Filme registra a trajetória de Zé Arigó

Por Maria do Rosário Caetano, de Congonhas (MG)

O ator Danton Mello está revivendo, no filme “Arigó”, de Gustavo Fernández, a trajetória do médium mineiro José Pedro de Freitas, o Zé Arigó (1921-1971). Talvez as novas gerações não sabem quem foi Arigó, nascido em Congonhas (do Campo), na região do ouro de Minas Gerais, há quase um século.

Quem tem mais de 60 anos sabe o furor que o médium causou nos anos 1950 e, em especial, na década de 60, graças a seu poder de “cura espiritual” questionado pela Igreja, pelos médicos e pela Justiça, mas reverenciado pelo povo brasileiro (calcula-se que passaram por seu centro de atendimento perto de 4 milhões de pessoas) e por gente que veio de fora (inclusive dos EUA) em busca de cura ou de compreensão daquele “impressionante fenômeno”.

Arigó representou, no século passado, o que representa, hoje, o goiano João de Deus, também tema de filme (o documentário “João de Deus”, de Candé Salles, lançado recentemente no circuito brasileiro).

Nesta quinta-feira, 28 de junho, Congonhas, a cidade dos Profetas (e de Arigó), comemora com festejos religiosos e cívicos o restauro da Basílica do Bom Jesus de Matosinhos, onde estão expostas 64 esculturas em madeira (dentro das capelas dos Passos) e os doze profetas criados pelo Aleijadinho (Antônio Francisco Lisboa, 1738-1814), esculpidos em pedra-sabão e colocados no amplo átrio do bicentenário templo. Para o francês Germain Bazin e o poeta modernista Oswald de Andrade, trata-se de obra de primeira grandeza.

O autor de “O Rei da Vela” sintetizou, em nove versos, toda a beleza do complexo arquitetônico-escultórico, que tornou-se, no Brasil, uma das obras máximas da Cristandade: “No anfiteatro de montanhas/Os profetas do Aleijadinho/Monumentalizam a paisagem/ As cúpulas brancas dos Passos/ E os cocares revirados das palmeiras/ São degraus da arte de meu país/ Onde ninguém mais subiu//Bíblia de pedra-sabão/ banhada no ouro das minas”.

A escritora Henriqueta Lisboa, por sua vez, registrou, depois de contemplar, emocionada, o Santuário: “Estavam plácidos os Profetas e havia um mundo de sombras ao derredor de suas frontes sob a poeira de ouro dos séculos”.

As crianças de Congonhas, unidas num coral escolar, vão cantar, nesta quinta-feira, entre os Profetas esculpidos, a “Suíte dos Pescadores”, de Dorival Caymmi, e o Hino do Município. Município que há dois anos ganhou belo e moderno Museu. A instituição, inaugurada pela então presidenta Dilma Roussef, nasceu para contar a história da cidade dos Profetas. Este, afinal, é o lado mais conhecido e festejado de Congonhas, embora a cidade viva relativo esquecimento e atraia bem menos turistas que Ouro Preto e Tiradentes, sede de grandes festivais (de cinema, jazz e gastronomia).

Por ironia do destino, ano que vem, quando “Arigó”, o filme produzido pela Moonshot, de Roberto d’Ávila, e a JF Productions, de Fábio Golombek, chegar aos cinemas brasileiros, será a “outra Congonhas”, a espírita, que reavivará a cidade dos Profetas no imaginário brasileiro.

O filme, ainda em processo, tem locações em Congonhas, claro, e também nas mineiras Cataguases e Rio Novo. Quando as filmagens aconteceram na Cidade dos Profetas, os moradores ficaram orgulhosos. “Arigó”, primeiro longa-metragem de Gustavo Fernández, 41 anos, integrante das equipes técnicas de “Anahy de las Misiones” e “Lavoura Arcaica” (e hoje diretor de telenovelas na Globo) pretende registrar “a história simples de um homem que realizou cirurgias e curas espirituais extraordinárias”, em sua cidade natal (Congonhas). Com sua paranormalidade, “ele tornou-se esperança de cura para milhões de pessoas”. Isto, dizem os produtores do filme, “numa época em que o espiritismo não era uma religião muito difundida no Brasil e sofria preconceitos de parte da sociedade, da comunidade médica e da Justiça, que o levou à prisão”.

O jovem Marcelo Heidenreich, mediador do Museu de Congonhas, acompanhou com interesse as filmagens de “Arigó”, na cidade dos Profetas. Ele acredita que o filme faz parte de “uma segunda fase de filmes espíritas no Brasil, ao lado de ‘João de Deus’”. A primeira, nunca é demais lembrar, compôs-se com, entre outros, “Chico Xavier” e “Nosso Lar”, dois blockbusters (com mais de 3 milhões de ingressos cada um).

E como a cidade que abriga um dos maiores complexos arquitetônico-religiosos do país receberá filme sobre um médium espírita? Passados tantos anos, Marcelo acredita que receberá “com interesse, pois os munícipes convivem com sua devoção cristã, mas aceitam outras manifestações religiosas”.

“Houve, sim” – relembra ele – “rejeição a José Arigó, na época dele, muitos segmentos da sociedade, os católicos mais fervorosos, o rejeitaram”, mas, “hoje, a cidade abriga na casa amarela, onde ele atuou, o Museu Zé Arigó”. Os tempos são mais ecumênicos. E mais: “a Igreja Católica autorizou a gravação de cenas do filme próximo a seus monumentos sagrados”. Pablo Osório, também mediador do Museu de Congonhas, acredita que “o filme vai reativar o interesse dos brasileiros pela Cidade dos Profetas e por seu patrimônio artístico e histórico”.

O filme tem, além de Danton Mello como protagonista, outros grandes nomes da TV e teatro brasileiros em papéis importantes. Juliana Paes interpreta Arlete, a esposa do médium (ninguém espere, porém, vê-la tão linda quanto Bibi Perigosa, a personagem que interpretou na novela “A Força do Querer”, pois aparecerá como mulher humilde, com pesados óculos de grau). Marcos Caruso, Alexandre Borges, Marco Ricca e Carlos Meceni também atuam no filme, cujo roteiro foi escrito por Jacqueline Vargas.

Quem vê João de Deus festejado por gente de todo o mundo (incluindo a artista Marina Abramovic) será obrigado a constatar que os tempos mudaram e a tolerância ampliou-se de forma significativa. No filme de Candé Salles, até o médico dos presidentes, Roberto Kalil Filho, elogia o médium, que buscou o Hospital Sírio-Libanês para curar-se de um câncer. Mas, seis décadas atrás, com Zé Arigó, a situação mostrou-se bem diferente. Ele foi condenado à prisão, em 1956, pois a Associação Médica de Minas Gerais o processou por curandeirismo. Acabou indultado pelo presidente JK. Em 1964, nova condenação. Ficou preso por sete meses. Quando deixou o cárcere e retornou a Congonhas, seu prestígio tornou-se ainda maior.

Até cientistas norte-americanos vierem estudar o fenômeno e assistiram a cirurgias que Arigó realizou com canivete, sem nenhuma assepsia. Concluíram estar diante de “fenômeno de paranormalidade”.

Zé Arigó, que morreu num acidente de carro, em janeiro de 1971, com apenas 49 anos, dizia “incorporar”, ao longo de seus 20 anos de atividade, “um médico alemão, de nome Dr Fritz, falecido durante a Primeira Guerra Mundial”.

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