Trailers TV Revista de Cinema — 23 março 2018
A Odisseia

Jacques Cousteau, o oceanógrafo, cineasta (premiado com a Palma de Ouro, em Cannes) e comandante do Calypso já foi motivo de muita estima e conversas de brasileiros. Quem tem mais de 50 anos guarda na memória a imagem esguia do criador do aqualung e do “inventor” do boto cor-de- rosa, espécie de golfinho de nossos caudalosos rios amazônicos.

Passados trinta anos de sua morte, vale perguntar: o que as novas gerações sabem de Cousteau? Que ele serviu de fonte de inspiração ao protagonista do esquisito “A Vida Aquática de Steve Zissou” (2005), de Wes Anderson? Ou que era um navegador louco por novos barcos, equipamentos, aventuras e dinheiro?

Quem for aos cinemas assistir ao filme “A Odisseia”, de Jérôme Salle, verá Jean-Jacques Cousteau, o JYC, encarnado na pele de Lambert Wilson, e coadjuvado pela mulher, Simone (Audrey Tautou, a eterna Amélie Poulain) e pelo filho Phillipe (Pierre Niney, astro que interpretou Yves Saint-Laurent no filme de Jalil Lespert e protagonizou “Frantz”, de Ozon). Poderá, então, relembrar os momentos de glória do atrevido comandante, em especial suas relações com sua França natal e com os EUA, país que o acolheu como a um astro pop e financiou (via redes de TV) muitos de seus documentários.

O Brasil, onde Cousteau causou frisson ao “descobrir” (ou divulgar) o boto cor-de-rosa, não aparece em nenhuma sequência do filme. Mesmo assim, vale lembrar quem lhe garantiu fama em nosso território: a Rede Globo. Nos anos de 1982 a 1984, Cousteau percorreu, com o Calypso, a rica bacia hidrográfica amazônica. Tudo que viu, ele filmou. Como fazia documentários para seduzir o público de grandes redes de televisão, ele “inventou” o boto cor-de-rosa.

A Globo comprou seus filmes amazônicos e os exibiu, em horário nobre, ao longo de quatro noites. Brasileiras e brasileiros começaram, então, a sonhar com um passeio à Amazônia para acariciar simpáticos e dóceis botos cor-de-rosa. Cientistas amazônicos não se cansam de dizer que não existe boto cor-de-rosa. Só que no imaginário dos telespectadores formados pelos filmes de Cousteau, tenha que nome científico tiver, os botos são golfinhos de cor rosada.

O recorte de Jérôme Salle, que escreveu seu caudaloso roteiro a partir de dois livros, centra-se na relação de Cousteau com a primeira mulher e seus dois filhos, Jean-Michel e Philippe. E também em sua paixão por novos equipamentos e sua desmedida ambição por fama e dinheiro.

A revista Positif gostou do filme a ponto de atribuir a ele exageradas cinco estrelas. Já o comunista L’Humanité não gostou. Mostrou entusiasmo apenas por sequência ambientada na Antártida (realmente arrebatadora). Mas lamentou o foco do filme: “o umbigo do homem do boné vermelho”.

O jornal Libération constatou que Jérôme Salle não tem fôlego e estofo para fazer de Cousteau “um crápula super-excitado”. Até porque nenhum produtor investiria 30 milhões de euros na desconstrução da imagem do globe-trotter hipermidiático que o próprio JYC construiu com afinco e esmero.

A vida amorosa de Cousteau foi das mais animadas. Mas “A Odisseia”, por basear-se em “Mon Père le Commandant”, livro de Jean-Michel Cousteau, e “Capitaine de la Caliypso”, de Albert Faldo e Yves Paccalet, dois de seus parceiros de aventura, acaba concentrando-se só na primeira família do oceanógrafo-cineasta. E na trágica vida de seu filho Philippe Cousteau (1940-1979), ecologista e cineasta, que viveu relação de amor-e-ódio com o pai. O filme, aliás, começa com a queda do hidroavião que pôs termo à vida de Philippe, no vigor de seus 39 anos.

Desta angustiante sequência (a do acidente), seremos conduzidos ao passado (1948). E o filme desenhará a cinebiografia de Jacques-Yves Cousteau (1910-1997), do momento em que transformou, com ajuda financeira da mulher, um velho barco no poderoso Calypso, até sua morte, aos 87 anos. Os infantes Jean-Michel e Philippe serão vistos ao lado da mãe, Simone, e do pai, em longas viagens marítimas. Até descobrirem que serão levados para um internato, pois necessitam estudar. E não há espaço para crianças no ousado projeto de Cousteau. Oito anos depois, o oceanógrafo-cineasta será visto em Cannes, recebendo uma Palma de Ouro por “O Mundo do Silêncio”, que dirigiu com Louis Malle (o filme ignora totalmente a presença do autor de “Sopro no Coração” e “Atlantic City”).

A primeira parte de “A Odisseia” nos desespera, por seu registro chapa branca. Mas, depois, a narrativa ganha algumas nuances e consegue adquirir vida. O resultado é digno, mas nunca arrebatador. Apenas um bom filme, no qual, além da sequência filmada na Antártida, assistiremos a outra muito bem realizada, as filmagens de um imenso tubarão, por Philippe, com marinheiros do pai na retaguarda.

Cousteau tinha menos de 40 anos quando iniciou sua carreira de oceanógrafo e cineasta. Inventivo, conseguiu criar o aqualung, espécie de escafandro leve e prático, que permitia mergulhos autônomos e mais confortáveis. Com parceiros, inventou também equipamentos foto-cinematográficos que podiam ser usados em grandes profundidades. Com eles, realizou filmes respeitados como o palmaré “O Mundo do Silêncio” (1956), “O Mundo sem Sol” (1964) e “Voyage au Bout du Monde” (1976, este em parceria com o filho Philippe Cousteau).

A Odisseia
L’Odyssée
, 122 min., França, 2016
Diretor: Jérôme Salle
Elenco: Lambert Wilson, Audrey Tautou, Pierre Niney e Vincent Heneine

 

Por Maria do Rosário Caetano

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