VOD: os desafios do equilíbrio e da diversidade
© Sylvia Masini

Ir à locadora às sextas-feiras para escolher um filme para o fim de semana era um hábito comum para a maioria das pessoas, até o início do século 21. Agora, você entra numa plataforma, escolhe, paga um valor ou tem uma assinatura e pronto: assiste ao seu filme. A praticidade moderna deveria ser uma boa notícia. Mas, como tudo que envolve o audiovisual, o que começa bem, logo tende para o oligopólio de forma agressiva.

A digitalização dos cinemas é um triste exemplo. Acreditou-se que resultaria em mais diversidade, pois eliminaria o custo das cópias. Entretanto, as empresas americanas inventaram o VPF (mais caro que as cópias 35mm) e os lançamentos, antes de 600-700 cópias, passaram para mil, chegando a 1.400! No Brasil todo, há menos de 3.500 salas. Quem já não chegou ao cinema e viu que, embora existam 10 salas, apenas quatro ou cinco filmes estão em cartaz? Desapareceram os filmes adultos, que ficam limitados aos poucos cinemas “de arte” que conseguem sobreviver.

Por enquanto, as plataformas de VOD estão isentas de qualquer regulamentação. A Ancine abriu diálogo para definir regras que garantam a variedade de títulos e a diversidade de plataformas, com espaço para os grandes operadores internacionais como Netflix, mas também para operadores nacionais. Em São Paulo, lançamos a Spcine Play, em novembro, para oferecer filmes brasileiros que tiveram pouca exibição. Em qualquer cidade do país (mais de cinco mil sem cinemas), as pessoas terão acesso ao catálogo.

Nossa ideia, agora, é incrementar este catálogo com títulos de festivais apoiados pela Spcine. Muitos destes eventos têm salas lotadas, mas acontecem poucas sessões de cada filme. Ao incluí-los no catálogo do Spcine Play, ampliamos o acesso dos espectadores que ficaram de fora das sessões e ainda garantimos que o público de outras cidades e países confiram as produções. Também estamos negociando os direitos de filmes paulistas, especialmente do que ficou conhecido como “Novo Cinema Paulista” e outras produções do início dos anos 1980.

Não podemos permitir que poucos megaoperadores internacionais determinem o mercado. Caso não se garanta agora equilíbrio e diversidade, teremos situação semelhante à do mercado de salas. Ruim para o mercado, pior para os consumidores, reféns da oferta e do preço desses operadores.

O VOD é muito diferente do mercado de TV paga, no qual, após anos, conseguiu-se uma cota de tela para a produção nacional. O espaço é limitado: 24 horas por dia. Ao se garantir 3,5 horas por semana, abriu-se um efetivo mercado para a produção nacional que, devido ao sucesso, muitos canais exibem horas a mais do que determina a lei.

Temos que estar unidos enquanto sociedade, indústria e governo para garantir que novamente não sejamos presas de uma política selvagem, extrativista e excludente. Garantir espaço nesse mercado que cresce a cada dia é fundamental.

 

Por André Sturm, Secretário municipal de Cultura de São Paulo, cineasta e, de 2011 até 2016, foi diretor-executivo do MIS-SP e seu curador.

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