Festival de Havana consagra cinema feminino
“Alanis”, de Anahí Berneri

A força das mulheres se fez sentir na noite de entrega dos troféus Coral aos melhores filmes da 39ª edição do Festival do Novo Cinema Latino-Americano de Havana. Dos 34 prêmios – distribuídos nas mais diversas categorias artísticas e técnicas –, 25 foram parar em mãos femininas.

O dado é espantoso por representar mais de 60% das láureas. Afinal, as competidoras femininas – conforme observação de Ivan Giraud, diretor do festival – assinaram menos de um terço dos 400 títulos exibidos nos múltiplos cinemas espalhados por diversos bairros das capital cubana.

A Argentina foi o país que conquistou os prêmios mais importantes de Havana. “Alanis”, de Anahí Berneri, história de uma prostituta que amamenta o filho bebê, conquistou o troféu de melhor filme, enquanto o drama histórico “Zama” rendeu o Coral de melhor direção a Lucrécia Martel (além do Prêmio da Crítica, atribuído pela Fipresci), e o sensível “A Noiva do Deserto”, de Valeria Pivato e Cecília Atán, ficou com o Coral de melhor longa de realizador estreante (Ópera Prima). E ainda houve mais prêmios para a pátria de Ricardo Darín: melhor atriz para Sofía Gala (“Alanis”) e melhor roteiro para “Invisível” (do diretor Pablo Giorgelli em parceria com Laura Gargarella).

Frente a tal avalanche de prêmios argentinos, sobraram para o Brasil poucos troféus: melhor documentário para “Baronesa”, da mineira Juliana Antunes, melhor música original, para o também mineiro O Grivo (por “Joaquim”, drama histórico de Marcelo Gomes, sobre Tiradentes), e menção especial/contribuição artística para o delicado “Pela Janela”, da paulistana Carolina Leone. Detalhe fundamental: a pernambucana Renata Pinheiro ganhou o Coral de melhor direção de arte, mas por seu trabalho em “Zama” , de Lucrécia Martel.

Nas categorias especiais, o Brasil brilhou no Prêmio Signis (ex-OCIC – Ofício Católico Internacional de Cinema), que premiou “Aos teus Olhos”, de Carolina Jabor, e deu menção especial a “Praça Paris”, de Lúcia Murat.

O Chile ficou com o Prêmio Especial do Júri para “Uma Mulher Fantástica”, de Sebastián Lélio (candidato ao Globo de Ouro) e melhor atriz, para a trans Daniela Vega (dividido com a argentina Sofía Gala).

A Colômbia, que – como a Argentina e o Chile – vinha causando sensação em festivais internacionais, só brilhou, em Havana, na categoria animação: melhor filme para “El Libro de Lila”, de Marcela Rincón. O país recebeu, ainda, uma menção na categoria “Ópera Prima” (diretor estreante) para “Matar a Jesús”, de Laura Mora.

O México, uma das maiores potências cinematográficas da América Latina, ficou com prêmios secundários: melhor fotografia para María Secco, por “Restos de Viento”, e melhor montagem, para “Tesouros”, longa infanto-juvenil de María Novaro.

A República Dominicana conquistou o Coral de melhor ator, atribuído a Jean Jean, do filme “Carpinteros”.

Cuba, o país anfitrião, não ganhou prêmios importantes do júri oficial, mas foi consagrado pelo Júri Popular, que elegeu “Sergio & Serguei”, de Ernesto Daranas, o mesmo realizador do ótimo e contundente “Uma Escola de Havana”.

As sessões de “Sérgio & Serguei”, que tem o norte-americano Ron Perlman (na pele de um jornalista judeu) em seu elenco, apresentaram problemas técnicos e, por isto, deram motivo a muita controvérsia. Houve quem (muitos) supusesse tratar-se de boicote ao filme (negado pela direção do Festival), crítico ao narrar a história de dois homens de mesmo nome, um negro cubano (Tomás Cao) e um soviético (Héctor Noas), construindo, à distância, amizade que se mostrará duradoura.

Só que tal amizade será construída em momento trágico (1991) em que a poderosa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se esfacela e Cuba entra na maior crise econômica de sua história (o “período especial”, marcado por fome e, depois, fuga dos balseiros rumo a Miami). Sérgio é radioamador e professor de Marxismo. Serguei é um cosmonauta que, naquele momento de desmonte da URSS, encontra-se em estação orbital semi-abandonada pela vertigem dos acontecimentos responsáveis pela bancarrota do império soviético.

Um registro final: a brasileira Juliana Antunes derrotou, na categoria documentário, concorrente peso-pesado (“El Pacto de Adriana”, de Lissette Orozco). Este filme venceu, por unanimidade do Júri internacional, a 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O longa mineiro registra a vida de duas mulheres em favela violenta de Belo Horizonte. O chileno nos mostra o dilema real de sua jovem realizadora, compelida a romper laço familiar e revelar dura verdade: sua tia Adriana, a despachada Channy, integrou a Dina, a polícia de Pinochet, responsável por tortura e assassinato de milhares de presos políticos.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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