Festivais: primeira vitrine?
“Teu Mundo Não Cabe nos meus Olhos”, de Paulo Nascimento

Qual é o melhor caminho para o lançamento de um filme brasileiro: passar pelos festivais e, só depois, chegar ao circuito comercial? Ou ir direto para as salas de exibição?

Esta questão parece cada vez mais clara e definida para realizadores e produtores de filmes voltados ao diálogo com o público. E que contam com distribuidora de peso na retaguarda.

O cineasta gaúcho Paulo Nascimento, que mostrou seus quatro primeiros longas no Festival de Gramado, mudou sua estratégia para este ano. Em maio próximo, ele lança dois novos filmes: “Teu Mundo Não Cabe nos meus Olhos” e “Superfície da Sombra”. O primeiro é um drama protagonizado por Edson Celulari e pela argentina Soledad Villamil, parceira de Ricardo Darín em “O Segredo dos seus Olhos” (Oscar de melhor filme estrangeiro). O segundo baseia-se em livro homônimo de Tailor Diniz e assume como idioma o “portunhol”. Ou melhor, “uma mistura de idiomas, dialetos e culturas do Brasil e do Uruguai”. À frente do elenco, Leonardo Machado, Cesar Troncoso, Giovana Echeverria e Sirmar Antunes.

Será que as distribuidoras Paris Filmes e Downtown estão por trás da decisão do cineasta gaúcho? Elas o convenceram a desistir da vitrine de Gramado?

Paulo Nascimento, que tem vários troféus Kikito em sua estante (por “Diário do Novo Mundo”, “Valsa para Bruno Stein”, “Em teu Nome” e “A Oeste do Fim do Mundo”), prefere dar explicação mais diplomática ao justificar a ausência de “Teu Mundo Não Cabe nos meus Olhos” no 46º Festival de Gramado – Cinema Brasileiro e Latino (de 16 a 25 de agosto).

“Nosso filme” – justifica – “teve sua realização atrasada em função do câncer do Edson (Celulari). E também de atrasos na liberação do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual). Ao analisarmos as melhores datas de lançamento, trabalhamos com maio e outubro. Concluímos que deixar para outubro seria muito complicado. Então, vamos direto para os cinemas (o filme estreia dia três de maio)”.

Em tom de brincadeira, Nascimento acrescenta: “e para pirar minha cabeça, dia 24 de maio, lançaremos “Superfície da Sombra”. Portanto, “dois longas-metragens num mesmo mês”.

Como se vê, os festivais saíram, pelo menos por enquanto, da mira do realizador gaúcho. Se não tivessem saído, ele guardaria seu longa falado em portunhol (“Superfície da Sombra”) para uma das duas competições de Gramado, hoje a mais vistosa vitrine brasileira do cinema latino-americano. E há que se registrar que os dois filmes de Nascimento são parcerias que unem culturalmente o Rio Grande do Sul a países vizinhos (a Argentina e o Uruguai).

O distribuidor Bruno Wainer, parceiro da Paris Filmes no lançamento da maioria dos candidatos brasileiros a figurar na lista de nossas maiores bilheterias, é conhecido por não gostar de ver filmes da carteira de distribuição da Downtown em mostras competitivas de festivais brasileiros.

“Não é que eu seja contra os festivais, via de regra”, explica. “Só que não os acho apropriados para os filmes distribuídos pela Downtown”. No caso de “Teu Mundo Não Cabe nos meus Olhos”, ele avisa: “a distribuidora principal do filme é a Paris”. A Downtown, neste caso, está apenas na retaguarda.

Além de Paulo Nascimento, vários outros realizadores eliminaram a vitrine dos festivais e vão, firmes e diretos, para o circuito exibidor. A turbulenta recepção ao filme “Vazante”, de Daniela Thomaz, no Festival de Brasília, deixou diretores (em especial os menos jovens) e alguns produtores com a barba de molho.

A tabela de lançamentos do respeitado Boletim Filme B já anuncia o mês de maio como data de estreia dos filmes de Monique Gardenberg (“Paraíso Perdido”), Marcos Bernstein (“O Amor Dá Voltas”), Heitor Dhalia (“Tungstênio”), Halder Gomes (“Cine Holliúdy”, “A Chibata Sideral”), Toniko Melo (“Chorar de Rir”), Ale McHaddo (“Amor Dá Trabalho”) e Cacá Diegues (“O Grande Circo Místico”). No caso de Diegues, registre-se: ele não participa de competições em festivais brasileiros há décadas. Mas poderia, caso não tivesse programado o lançamento do filme para o próximo dia 17 de maio, exibi-lo em caráter hors concours em algum dos grandes festivais brasileiros.

Há mais diretores que não pretendem mostrar seus filmes em festivais antes do lançamento comercial: Jeferson De (“Correndo Atrás”, agendado para 7 de junho), Sérgio Rezende (“O Paciente”, dia 14), Rodrigo Bernardo (“Talvez uma História de Amor”, também dia 14), e Luís Pinheiro (“Mulheres Alteradas”, dia 28). Marcus Baldini, do sucesso “Bruna Surfistinha”, lançará “Uma quase Dupla” (com Cauã Reymond e Tata Werneck) dia 12 de julho.

Gramado, um festival que costuma somar filmes “comerciais” de qualidade (incluindo comédias) a filmes mais autorais, deve ficar de olho em “Caritó”, de João Paulo Jabour (protagonizado por Lilia Cabral), “10 Segundos”, de José Alvarenga Jr. (com Daniel Oliveira e Osmar Prado recriando a saga do pugilista Eder Jofre e de seu pai, Kid Jofre), “Chacrinha”, de Andrucha Waddington (com Stepan Nercessian) e “Benzinho”, de Gustavo Pizzi (com Karine Telles, Mateus Solano e Adriana Esteves). Todos estes longas estão programados para lançamento em setembro/outubro, portanto, depois do festival gaúcho.

“As Quatro Irmãs”, novo longa de Evaldo Mocarzel (sobre a atriz Vera Holtz e suas irmãs, nascidas em Tatuí, no interior de São Paulo) também só deve ser lançado no segundo semestre.

Festivais

As competições cinematográficas brasileiras estão, cada vez mais, concentradas no segundo semestre. Os organizadores de festivais e mostras argumentam que é muito difícil levantar recursos nos primeiros meses do ano. Com a diminuição de recursos vindos de organismos federais, estaduais e municipais e a dificuldade de sensibilizar os departamentos de marketing de grandes empresas, muitos festivais deixaram de existir. No auge da era festivaleira, verificada ao longo dos anos 2000/2012, o país chegou a ter mais de 200 festivais e mostras.

O É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários de São Paulo, que acontece em abril (de 12 a 22), é o próximo evento no calendário brasileiro. Talvez, em sua competição (ou em mostras informativas) estejam alguns dos muitos filmes da safra que registrou o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, caso de “O Processo”, de Maria Augusta Ramos (da seleção de Berlim), quem sabe de “Excelentíssimos”, de Douglas Duarte, ou “Impeachment – Dois Pesos e Duas Medidas”, de Petra Costa, ou “Esquerda em Transe”, de Renato Tapajós (que esteve em Havana). Documentários aguardados como “Rio da Dúvida”, de Joel Pizzini, e “Fela”, de Joelzito Araújo, também podem estar na edição deste ano. Ou ainda “Dedo na Ferida”, de Sílvio Tendler.

O Cine PE – Festival de Cinema de Pernambuco, que acontecia em abril, adiou sua vigésima-segunda edição para o final de maio, começo de junho (29 a 4). Depois de perder seu maior trunfo – o gigantesco Cine-Teatro Guararapes, que lhe valia o aposto de “Maracanã dos festivais” – e dos tumultos da edição do ano passado (quando seis diretores de curta-metragem e um de longa retiraram seus filmes da seleção), terá que surpreender o meio cinematográfico com programação mais qualificada, caso não queira mergulhar de vez na segunda divisão.

Neste momento, estão abertas inscrições para quatro festivais. Dois deles acontecem em junho: o Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba (6 a 14) e o FAM – Florianópolis Audiovisual MercoSul (19 a 24). As inscrições para o festival curitibano prosseguem até nove de março e são aceitos filmes de longa-metragem, sejam documentais, de animação, ficcionais, experimentais ou “híbridos” . A abertura explícita a filmes experimentais (ou híbridos) deixa clara a linha curatorial do Olhar de Cinema: filmes autorais e independentes.

Já o FAM, que chega à sua vigésima-segunda edição, aceita inscrições (até cinco de março) de curtas-metragens de até 30 minutos, de todos os gêneros. Já na categoria média e longa-metragem são aceitos apenas filmes documentais e infanto-juvenis (neste caso, brasileiros e dos países que integram o MercoSul).

O Anima Mundi, que este ano realiza sua vigésima-sexta edição (no Rio, em julho, e em São Paulo, em agosto) receberá, até 30 de março, inscrições de curtas, médias e longas-metragens animados. Dois longas brasileiros devem estrear no festival: “A Cidade dos Piratas” (ou Otto Guerra vai retribuir a grande homenagem que recebeu, ano passado, do Festival de Gramado?) e “Tito e os Pássaros”, de Gustavo Steinback.

A Mostra CineBH, que não é competitiva, aceita inscrições para suas várias mostras informativas até o mês de abril. O festival, organizado pela Universo Produções (a mesma equipe da Mostra de Tiradentes e da CineOP), acontecerá na capital mineira, em agosto. Em junho, de 13 a 18, Ouro Preto, na região histórica de Minas Gerais, realizará sua décima-terceira edição de mostra dedicada ao Cinema e à Memória.

Em junho, a cidade de São Luiz do Maranhão, aproveitando os festejos juninos, deve realizar mais uma edição (a de número 41) do Festival Guarnicê de Cinema, um dos mais antigos do país. Em julho, o Memorial da América Latina e dezenas de salas paulistanas abrigarão a 13ª edição do Festival do Cinema Latino-Americano de São Paulo.

Em agosto (de 4 a 10), o Cine Ceará realiza sua 28ª edição, e segue com seu recorte ibero-americano. Dois ou três longas brasileiros (preferencialmente inéditos) disputarão o Troféu com filmes da Península Ibérica e América Hispânica. Um país latino-americano (talvez o Perú) será homenageado com retrospectiva panorâmica de sua cinematografia. As inscrições permanecem abertas até junho.

Uma semana depois do Cine Ceará, Gramado realiza sua edição de número 46, com duas mostras competitivas (uma brasileira e uma latino-americana). Desde o ano passado, o festival gaúcho passou a apostar em filmes 100% inéditos. Mesmo caso do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que em setembro realiza sua 52ª edição, e do 20º Festival do Rio (na primeira quinzena de outubro).

Brasília deve somar, como vem fazendo nos últimos anos, filmes (ficções e documentários) autorais e oriundos de todos os Brasis. Todos 100% inéditos em território brasileiro. Ter passado por festivais internacionais não serve de impedimento. Muito pelo contrário.

Já o Festival do Rio, que separa em duas competições os filmes ficcionais e os documentais, conta com curadoria coletiva e, digamos, mais “tolerante” que a de Brasília. Ou seja, suas seleções somam títulos mais ousados, mas sem esquecer produções com grandes elencos e nomes consagrados na direção. Tudo leva a crer que Andrucha Waddington guardará o suspense “O Juízo”, escrito pela atriz e romancista Fernanda Torres, para a competição carioca. Tanto é que o lançamento comercial do filme está agendado para oito de novembro. Vale lembrar que o drama médico “Sob Pressão”, protagonizado por Júlio Andrade e Marjorie Estiano, iniciou sua carreira no Festival do Rio, com boa recepção e prêmio de melhor ator para Júlio.

Outro filme que pode fazer do Festival do Rio sua plataforma de lançamento é “Pluft, o Fantasminha”, de Rosane Svartman. A adaptação da famosa peça infanto-juvenil de Maria Clara Machado tem lançamento comercial previsto para o final ano. O fato de ser um filme brasileiro em 3D (algo banal no cinema norte-americano) constitui raridade por aqui.

No terreno do cinema infanto-juvenil, há mais dois filmes programados para o segundo semestre: “Turma da Mônica – Laços”, de Daniel Rezende (o mesmo de “Bingo, o Rei das Manhãs”) com atores de carne e osso, e “Turma da Mônica” (versão animada). Tudo indica que os dois irão direto para o mercado. “Bingo”, por exemplo, não passou por nenhum festival brasileiro.

Brasília e o Festival do Rio devem disputar títulos como “Joana”, de Flávia Castro, primeiro longa ficcional da diretora do festejado documentário “Diário de uma Busca”; “Breves Miragens do Sol”, de Eryk Rocha, e “A Fazenda do Ribeirão do Queba”, de Helvécio Marins (o primeiro, uma produção da Videofilmes; o segundo e o terceiro, parceria das produtoras dos cineastas com os Irmãos Moreira Salles).

Outros títulos possíveis no festival candango ou no carioca (caso permaneçam 100% inéditos em território brasileiro) são “O Olho e a Faca”, de Paulo Sacramento, “Acqua Movie”, de Lírio Ferreira, “Paterna”, de Marcelo Lordello, “Impeachment, Dois Pesos e Duas Medidas”, de Petra Costa, “Fela”, de Joelzito Araújo, “Guerra do Algodão”, de Cláudio Marques, “Excelentíssimos”, de Douglas Duarte, “Os Príncipes”, de Luiz Rosemberg, “Sambalanço, a Bossa que Dança”, de Fabiano Maciel, “No Coração do Mundo”, de Gabriel e Maurílio Martins, “Cartografia do Prazer”, de Eduardo Kishimoto, “Mormaço”, de Marina Meliande, “Boi de Lágrimas”, de Fred Machado, “Salto no Vazio”, de Cavi Borges e Patrícia Nieddermeier, “Beiço de Estrada”, de Eliezer Rolin, e “O Sofá”, de Bruno Safadi (com Ingrid Guimarães, a rainha do blockbuster, em incursão mais autoral).

E, claro, os longas-metragens recomendados por seleções de festivais internacionais: os ficcionais “Ferrugem”, de Aly Muritiba, e “Terra Bruta”, de Márcio Reolon e Felipe Matzembacher, e os documentários “Ex-Pajé”, de Luiz Bolognesi, “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, e “Bixa Travesty”, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman. A não ser que estes três últimos filmes integrem a programação oficial do Festival É Tudo Verdade, agora em abril.

Daniela Thomas tem um novo filme para mostrar: “Banquete”. Mas depois do que aconteceu no debate de seu primeiro longa solo, “Vazante”, no Festival de Brasília, ela deve preferir uma trégua. Ou pode optar por festivais de ânimos menos acirrados que o candango. Gramado ou o Festival do Rio, por exemplo.

Na segunda quinzena de outubro, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – Ano 42 (que não tem competição brasileira) apresenta um grande painel da produção nacional (com média de 50 títulos, todos inéditos no circuito comercial, muitos deles exibidos em festivais ao longo do ano). Os filmes brasileiros que, em outubro, continuarem 100% inéditos e se inscreverem no festival paulistano, poderão, desde que sejam realizações de diretores de primeiro ou segundo longa, disputar o Troféu Bandeira Paulista com títulos internacionais. Para tanto, necessitam passar pelo crivo do público. Um filme muito especial – “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005), de Marcelo Gomes – passou pelo julgamento do público, foi para a competição com representantes de outros continentes e venceu a Mostra SP. Fato raro.

Dois festivais dedicados por inteiro ao cinema brasileiro encerram o ano: a Mostra de Cinema de Gostoso, na cidade de São Miguel do Gostoso, no litoral potiguar (novembro) e Festival Aruanda, em João Pessoa, na Paraíba (dezembro).

 

Por Maria do Rosário Caetano

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