Encontro de Cinema Negro mostra “Bando”, primeiro longa de Lázaro Ramos

O ator e escritor Lázaro Ramos apresentará sua estreia na direção de um longa-metragem, no Encontro do Cinema Negro – Brasil, África e Caribe, festival criado pelo ator Zózimo Bulbul, que chega à sua décima-primeira edição.

Destinado a ser vitrine privilegiada da produção black, o evento exibirá 92 filmes (selecionados entre 180 inscritos, um recorde histórico) e acontecerá no Rio de Janeiro e em Niterói, de 29 deste mês de agosto, até 9 de setembro.

O primeiro longa de Lázaro Ramos, codirigido por seu conterrâneo, o baiano Thiago Gomes, é um documentário e, de forma concisa, intitula-se “Bando”. O filme será exibido em sessão nobre, na presença do ator-cineasta, do codiretor Thiago Gomes e de representantes dos “bandoleiros”. Ou seja, do Bando de Teatro Olodum, festejado celeiro de atores da cidade de São Salvador, que revelou o próprio Lázaro. E que está na origem do filme “Opaió”, de Monique Gardenberg, cuja sequência encontra-se em fase de produção.

“Bando” — diz o Mister Braun, que já encarnou Madame Satã e Roque, o protagonista de “Opaió” — é “um projeto que financiei e codirigi e que, em sua fase final, contou com o apoio decisivo do Canal Brasil”. Lázaro, nunca é demais lembrar, apresenta há mais de um década “Espelho”, um dos programas mais duradouros do canal por assinatura, que está comemorando 20 anos.

O ator, e agora diretor de cinema, define “Bando” como “um retrato afetuoso do grupo teatral que me deu régua e compasso”. É, também, “uma mostra das dores e delícias para se manter um grupo como o Bando, por tanto tempo”. São 28 anos de histórias cênicas e musicais, “muita luta, muitas histórias de vida”, mas acima de tudo “muito amor à arte independente, à luta que travamos para sermos escutados”.

O filme, que fará sua avant-première no “festival do Zózimo” (é assim que Lázaro chama carinhosamente o Encontro do Cinema Negro Zózimo Bulbul), dura 105 minutos.

A maior parte dos 92 filmes selecionados para o Encontro de número 11 é composta por produções brasileiras (74 curtas, médias e longas-metragens), vindas de todas as regiões do país, para somar-se a 18 filmes convidados e oriundos da África e do Caribe. Os convidados internacionais, de longas e curtas-metragens, se propõem a constituir-se (e celebrar), segunda a curadoria, “a maior janela de exibição afrodiaspórica de cinema negro disponível no país”. O tema da edição deste ano é “o encontro de gerações e ancestralidade”.

Dois convidados internacionais, os africanos Haile Gerima e o Manthia Diawara, estudiosos em Cinema Negro, considerados faróis visionários, engrandecerão o “festival do Zózimo”. Outro nome importante, o de Laza, curador do Festival de Cinema de Animação da Madasgacar, a grande ilha africana, também marcará presença no Brasil para participar dos debates.

O longa “Child of Resistence”, de Haile Gerima, é o programa da noite inaugural. Ao longo de duas semanas, quatro espaços (o Cine Odeon, o Centro Cultural da Justiça Federal, o Museu de Arte do Rio – MAR e Cine Arte UFF, promoverão dezenas de sessões e debates dos filmes selecionados.

Os curadores do “festival do Zózimo”, Joel Zito Araújo, diretor de “A Negação do Brasil”, e a pesquisadora Janaína Oliveira, preferem chamar o festival dedicado ao cinema black de “Encontro”. “Era assim” – pondera Joel Zito – “que Zózimo gostava de chamar esta mostra de filmes”.

O cineasta lembra que o objetivo de Zózimo (com sua morte prematura, ele passou a dar nome ao evento) sempre “foi estimular, de forma não competitiva, o estreitamento de relações e cooperação entre os realizadores”.

O propósito maior do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul – Brasil, África e Caribe, é, pois, “fortalecer a trajetória de novos cineastas, promover a reunião de gerações e a valorização da ancestralidade”. Este ano, o evento, coordenado pela diretora de arte e cenógrafa Biza Vianna, viúva do protagonista de “Compasso de Espera” e ator de “Terra em Transe”, contará com uma rodada de negócios. Ou seja, fomentará mecanismos de produção de novos filmes de realizadores negros. E a escritora Ana Maria Gonçalves, do seminal livro “Um Defeito de Cor”, promoverá oficina de imersão e elaboração de roteiros.

O Encontro de Cinema Negro é promovido pelo Centro Afrocarioca de Cinema, que administra e preserva o legado de seu fundador, o ator e cineasta Zózimo Bulbul. O diretor de “Alma no Olho” e “Abolição” lutou, ao longo de sua vida, pelo fortalecimento da identidade negra e para incentivar o intercâmbio cultural Brasil-África, através de exibições, debates e de processo formativo, com palestras e seminários, promovendo relações entre realizadores negros brasileiros, africanos e da diáspora”.

Joel Zito Araújo faz questão de destacar a biografia de dois dos principais convidados da edição deste ano: “o  etíope Haile Gerima é professor e cineasta. Nos anos 1990, ele conquistou inúmeros prêmios com o seu filme “Sankofa” (1993). Seu último longa ficcional, “Teza” (2008) ganhou o o Etalón de Ouro, prêmio máximo do Fespaco (Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou, em Burkina Faso). Já o malinês Manthia Diawara “é, além de cineasta, o maior crítico de cinema africano da atualidade”. Ele dirigiu oito documentários, é escritor e professor da New York Universty, nos EUA, e da Sorbonne, na França. Tem seis livros publicados em várias línguas.

 

Por Maria do Rosário Caetano

 

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