Longa documental “O Caso do Homem Errado” discute execução de operário negro

“O Caso do Homem Errado”, documentário de Camila de Moraes, segunda diretora negra a realizar, sozinha, um longa-metragem e colocá-lo no mercado (a primeira foi Adélia Sampaio, com “Amor Maldito”), constitui programa obrigatório. Depois de estrear em Porto Alegre (a realizadora, de 30 anos, é gaúcha), este longa-metragem, que revive trágico momento da crônica policial portalegrense, chega às telas do CineSesc, em São Paulo, em dobradinha com “O Desmonte do Monte”, de Sinai Sganzerla.

O primeiro longa de Camila de Moraes rememora a execução de Júlio César de Melo Pinto, um jovem operário negro, dentro de uma viatura da Brigada Militar gaúcha (na verdade, um fusca). O crime, ocorrido há 30 anos, seria mais uma estatística se um fotógrafo (Ronaldo Bernardi) e um repórter (João Carlos Rodrigues) não tivessem mergulhado com força total na denúncia (e investigação) de tal atrocidade.

Em 14 de maio de 1987, houve um assalto em um supermercado num bairro da Zona Leste de Porto Alegre. Júlio passava pelo local e, no meio da confusão, foi apontado como um dos assaltantes. Alguns PMs o algemaram e o jogaram dentro da viatura. Bernardi fotografou todo o processo. Chegou a subir no capô do fusca para registrar a imagem do operário negro, subjugado, e com um corte no rosto. Depois, o fotografou morto, no IML. No caminho, os PMs o mataram com um tiro.

Para produzir a série de reportagens, ilustradas com as fotos de Ronaldo Bernardi, João Carlos Rodrigues, da Zero Hora gaúcha, contou com a colaboração do Movimento Negro Unificado do Rio Grande do Sul, com advogados, um juiz, um promotor e militantes dos Direitos Humanos. Com sua apuração, o repórter ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo.

O filme começa com a diretora carregando um cartaz com a foto de Júlio e uma frase que clama por justiça. Ela pergunta a moradores da capital gaúcha se eles conhecem a história daquele jovem negro. Alguns se lembram do que acontecera 30 anos atrás, outros não. A partir dali, Camila de Moraes somará depoimentos dos dois jornalistas, de militantes dos Direitos Humanos, de sociólogo e de Jussara, viúva de Júlio, que morava com ele em casa modesta, sem telefone e outros confortos.

Ao sustentar-se na memória oral dos que dão depoimentos ao filme, Camila nos informa sobre o que aconteceu naquele dia (Jussara só conseguiu notícias da execução do marido três dias depois). Os depoimentos são fortes, articulados, questionadores. Algumas estatísticas nos deixam impressionados: os negros representam 16% da população gaúcha, mas, nas prisões do Estado, 33% têm a cor negra. Ou seja, mais que o dobro. Se Júlio fosse branco e de classe média alta, alguém teria apontado o dedo para ele, acusando-o de integrar o grupo de assaltantes do supermercado?

As poderosas imagens registradas pelo corajoso Ronaldo Bernardi estão no filme, mas não com a força que mereciam, já que Camila preferiu os depoimentos à potência visual. Mesmo assim, ela realizou um filme sintético (70 minutos) e obrigatório nestes tempos em que parte da população brasileira se deixa seduzir por discursos autoritários e racistas. Discursos que culpam os pobres e os negros pelos males do país. Tomara que a diretora e sua produtora, Mariana Ferreira, de 29 anos, consigam realizar novos e muitos filmes. E em curto espaço de tempo. Afinal, como pode um país – onde muitos acreditam em suposta “democracia racial” – registrar intervalo de 34 anos entre um longa-metragem comandado por mulher negra sozinha (e não em dupla)? Afinal, “Amor Maldito” foi feito em 1984.

E há que se registrar que só oito mulheres afro-brasileiras tiveram seus nomes nos créditos de direção de um longa-metragem. Cinco delas dividiram a direção com parceiro masculino. Uma, a atriz Luciana Bezerra, do grupo Nós do Morro, dirigiu, sozinha, um dos cinco episódios do longa “5 X Favela, Agora por Nós Mesmos” (2006). Já Manaíra Carneiro, no mesmo filme, dividiu com Wagner Morais outro episódio (“Fonte de Renda”). Lilian Santiago, em parceria com Daniel Solá Santiago, realizou o documentário “Família Alcântara” (2005). Depois, a atriz Sabrina Rosa escreveu e codirigiu, com Cavi Borges, “Um Brinde por Favor” (2011). Camila Pitanga foi parceira de Beto Brant no longa documental “Pitanga” (2016) e Glenda Nicácio realizou o ficcional “Café com Canela”, parceria com Ary Rosa. Esta mesma dupla mostrará, em setembro, no Festival de Brasília, novo longa, “Ilha”.

Em novembro (de 19 a 25), a APAN (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro) promoverá a III Mostra Brasileira do Audiovisual Negro. Realizadores afro-brasileiros de todas as regiões do país devem inscrever seus filmes até 9 de setembro. Os organizadores esperam reunir 50 curtas, médias e longas-metragens. Além da Mostra de Filmes, será realizado o III Seminário do Audiovisual Negro de São Paulo. Estão abertas, também, inscrições para o III Laboratório Negras Narrativas (até 9 de setembro).

Por Maria do Rosário Caetano

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