Olhar de Cinema destaca o cinema black e o fortalecimento da produção feminina

O Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba chega à sua sétima edição, nesta quarta-feira, prometendo maratona de filmes em que a produção feminina e black ganham significativo relevo.

Nove mostras, compostas com 156 filmes oriundos de 46 países, compõem o festival, que prossegue até 14 de junho. Na maioria delas, personagens, cultura e territórios negros estão no foco de seus realizadores. Já na noite inaugural, o Olhar de Cinema conduzirá, simbolicamente, seu público a Cabo Verde, terra ensolarada e melancólica que Cesária Évora cantou em muitas de suas mornas. O filme convidado é o lusitano “Djon África”, de João Miller Guerra e Filipa Reis, que acompanha um homem em seu regresso às ilhas caboverdianas.

O Olhar de Cinema soma, desde sua criação, filmes contemporâneos, que pesquisam novas linguagens e temas significativos, a grandes momentos da história do cinema. Estes ano, o festival vai mostrar a obra do senegalês Djibril Diop Mambéty (1945-1998) e de Jean Rouch (1917- 2004), francês que fez da África seu principal espaço de ação cinematográfica.

O cineasta, ator, poeta, declamador e compositor Mambéty realizou obra curta, mas instigante, que será apresentada na íntegra, no Olhar de Cinema. Ele nasceu em Dakar, capital senegalesa, e dirigiu – até porque um câncer apressou sua partida, aos 53 anos – apenas sete filmes. Só dois de longa-metragem: “A Viagem da Hiena”, em 1973, e “Hienas”, em 92, este inspirado em “A Visita da Velha Senhora”, texto teatral do suíço Dürrenmatt. Os outros são médias-metragens: “Contras’ City”, 1969, “Badou Boy”, de 70, “Parlons Grand-Mére”, de 89, “Le Franc”, 95, e “A Pequena Vendedora de Sol”, de 99.

Embora não seja tão conhecido quanto Ousmane Sembène, autor do magistral “Garota Negra”/La Noir de…”, 1966, Mambéty vem sendo resgatado com grande entusiasmo. Foi tema de documentário sobre sua trajetória (“Mambéty For Ever”, de 2008) e recentemente, Martin Scorsese e a turma da Cinemateca de Bolonha restauraram – e exibiram no segmento Cannes Classics – seu longa “Hienas”.

Já a obra do prolífico Jean Rouch – calcula-se que ele tenha realizado mais de 120 filmes – será vista, no Olhar de Cinema, condensada em nove títulos essenciais, entre eles “Eu, um Negro”, “Os Mestres Loucos” e “Jaguar”. Quem assistir às duas mostras poderá ver em que os dois realizadores se aproximam e em que se afastam. Afinal, um (Mambéty) viu seu país de dentro, o outro (Rouch), de fora, já que vinha da França, ex-sede de império colonial que subjugou vários países africanos, entre eles o Senegal.

A principal das nove mostras do Festival Internacional de Curitiba – a Novos Olhares – reúne dez longas-metragens. Dois são brasileiros: “Fabiana”, de Brunna Laboissière, sobre caminhoneira trans que faz sua última viagem, antes da aposentadoria, e a ficção-científica distópica “Sol Alegria”, do paraibano Tavinho Teixeira, do transgressor “Batguano”. O próprio diretor, que é ator e performer, e Mariah Teixeira integram família que perambula por estradas de um país dominado por junta militar e pastores corruptos.

Os outros oito concorrentes chegam do Chile (a animação “A Casa do Lobo”, Cristóbal Leon e Joaquín Cociña, da equipe que ano passado apresentou “Rey”), da China (“A Feiticeira Viúva”, de Cai Chengjie), da Indonésia (“O Visto e o Não Visto”, de Kamila Andini), das Filipinas (“Ansiosa Tradução”, de Shireen Seno), Eslovênia (“Homens que Jogam”, de Matjaz Ivanisin), Portugal (“DRVO – A Árvore”, de André Gil Mata), Bélgica (“A Floricultura”, de Ruben Desière) e França-Alemanha (“Boa Sorte”, de Ben Russel).

Entre os curtas-metragens, um destaque feminino: “Maré”, de Amaranta César, professora da Universidade do Recôncavo da Bahia, coordenadora do CachoeiraDoc e estudiosa do cinema indígena e de matriz africana. Há que se lembrar que Amaranta é autora (junto com Ana Rosa Marques) de “Cordeiros” (2007), potente documentário sobre baianos pobres que carregam cordas para separar foliões ricos, com seus abadás, dos “pipocas” (os sem-abadá). Agora, em “Maré”, a professa e ensaísta mostra como diferentes gerações de mulheres negras processam suas relações com o tempo e o espaço. E seus desejos de mudanças (ou permanências).

Este ano, uma realizadora, a norte-americana Janie Geiser estará no centro da mostra Foco. Artista experimental, ela virá a Curitiba para apresentar seis programas com seus curtas-metragens (e também de realizadores com quem ela dialoga em seu processo criativo) e para uma conversa ilustrada com o público.

Sessões do núcleo histórico do Olhar de Cinema têm causado furor. Ano passado, uma retrospectiva com obras raríssimas de F.W. Murnau, mobilizou imensas plateias, que desfrutaram dos sintéticos e enriquecedores comentários, a cada nova sessão, de um dos curadores do festival, Aaron Cutler. Este ano, ele assina com Carla Italiano, as mostras Mambéty e Rouch.

Para dar espaço nobre ao olhar feminino no cinema, a “Olhar Clássicos” apresentará programa especial, com curtas da pioneira Alice Guy-Blanché. Esta realizadora, de origem francesa, é considerada a primeira mulher a dirigir e roteirizar filmes de ficção. Calcula-se que tenha realizado mais de mil filmes curtos, mesmo assim acabou apagada pela História. O Programa de Curtas inclui oito produções (entre elas, “O Cair das Folhas”, “A Fool and His Money” e “Mixed Pets”).

Em meio a filmes contemporâneos oriundos da Ásia, América Latina, África, EUA e Europa, os espectadores poderão desfrutar de plural mergulho em significativos momentos da história do cinema, escolhidos sem parti pris. Há filmes do festejado Jerry Lewis (“O Terror das Mulheres”) ao trash mexicano (“Santo Contra o Cérebro do Mal”, sobre o mascarado que encantava ingênuas crianças nos anos 1960), de Milos Forman (“O Baile dos Bombeiros”) a Rogério Sganzerla (“Bandido da Luz Vermelha”), de Howard Hawks (“Scarface – A Vergonha de uma Nação”) a Ozualdo Candeias (“A Opção ou As Rosas da Estrada), de George Romero (“A Noite dos Mortos-Vivos”) a Chantal Akerman (“Os Encontros de Anna”).

A mostra “Outros Olhares”, por sua vez, abarca filmes que se destacaram em festivais internacionais, alguns deles por enfrentarem questões urgentes do mundo contemporâneo. Entre os destaques, está “Para Além de Nós”, de Anna Marziano, que investiga a violência domésticas por meio da música, do cinema e da literatura. Já “Um Abraço na Sororidade”, de Irene Lusztig, estimula mulheres a reencenarem e responderem questões levantadas pelo movimento feminista dos anos 1970.

Kristina Konrad, diretora de “Algumas Perguntas”, coprodução Uruguai-Alemanha, se propõe a investigar (durante quase quatro horas) a ditadura militar no Uruguai, que durou 20 anos, mas o faz de olho no presente. Por meio de entrevistas de rua com pessoas de variados extratos, ela busca reações à lei da anistia e, também, as marcas deixadas pelo próprio regime ditatorial.

Outro destaque da mostra vem da Rússia: o diretor Rustam Khamdamov assina “O Saco sem Fundo”, inspirado no conto “Dentro de um Bosque”, de Ryunosuke Akutagawa, o mestre japonês que também serviu de inspiração ao clássico “Rashomon”, de Akira Kurosawa.

A mostra Novos Olhares, destinada a longas-metragens com maior radicalidade em suas propostas estéticas, selecionou “Expo Lío’92”, de Maria Cañas, no qual uma exposição serve de cenário para o estudo das modificações culturais ocasionadas pela globalização, e “A Película Infinita”, de Leandro Listorti, que tem como ponto de partida, filmes inacabados argentinos.

O Brasil marca presença, neste segmento, com “Smetak”, de Simone Dourado, Nicolas Hallet e Mateus Dantas, mergulho na obra do músico suíço radicado na Bahia Walter Smetak. A mostra, que é competitiva, completa-se com “Nossa Loucura”, de João Viana (Portugal-Moçambique), “Por Detrás da Cortina”, de Messaline Raverdy (Bélgica) e “Mãe Preta”, de Khalik Allah (EUA).

No segmento Mirada Paranaense, que apresenta ao público um panorama da produção local, há que se destacar o longa-metragem “Euller Miller Entre Dois Mundos”, de Fernando Severo. Autor de belos curtas como “O Mundo Perdido de Kózak” e “Visionários”, o cineasta, professor e montador Severo apresenta, agora, um filme que acompanha jovem indígena da etnia Kaiwá ao deixar sua aldeia, nos arredores de Dourados (MS), até chegar a uma universidade pública curitibana, onde fará curso de Odontologia.

Os outros filmes paranaenses são “[Des]prendidas”, de Ana Esperança e Fábio Allon (sobre discriminação racial), “Acima da Lei”, de Diego Florentino, registro de operação montada na cidade de Curitiba para receber o ex-presidente Lula, recentemente condenado à prisão, “Lui”, de Denise Kelm, e “Primavera de Fernanda”, de Débora Zanatta e Estevan de la Fuente, que abordam questões de gênero.

A mostra Pequenos Olhares é destinada a crianças e adolescentes, mas muitos marmanjos devem aparecer para disputar ingressos e assistir a um filme de animação da poderosa escola japonesa: “O Túmulo dos Vagalumes”, de Isao Takahata (1988), produção do Estúdio Ghibi, que o Ocidente conhece pelo magistral trabalho de Hayao Miyazaki (“A Viagem de Chihiro”, “O Castelo Animado” e “Vidas ao Vento”).

A programação inclui ainda, para a garotada, programas de curtas-metragens com temas infanto-juvenis unindo o imaginário ao social.

O Olhar de Cinema mostrará, em sua noite de encerramento, “Meu Nome é Daniel”, de Daniel de Castro Gonçalves, realizador carioca que faz sua estreia no longa-metragem. Ele nasceu com deficiência que nenhum médico foi capaz de identificar. De forma bastante pessoal, ele traça o caminho de sua vida e busca compreender sua condição. O faz com ajuda da família e de imagens de arquivo doméstico.

A programação completa do festival está disponível em http://olhardecinema.com.br.

 

7º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba
Data: 6 a 14 de junho
Locais: Shopping Nova Batel (Cineplex Batel), Shopping Crystal (Espaço Itaú de Cinema), SESC Paço da Liberdade, Centro Cultural SESI Heitor Stockler de França
Ingressos para os filmes: R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia). Os ingressos já podem ser adquiridos nas bilheterias dos cinemas.
As demais atividades são gratuitas e sujeitas à lotação da sala ou inscrição prévia.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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