CineOP revê o tropicalismo no cinema e homenageia Maria Gladys
Maria Gladys em cena de "Quebranto"

A CineOP (Mostra de Cinema de Ouro Preto), que realiza sua décima-terceira edição a partir desta quarta-feira, 13 de junho, vai homenagear o Tropicalismo, movimento cultural que, este ano, torna-se cinquentenário, e uma das musas mais transgressoras do cinema brasileiro, a atriz Maria Gladys.

O festival mineiro, que acontece entre as montanhas que cercam a mais bela de nossas cidades históricas, divide-se em três segmentos (ou focos temáticos): o Histórico, cujo tema será “Vanguarda Tropical: Cinema e outras Artes”, o da Educação (“Escola: Memórias do Futuro”) e o da Preservação (“Fronteiras do Patrimônio Audiovisual”).

Vinte encontros reflexivos sobre estes temas condutores mobilizarão, até 18 de junho, 73 convidados brasileiros (pesquisadores, professores, críticos, cinéfilos e cineastas) e seis internacionais (vindos da França, Espanha, EUA e Uruguai). Os ouro-pretanos e visitantes poderão assistir, no Cine Vila Rica, no Centro de Convenções ou na Praça Tiradentes, neste caso, ao ar livre (e gélido), a dezenas de filmes (não há na CineOP mostra competitiva, só mostras informativas), masterclass, seminários, conferências e debates.

Por sua natureza, essencialmente reflexiva, a CineOP é, entre os festivais brasileiros, o que mais dedica espaço à troca de ideias entre seus participantes. Sem exagero, pode-se dizer que o evento é 60% composto de discussões com vozes pluralistas e 40% com exibição de filmes. Como não há disputa de prêmios, o clima (apesar do frio intenso) é caloroso e descontraído.

Se não bastasse a beleza das igrejas, museus, praças e chafarizes de Ouro Preto, os “cineopianos” ainda poderão desfrutar, com calma, da saborosa culinária mineira, de concertos, shows e de passeios por suas ladeiras (que cansam, mas compensam).

Entre os filmes programados este ano, dois merecem destaque máximo: o francês “L’Atalante”, de Jean Vigo (1934), e o norte-americano “Downson City: Tempo Congelado”, de Bill Morrison (2016).

O octogenário “L’Atalante” (ou “A Chalana que Canta”) é um dos maiores filmes da história do cinema. Um poema, soma de lirismo, realismo e um quê de surrealismo. Na verdade, o canto de cisne do jovem Jean Vigo (1905-1934). Ele morreria, vítima de leucemia, dias antes da estreia comercial do filme. Que aliás, foi remontado pelos produtores que não aceitaram a versão do artista. Mesmo assim, “L’Atalante” foi escolhido, em enquete organizada pela Cinemateca Belga, no final dos anos 1950 – em ótima colocação – como um dos cem maiores filmes de todos os tempos. Uma de suas sequências mais inesperadas – o velho personagem de Michel Simon fumando pelo umbigo – ainda hoje a todos encanta. E o faz por simbolizar a liberdade criativa que marcou a curta e prodigiosa existência (e obra) do filho do anarquista Miguel Almereyda.

Agora, passados 83 anos, os franceses apresentam a versão mais próxima possível do projeto original de Vigo. O filme foi restaurado digitalmente em 4K, a partir de negativos originais, de cópias de época e dos restauros precedentes. Todo o trabalho foi supervisionado pelo historiador Bernard Eisenschitz e realizado pelo laboratório L’Immagine Ritrovata, da Cineteca de Bolonha, com patrocínio da Gaumont, da Film Fondation, comandada por Martin Scorsese, e da Cinémathèque Française.

A CineOP receberá a francesa Céline Ruivo, diretora e curadora de acervo da Cinemateca Francesa, além de coordenadora da Comissão Técnica da Fiaf (Federação Internacional de Arquivos Fílmicos), para contar como se deu o complexo restauro de “L”Atalante”. O filme, nesta cópia novíssima, será exibido no Cine Vila Rica, no domingo, 17 de junho.

Além de Celine Ruivo, outro convidado internacional, o multiartista Bill Morrison, estará na CineOP para relatar uma das mais impressionantes descobertas de filmes raros do mundo, ocorrida no Canadá em 1978. Escavações em terreno que abrigaria um clube recreativo revelou a existência de 500 filmes mudos, preservados graças às baixíssimas temperaturas do país do extremo norte da América.

Além de mostrar seu belo e potente documentário “Downson City: Tempo Congelado” (120 minutos de apaixonantes imagens), Morrison vai ministrar masterclass sobre o “Processo de Criação, Pesquisa e Arquivos Audiovisuais”. Quem viu o filme no Festival É Tudo Verdade, em São Paulo, dois anos atrás, quase perdeu o fôlego, ao fruir de tantos e tão raros registros fílmicos.

No campo dos debate, há que se destacar, também, o que discutirá o livro Nova História do Cinema Brasileiro: Novos Enfoques, Materiais e Perspectiva”, organizado pelos professores Sheila Scharzman e Fernão Ramos. À mesa de debate (e depois na sessão de autógrafos) se sentarão os também professores Guiomar Ramos, João Luiz Vieira, Luciano Ramos e Sheila Scharzman (com moderação de José Geraldo Couto). O livro reúne série de textos de pesquisadores e especialistas em audiovisual, que procuram traçar “um novo panorama, atualizado e detalhado, do cinema brasileiro”. Ou seja, propor novas análises e olhares sobre nossa produção ao longo de seus últimos 120 anos de história.

Em outro encontro (Foco Educação), o cineasta e professor de cinema Cristiano Burlan , diretor de “Mataram .eu irmão” e “Elegia de um Crime”, refletirá, com o espanhol Jorge Larrosa, um dos convidados internacionais da CineOP, sobre tema instigante, “Um Plano, uma Aula”. Um plano pedagógico e um plano cinematográfico, portanto. Já Milene Gusmão, professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, narrará a duradoura experiência do Janela Indiscreta, cineclube criado há 30 anos, em Vitória da Conquista, terra de Glauber Rocha, para difundir o cinema de empenho artístico e cultural entre os estudantes.

Homenagem

A atriz Maria Gladys, carioca de 78 anos, 60 deles dedicados ao cinema, teatro e TV, receberá na noite inaugural da CineOP, o Troféu Vila Rica, por sua trajetória. Embora tenha sua imagem ligada a um cinema mais transgressor (“O Anjo Nasceu”, “Mangue Bangue”, “Piranhas no Asfalto”, “Sem essa Aranha”, “Febre do Rato”), Gladys atuou em filmes cinemanovistas (quem há de esquecer belíssima cena de amor “rascante” entre ela e Nelson Xavier, em “Os Fuzis”, de Ruy Guerra?) e em projetos menos atrevidos (“O Donzelo”, “Os Bons Tempos Voltaram – Vamos Gozar de Novo”, “Rio Babilônia”, “Bar Esperança” e “Se Eu Fosse Você”).

Na TV, Gladys atuou em muitas novelas e seriados e marcou época como a atrevida Lucimar, em “Vale Tudo”, o maior êxito de Gilberto Braga. Na noite em que será homenageada, a atriz assistirá, junto com o público, ao curta “Maria Gladys, uma Atriz Brasileira” (1980), de Norma Bengell, e ao longa “Sem essa, Aranha”, de Rogério Sganzerla (1970). E a homenagem prosseguirá, ao longa da CineOP, com exibição de “Vida”(2008), documentário poético de Paula Gaitán, e do novíssimo “Quebranto”, de José Sette de Barros. Gladys participará, ainda, de roda de conversa com o público, ao lado do cineasta e amigo Neville D’Almeida, que a dirigiu em vários filmes. Inclusive no remake de “Matou a Família e Foi ao Cinema” (1991).

A programação fílmica do Foco Histórico somará três longas-metragens (“Vera Cruz”, de Rosangela Rennó, “O Demiurgo”, de Jorge Mautner, e “Caveira My Friend”, de Álvaro Guimarães), e 14 curtas e médias-metragens (“A Fila”, de Kátia Maciel, “À Meia-Noite com Glauber”, de Ivan Cardoso, “Alma no Olho”, de Zózimo Bulbul, “Brasil”, de Rogério Sganzerla (tocante registro da gravação de disco que uniu João Gilberto a dois de seus conterrâneos, Caetano Veloso e Gilberto Gil), “Das Ruínas da Existência”, de Carlos Adriano, “Variações sobre um Tema de Steinberg: As Máscaras Nº 1”, de Nelson Leirner , “Light Work”, de Iole de Freitas, “Lua Diana”, de Mário Cravo Neto, “O Ataque das Araras”, de Jairo Ferreira, “O Som ou o Tratado de Harmonia”, de Arthur Omar, “Terror da Vermelha”, de Torquato Neto, “Triunfo Hermético”, de Rubens Gerchman, “Ver Ouvir”, de Antônio Carlos da Fontoura, e “X”, de Anna Maria Maiolino. Muitos destes filmes trazem o diálogo de artistas plásticos com o cinema. E um deles, em especial, documenta, com grande talento, a efervescência deste diálogo: o fontouriano “Ver Ouvir”, consagrado numa das edições do Festival de Brasília nos anos 1960.

 

CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto
Data: 13 a 18 de junho
Locais: Centro de Artes e Convenções, Praça Tiradentes e Cine Vila Rica – Ouro Preto/MG

Por Maria do Rosário Caetano

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