“Anjos de Ipanema”, de Conceição Senna, entra na disputa dos troféus Mucuripe

Por Maria do Rosário Caetano, de Fortaleza

A sexta noite da mostra competitiva do XXVIII Cine Ceará exibiu dois novos documentários. Primeiro, o brasileiro “Anjos de Ipanema”, da baiano-carioca Conceição Senna, sobre os jovens que frequentaram, ao longo de dois intensos verões, as Dunas do Barato (ou Dunas da Gal), em torno de pier construído para levar esgotos ao alto mar. O segundo, o colombiano “Senhorita Maria, a Saia da Montanha”, de Rubén Mendoza, sobre a trajetória de uma transexual, Maria Luisa Fuentes, residente na zona rural de uma pequena cidade, Boavita, nos Andes colombianos.

Conceição Senna, atriz de “Caveira my Friend”, “Iracema, uma Transa Amazönica” e “Gitirana”, contou, no debate do filme, que dedicara seus dois primeiros documentários à Bahia, seu Estado natal. O primeiro, “Memórias do Sangue”, evocou Canudos, território em que militares destruíram arraial erguido por Antônio Conselheiro e seus seguidores. O segundo — “Brilhante”— revisitou a cidade de Lençóis, na Chapada Diamantina, para construir ‘making off póstumo’ das filmagens de “Diamante Bruto”, longa de Orlando Senna (marido da cineasta), recriação do romance “Bugrinha”, protagonizada por Gilda e José Wilker.

“Eu tinha uma dívida com o Rio de Janeiro”— confessou a documentarista. “Afinal, sou uma baiana radicada em Ipanema há muitas décadas”. Baseada em suas vivências, amizades e afetos, Conceição colheu, ao longo dos últimos anos, depoimentos de seus amigos mais próximos, unidos por razão “espacial e afetiva”. Ou seja, aqueles que frequentaram o Pier de Ipanema, durante dois verões, nos anos iniciais da década de 1970, para conversar, elaborar projetos artísticos, fumar um baseado, saudar o sol, abraçar, beijar, dançar, divertir-se, enfim. E, se fosse o caso, fazer sexo livre e casual nas noites subsequentes. No filme, a diretora observa que os frequentadores daquele trecho da praia mitificada pela Bossa Nova usava a proteção do pier para passar horas, geralmente em pé, conversando e exercitando novas formas de viver e amar, sob influência do movimento hippie e das ideias da Contra-Cultura.

“Um de meus gurus era Luiz Carlos Maciel”, lembrou Conceição, que passou um dia inteiro com ele, conservando sem impor temas, nem sofrer restrições de horários. O filósofo, dramaturgo e cineasta (“Sociedade em Baby-Doll”) partiu (em dezembro de 2017) sem ver a edição final do filme. Como ele, outros partiram. A cineasta lembrou o caso de seu mestre de
I Ching, Oscar Marón, que morreu dois dias depois de conversar com ela. Ele viajara para a Índia e lá morrera, em frente a um aparelho de TV. “Não enumerei a lista de perdas nos créditos finais, para não dividir minha tristeza com o público”.

Ao longo dos últimos anos, Conceição gravou conversas livres com a turma do Pier de Ipanema. Na edição final, as mulheres são presença majoritária. As atrizes Vera Barreto Leite (hoje no Teatro Oficina), Sônia Dias (de “Tenda dos Milagres”) e Malu Rocha somam-se a mulheres que se dedicaram, ao longo da vida, às mais diversas funções. Entre elas, Mirna Girsh, que tornou-se seguidora de Rajneesh, o Osho, por sua defesa da liberdade sexual, a astróloga Graça Medeiros, as jornalistas Ana Helena Gomes e Lícia Nara, e a filha da atriz Isolda Cresta (1929-2009), Ana Andrade. Sobre Isolda, Conceição registra: “foi a mais combativa de nossa turma, a casa dela era um verdadeiro aparelho (de grupos de oposição à ditadura)”. Mas o time masculino também marca presença significativa em “Anjos de Ipanema”. Além de Maciel, há depoimentos do ator Evandro Mesquita (Banda Blitz), do poeta Chacal, do dzi-croquette Bayard Toneli, do psicanalista Paulo Próspero, de Fototi, Ivan Leão e Orcades.

A produtora do filme, Aída Marques, lembrou que “Conceição construiu o filme com vivências e afetos, sem um roteiro prévio. Ela ia se contaminando pelas lembranças dos amigos e fertilizando o roteiro”. Por isto, “o documentário se construiu na montagem das 40 horas de material filmado”, resultando em narrativa de 90 minutos.

A crítica francesa Sylvie Pierre, que viveu no Brasil no exato momento em que o Pier era o ponto de encontro dos jovens da classe média carioca — e que aparece em foto solar, de biquíni e com amigos brasileiros — quis saber em que momento Conceição sentiu necessidade de entrevistar também os filhos dos frequentadores das Dunas do Barato.

A cineasta explicou: “fui professora na Escola Internacional de Cinema de San Antonio de los Baños, em Cuba, e pelo menos quatro dos filhos de meus entrevistados passaram por lá. Os vi crescer, já que cultivei, a vida toda, a amizade de seus pais. Então, quis ouvir Manuela Dias, a talentosa roteirista e autora de séries de TV (a mais famosa, “Justiça”, da Rede Globo), filha de minha amiga Sônia Dias, Mariana de Moraes, atriz e cantora, filha de Vera Barreto Leite e Pedro de Morais, Thainá Menezes, filha de Lícia Nara e Cristiano Menezes, e Pedro Freyre, filho de Malu Rocha, atriz de teatro e companheira de Herson Capri”. O triste — lembrou a cineasta — “foi receber um telefonema de Pedro, o filho Malu, tão importante no filme, contando que ela partira”.

Conceição define seu documentário, coproduzido pelo canal por assinatura CineBrasilTV (comandado por Tereza Trautman), como “fruto de muitas doações”. Entre os “doadores” — pessoas generosas que ajudaram o filme desde a etapa em que “fora iniciado, na cara e na coragem” — ela destaca o músico DJ Dolores, autor da trilha sonora, e a produtora Aída Marques. Cita também o montador Luiz Guimarães de Castro, o Mineiro, e todos os entrevistados, que abriram seus arquivos pessoais com imensa generosidade”.

Além das imagens colhidas pelo fotógrafo Luiz G. Guerreiro, que assina também o som direto, “Anjos de Ipanema” trabalhou com trechos de filmes de Antônio Carlos da Fontoura (Gal, na época do show “Fatal”), Luiz Carlos Lacerda (o surfista Petit passeando seu corpo dourado e cabelos louríssimos pelas águas do Pier) e, em especial, pequenos registros da moçada do Pier, que a atriz Sônia Dias registrou em Super-8. Para pontuar o fato de que , naquele momento, o Brasil vivia sob ditadura militar, justo os duros Anos Médici, foram usadas imagens de “Manhã Cinzenta”, do baiano Olney São Paulo.

“Anjos de Ipanema” (o nome brotou de falas de alguns personagens, que relembraram a pureza etérea dos personagens daqueles dois verões, será lançado no circuito comercial, em 2019, acompanhado de um livro com a íntegra das longas conversas que Conceição registrou com os frequentadores das Dunas do Barato. Orlando Senna, que conhece a íntegra das entrevistas, garante que há declarações ousadas e muito corajosas. Para a pequena equipe de Conceição, gente solar e generosa como a mostrada pelo filme, serve de parâmetro para o Brasil de hoje, “tomado pelo ódio, pelo individualismo e pela total falta de generosidade”.

O longa colombiano “Senhorita María, a Saia da Montanha” chegou ao Cine Ceará depois de passar por festivais internacionais (Locarno) e conquistar vários prêmios no Festival de Cartagena de Índias, na Colômbia. Seu realizador, o jovem Rubén Mendoza, tem nos diretores Luis Ospina e Victor Gavíria, seus companheiros de inquietação e estrada cinematográfica.

A personagem central de seu filme — a transexual María Luísa Fuentes, de 45 anos — vive como trabalhadora braçal nos arredores de uma pequena e ultra-religiosa cidade dos Andes colombianos. María, também ultra-religiosa, escolheu seu nome em louvor à Virgem Maria, a mãe de Deus. Embora tenha nascido no corpo de um homem, ela odeia calças e ama saias e vestidos. É com coloridas saias e blusas que ela realiza trabalhos pesados: ordenhar vacas, carpir a terra e semear. Não tem familiares, nem amigos. Uma senhora idosa desempenha o papel de amiga, “por caridade”. Afinal, se justifica, “María tem um gênio muito difícil”.

Com calma e densa poesia, fruto de seis anos de convivência cinematográfica com a personagem, Rubén constrói retrato complexo e multifacetado de María. Ela seria fruto de estupro de sua mãe pelo irmão (um incesto, portanto). Fôra criada pela avó, que a vestia como uma menininha, para reafirmar que não era “um bebê nascido com chifre e rabo” (por ser filha de irmãos). Com a perda da avó, María ficou sem nenhum parente. Epilética, foi retirada da escola muito cedo, mal sabendo escrever.

Tantas desventuras poderiam ter gerado um filme apelativo e sensacionalista. Mas não é isto o que se vê. María é, ao longo dos 90 minutos de sua narrativa, uma mulher que sobreviveu em condições totalmente adversas. Que busca na religião (o filme registra com poderosas imagens as missas e procissões da pequena Boavita), no trabalho braçal e na natureza que a cerca (verdejantes montanhas) algum tipo de conforto espiritual, material e afetivo. Mantém carinhosa relação com os animais (em especial com vacas, seja na hora da ordenha, seja no momento em que uma delas vai parir). São de María os registros fílmicos de uma vaca que pare um saudável bezerrinho. Caberá a ela, a incansável María, colocar o recém-nascido em seu primeiro processo de amamentação.

No debate, houve restrições ao filme. Rubén Mendoza teria optado por “um personagem exótico” e o documentário acabaria por reforçar a ideia de que transexuais são fruto de distúrbios psicológicos e, no caso de María, de incesto.

O diretor lembrou que não realizou um filme com “uma representante da comunidade LGBT”, mas sim “com uma pessoa singular, excepcional”. Que acompanhara María por seis anos, contara com sua amizade e só descobrira aspectos de sua vida (o fato de ser filha de relação incestuosa entre irmãos) ao longo do processo de filmagem. Que, por questões éticas, não lançaria o filme se este não fosse o desejo de María. Ela assistiu ao documentário (“o primeiro de sua vida, e justo sobre ela”), gostou e participou do Festival de Cartagena, realizando assim sua primeira viagem de avião.

O longa-metragem, que foi exibido no MoMA, em Nova York, trouxe modificações positivas para a dura vida de María Luísa Fuentes. Ela recebeu cachê pelo período de filmagens, ganhou uma casa para morar, teve seus documentos renovados (com o nome social, que ela já carregava), passou a receber tratamento regular para seus acessos epiléticos e recebeu pedaço de terra legalizado em seu nome.

Em defesa do filme, para demonstrar que ele não contribui com a estigmatização das transexuais, Rubén Mendoza lembrou que, desde que conhecera María e propusera realizar um filme com ela, “a tratei como uma mulher, pois assim era e é seu desejo. Nunca perguntei qual é sua condição sexual, se tem ou não um pênis entre as pernas”.

O cineasta revelou que, sobre María Luisa Fuentes, correm boatos de que teria nascido hermafrodita (por ser geneticamente descendente de irmãos). Que tal condição alimentara, na ultra-religiosa cidadezinha andina, a ideia de que, por ser “fruto do pecado”, teria nascido como “um bebê com chifre e rabo”.

“Para mim, desde o primeiro momento”— reafirmou — “María era (é) o que ela sente ser: uma mulher. Assim a tratei do início até o último momento do filme”. Para arrematar, o diretor de três longas documentais e quatro ficcionais citou, como uma de suas fontes de fertilizadoras, um dos maiores documentários ibero-americanos — “El Sol del Membrillho” (Victor Erice, 1992) e destacou duas de suas divisas como diretor: “realizar filmes incômodos” e “jamais ser turista de um tema”.

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