter Lima Jr. (acompanhado de Dib Lufti e de Renato Laclette, cada um com uma câmara) colocou um grupo de atores (Anecy Rocha, Claudio Marzo, Antônio Pedro, Peréio e a cantora Nara Leão) no delírio do carnaval niteroiense e nos deu liberdade para fazermos o que quiséssemos. Fizemos o imaginável e o inimaginável. Depois, o cineasta criou um roteiro muito livre para sequenciar aquele carnaval. Há um trecho no “Lira” em que Ness (Anecy Rocha) me chama, não pelo nome do meu personagem, mas pelo meu nome, Peréio. Gosto muito deste filme, pois nele o ator-personagem e o Peréio-persona se misturam.

Para realizar o “10 Centavos para o Número da Besta” com pouquíssima grana, Guillermo Planel contou com as amizades cinematográficas e existenciais de Peréio. “André Saddy, do Canal Brasil, nosso parceiro neste projeto”— explicou — “nos avisou que necessitaríamos de uns R$200 mil para adquirir direito de uso de trechos de 13 filmes mostrados em meu documentário”.

Como não havia tal grana, o jeito foi apelar para a brodagem. Peréio, em pessoa, pediu a muitos realizadores que cedessem imagens de “Os Fuzis”, “Terra em Transe”, “Bang Bang”, “Vai Trabalhar, Vagabundo”, “Iracema”, “Anchieta, José do Brasil”, “Lúcio Flávio”, entre outros. Todos cederam. “No final do processo”, contou o diretor, “gastamos R$1 mil, a título de ajuda de custo a uma das herdeiras de um dos diretores e grande amigos de Peréio, Paulo Cezar Saraceni”.

Duelo de dança e canto

A cantora Elba Ramalho assistiu ao filme “Ópera do Malandro”, que ela protagoniza ao lado de Edson Celulari, Claudia Ohana, Ney Latorraca e Fábio Sabag, no Cinépolis Manaíra, depois de receber um Troféu Aruanda, por sua trajetória artística, das mãos do diretor Ruy Guerra. Modesta, a atriz disse que seu papel no musical, que recria peça de Chico Buarque, é de “coadjuvante”. E que movera mundos, fazendo todos os testes possíveis, para atuar na montagem teatral desta recriação buarqueana para a “Ópera dos Três Vinténs”, de Bertoldt Brecht, mas hesitou muito em atuar no filme.

“Minha carreira de cantora estava consolidada”— ponderou — “e eu teria que passar meses sem fazer shows país a fora, além de dedicar-me a exaustivos ensaios, inclusive de complexas coreografias”. Mas “Chico Buarque insistiu tanto, que me convenceu”. E mais, contou sorrindo: “ele prometeu compor uma música especial para eu interpretar no filme”. Foi assim que nasceu “Palavra de Mulher”.

A “cantriz” paraibana disse que sofreu muito durante as filmagens, pois Ruy Guerra era exigente demais. “Passei dois meses preparando a coreografia de “O Meu Amor”, na qual Margot, minha personagem, e Ludmila, a de Claudia Ohana, duelam, cantando e dançando, pelo amor de Max Overseas (Edson Celulari). Só que Ruy não gostou do resultado da nossa dança quando ela foi impressa no celulóide. Mandou refazer. Foi uma loucura. Tivemos que, em poucas horas, preparar tudo de novo. Olhando, retrospectivamente, passados 32 anos, só tenho que me orgulhar do que fiz neste filme.”

Elba gosta, em especial, das sequências em que canta “Palavra de Mulher”, e do antológico bailado-duelo. “Ficou parecendo filme de Carlos Saura”, arrematou.

 

Atriz Dandara de Morais esclarece seus pontos de vista, expressos em debate no Festival Aruanda

15/12/2017, por Maria do Rosário Caetano

Recebi da atriz Dandara de Morais, do elenco de “Açúcar”, novo longa-metragem de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, observações

sobre o texto acima, que escrevi durante o XII Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro, realizado na primeira semana de dezembro, em João Pessoa,  na Paraíba.

Seguem, na íntegra, os esclarecimentos dela. E uma observação minha: o que está entre parêntese, é intervenção minha e não de Dandara. É verdade que ela não citou nominalmente nem a brasileira Zezé Motta, nem a angolana-lusitana Isabel Zua. Como o debate referia-se, naquele momento, à recusa de Dandara de participar do elenco de “Nó do Diabo”, fiz, entre parêntese, em negrito, citação dos dois nomes mais conhecidos do elenco deste terror histórico paraibano. Seguem as ponderações de Dandara:

Acabei de ler tua matéria e gostaria de fazer algumas observações. Nesta parte aqui: No caso de “Açúcar”, filme em que Dandara, bailarina e atriz de 27 anos, interpreta uma jovem doméstica, ela pediu a Renata e Sérgio que criassem novas sequências para dar densidade à personagem. O que foi feito, tornando-a mais complexa.

Dandara pondera: Na verdade eu falei que, quando vi o primeiro corte do filme, vi mais uma atriz negra fazendo papel de empregada, e fiquei decepcionada. Tivemos algumas conversas e daí criaram algumas cenas novas, mas ainda assim eu não sou 100% com a personagem.

E aqui: Dandara rebateu, ainda, ”ideia corrente no meio cinematográfico” de que atrizes (como Zezé Motta e Isabel Zua, ambas do elenco de “Nó do Diabo”) interpretam papel de escravas, porque querem, ninguém as obriga.

Dandara pondera:”Eu rebati quando Ramon (Porto Mota, um dos diretores de “Nó do Diabo”) falou. Não citei Zua, falei num quadro geral que nós, mulheres negras atrizes, não temos muita oportunidade, que é um quadro real no mundo inteiro, não me dirigi à Zua ou a Zezé diretamente”.

Neste trecho: “As personagens negras agora têm falas nos filmes, mas continuam na cozinha e na senzala” – Eu quis dizer que nós negros agora temos fala, mas ainda estamos na cozinha, na senzala…

Beijos, Dandara de Morais

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