Documentário sobre o ‘vagamundo’ Eduardo Galeano e comédia colombiana têm boa recepção no Cine Ceará
“Eduardo Galeano Vagamundo”, de Felipe Nepomuceno

Por Maria do Rosário Caetano, de Fortaleza

O Cine Ceará (XXVIII Festival do Cinema Ibero-Americano de Fortaleza) exibiu, na noite de terça-feira, 7 de agosto, mais dois concorrentes aos troféus Mucuripe: o documentário brasileiro “Eduardo Galeano Vagamundo”, de Felipe Nepomuceno, e “Amália, a Secretária”, comédia agridoce do colombiano Andrés Burgos.

“Vagamundo” nasceu de entrevista que Felipe e seu pai, Eric Nepomuceno, fizeram, em 2010, com o escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), autor de clássicos da literatura de expressão espanhola como “Veias Abertas da América Latina”, “Espelhos – Uma Quase História Universal”, “O Livro dos Abraços” e “Futebol ao Sol e à Sombra”. Parte do material filmado foi ao ar no programa “Sangue Latino”, já em nona temporada, no Canal Brasil. Com a morte do escritor, três anos atrás, Felipe revisitou o material e construiu filme de 72 minutos, com trechos inéditos, aos quais adicionou emocionadas leituras de textos de Galeano, feitas por escritores, amigos e três atores (o argentino Ricardo Darín, que lê “Cerimônia”, do livro “Bocas do Tempo”, e os brasileiros Paulo José e João Miguel). Cabe ao ator baiano protagonizar um dos momentos mais emocionantes do filme: a leitura de perfil, desenhado em palavras “galeanas”, de Artur Bispo do Rosário, o esquizofrênico que, em seu diálogo com Deus, transformou o lixo (“a basura”) em objetos artísticos de rara beleza. Outro belo momento fica a cargo do poeta carioca Armando Freitas Filho, que evoca texto de Galeano sobre a poeta norte-americana Emily Dickinson. O brasileiro é filmado de costas para a câmara, potencializando-se, assim, a força das palavras que narram a atormentada vida da escritora (ela só publicou oito poemas em vida, deixando, ao morrer, farta, inédita e arrebatadora produção literária).

No debate do filme, que reuniu Felipe Nepomuceno, sua produtora Tereza Alvarez e Florencia Hughes, filha de Galeano, o cineasta contou que João Miguel — protagonista de denso espetáculo teatral sobre Artur Bispo do Rosário — entregou-se de tal forma à sua missão no documentário, que findo o texto, improvisou emocionante diálogo (imaginário) entre Bispo e Galeano. O material, porém, não entrou na montagem final de “Vagamundo” (está reservado para os extras do DVD). Não entraram, também, leituras feitas por Chico Buarque, Milton Hatoum e pelo xilogravador J. Borges, parceiro de Galeano no livro “As Palavras Andantes”, entre muitos outros grandes nomes das letras latino-americanos. “Como montador”— disse o cineasta — “tive que cortar momentos maravilhosos, que eram muitos e emocionantes”.

Felipe Nepomuceno construiu um filme em preto-e-branco, com imagens de grande beleza plástica, captadas por nove fotógrafos (entre eles Walter e Lula Carvalho), mas com perfeita unidade narrativa. Galeano era um grande contador de histórias (seu último livro, publicado postumamente, intitula-se “O Caçador de Histórias”). Ele contou algumas delas a Eric Nepomuceno. Uma relembra o futebol, paixão assumida do escritor. O uruguaio relembra a precoce aposentadoria de um grande jogador, seu conterrâneo, de nome Poyet. Como ele continuava jogando bem e no vigor de sua força física, ninguém entendia sua retirada dos gramados. Ao que ele explicou: “já não sinto mais prazer nas práticas (os treinos)”. Mas não há no filme nenhum trecho de “Veias Abertas da América Latina”, uma das bíblias da esquerda latino-americana.

Felipe explicou por que: “a política atraiu muitos amigos para Galeano, mas afastou muitos outros dele”. Em “Vagamundo”, o cineasta quis priorizar a obra do amigo de sua família (“o conheci quando ainda estava na barriga de minha mãe”), aquele autor que dizia que “escrever é uma festa”. Quis mostrar que “ler também é uma festa” e fugir da narrativa biográfica, investindo num cotidiano poético, recheado de lembranças. Chamam atenção imagens de ruas e vidraças banhadas pela chuva e de árvore frondosa, na qual veremos atada uma pequena fita vermelha, única cor visível além das nuances do preto, branco e cinza. Esta imagem rubra não deixa de citar “Veias Abertas da América Latina”, mesmo que de forma indireta.

“Sou grande admirador”— confessou Felipe — “da escultura que Oscar Niemeyer criou para o Memorial da América Latina, em São Paulo, na qual vemos uma mão de cujas veias jorra sangue. No nosso ‘Eduardo Galeano Vagamundo’, usamos esta metáfora, representada pela introdução do vermelho, agregada ao programa ‘Sangue Latino’, por sugestão do fotógrafo Walter Carvalho, quando ele colaborou conosco”.

O primeiro longa-metragem de Felipe Nepomuceno (antes, ele realizou diversos curtas, dirigiu oito temporadas de “Sangue Latino” e está concluindo a segunda temporada, em parceria com o argentino Pablo “Las Acácias” Giorgelli, de “Janelas Abertas”) será lançado primeiro nos cinemas, depois na TV. A produtora Tereza Alvarez avisa que, após o circuito de festivais brasileiros e latino-americanos, espera ver o filme na tela grande. Assim, postula, “ele ganhará projeção tão qualificada quanto a vista na imensa tela do Cineteatro São Luís, em Fortaleza”.

A comédia colombiana “Amália, a Secretária” foi representada no Cine Ceará por sua protagonista, a atriz Marcela Benjumea. Articulada e muito simpática, a intérprete da burocrática e ultra-disciplinada Amália, contou que atua na TV, no teatro (fez recentemente “Lady MacBeth”) e no cinema. Mas que atuou em bem menos filmes do que gostaria, “só cinco”, sendo esta comédia uma de suas preferidas, pois nela pôde desenvolver personagem complexa e instigante. Além de onipresente. Amália está em praticamente todas as sequências do filme, o segundo longa-metragem de André Burgos, também autor do roteiro.

O filme começa com a chegada de Amália à empresa para mais uma dia de trabalho monótono e cansativo. Ao arrumar a mesa do chefe, ela encontra um revólver sob os papéis. Temerosa de que ele esteja deprimido e pensando em suicidar-se, ela tudo fará (até tirar as balas da tambor carregado) para que a suposta tragédia não aconteça. Uma tomada avariada no sistema elétrico introduzirá Lázaro (Enrique Cariazzo), um eletricista na linha “faz-tudo”, em sua vida. Gordo, desajeitado e lento em seu trabalho, ele parece, de início, irritá-la. Mas, aos poucos, ela o verá como força que chega para alterar seu monótono cotidiano. Lázaro já morou nos EUA, gosta de sushi, fala inglês utilitário, adora dançar salsas e merengues no cabaré Bohemia e tem um grande coração. Este par de desajeitados viverá curiosas situações, nesta comédia agridoce, que não arranca riso solto, mas acaba por envolver o público. E nunca se entrega a apelações grosseiras. Muito pelo contrário. Merece ser lançada no Brasil e, sem dúvida, é forte candidata a ganhar remake comandado pelas produtoras Vilma e Walkíria Barbosa (de “Sexo com Amor” e “Não se Aceitam Devoluções”). A Colômbia, até uma década atrás, cenário de modesta cinematografia, vem impondo-se em festivais (vide o sucesso de “O Abraço da Serpente”, que chegou a finalista ao Oscar) e já produz, anualmente, 45 longas-metragens.

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(1) Reader Comment

  1. Excitado por saber desse filme do filho de Eric Nepomuceno. Parabéns, Rosário, pela cobertura do Cine Ceará!

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