Festival do Rio recebe Olivier Assayas
"Vidas Duplas", de Olivier Assayas

O Festival do Rio, um dos maiores do país, inaugura sua edição de número vinte, neste feriado de primeiro de novembro, com exibição de “As Viúvas”, longa do diretor inglês Steve McQueen.

O comando do festival enfrentou grandes adversidades financeiras, mas, mesmo assim, tem trunfos a apresentar. Dois deles, em especial, merecem destaque: a presença do cineasta francês Olivier Assayas, autor do monumental “Carlos”, e a exibição (inédita no Brasil), de “El Pepe, uma Aventura Suprema”, de Emir Kusturica, sobre o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica.

Olivier Assayas, de 63 anos, realizador e pensador do cinema, além de ex-crítico da influente Cahiers du Cinéma, é um convidado que engrandece qualquer festival. E, vale destacar, não há hora mais oportuna para que ele visite o Brasil. Afinal, seu próximo longa-metragem, em fase de pré-produção, recria o livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, do paulista Fernando Morais, autor de “A Ilha”, “Olga” e “Corações Sujos”, entre outros.

O novo filme, cujo título internacional é “Wasp Network”, terá produção brasileira de Rodrigo Teixeira e sua RT Features e, em seu elenco estrelar, Wagner Moura. O grande ator brasileiro contracenará com Gael García Bernal, Penélope Cruz, Pedro Pascal (de “Narcos”, como Wagner Moura) e o venezuelano Edgar Ramirez, que Assayas revelou ao mundo no adrenalinado “Carlos”.

“Wasp Network”, como o nome indica, falará de rede que evoca brancos, anglo-saxões e protestantes (tradução para o português da sigla que define os norte-americanos não mestiços, ou seja, aqueles que não têm origem africana, asiática ou latino-americana). O livro de Fernando Morais mostra a ação de cinco espiões cubanos que se infiltraram, em solo estaduniense (na Flórida, em especial), para investigar grupos anti-castristas, que promoviam, nos anos 1990, atentados em pontos turísticos (incluindo hotéis), na ilha caribenha.

O filme “brasileiro-cubano” de Assayas, que o público da Mostra SP viu em substantivo depoimento ao longa-metragem “Procurando Ingmar Bergman”, de Margarethe Von Trotta, será o vigésimo longa de sua produtiva carreira (o vigésimo-segundo se contarmos os longas “Paris Je t’Aime”, de 1996, e “Chacun son Cinéma”, de 2007). Os principais filmes do Olivier Assayas, fora “Carlos”, nascido como microssérie para TV, são “Irma Vep”, estrelado por sua ex-mulher, a chinesa Maggie Cheung, o documentário “HHH, Retrato de Hou Hsiao Hsien” (o realizador francês foi um dos grandes difusores do cinema asiático contemporâneo, mundo a fora), “Destinos Sentimentais”, “Clean”, “Horas de Verão”, “Depois de Maio”, “Através das Nuvens” (Sils Maria), “Personal Shopper” e o novíssimo “ Vidas Duplas”, que ele vem apresentar (está prevista uma masterclass) ao público fluminense.

O Festival do Rio, que acontecia historicamente no início de setembro, foi adiado para este início de novembro (até dia onze). Por isto, sua mostra mais badalada, a Première Brasil, transformou-se, na prática, em Première Rio, já que vários dos 84 filmes brasileiros selecionados (60 longas e 20 curtas) já passaram por outros de nossos festivais. Mas há, pelo menos, dois filmes 100% inéditos em território brasileiro, na competição: o horror “Morto Não Fala”de Dennison Ramalho, e “Nóis por Nóis”de Aly Muritiba e Jandir Santin, sobre o movimento hip-hop em Curitiba.

A competição completa-se com ”Deslembro”, de Flávia Castro, “Domingo”, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, “Azougue Nazaré”, de Tiago Melo, “A Terra Negra dos Kawa”, de Sérgio Andrade, “Tinta Bruta”, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”, de João Salaviza e Renée Messora, e “A Sombra do Pai”de Gabriela Amaral Almeida.

Outros títulos inéditos do Festival do Rio (e espalhados por diversas mostras) são “Aconteceu na Quarta-Feira”, de Domingos Oliveira,Cine Holliudy 2 – A Chibata Sideral”, de Halder Gomes, “Zuza Homem de Jazz”, de Janaína Dalri, sobre o pesquisador e músico Zuza Homem de Mello, “A Turma do Pererê.Doc”, de Ricardo Favilla (sobre a obra do veterano Ziraldo), “Voando com os Pés no Chão”, de Cristina Leal (sobre Angel Vianna), “Senhor Astolfo Barroso Pinto”, de Pedro Gui (sobre “a travesti da família brasileira”, Rogéria), “Marcia Haydée», de Daniela Kallmann, “Paulo Casé”, de Paula Fiuza, “Rindo à Toa: Humor sem Limites”, de Cláudio Manoel, Álvaro Campos e Alê Braga, e “Amazônia, o Despertar da Florestania”, de Christiane Torloni e Miguel Przewodowski.

No segmento “Clássicos e Cults”, o Festival do Rio quebrará tabu ao exibir “Rio 40 Graus” (e “Rio Zona Norte”), de Nélson Pereira dos Santos. Há que se lembrar que, em vida, o cineasta, que faleceu meses atrás, não permitia que seu primeiro longa, realizado em 1955, tivesse exibição pública. Não permitiu nem seu lançamento em DVD (pela Bretz). E por que? Por causa de litígio judicial mantido com a Cinemateca Brasileira que, depois de restaurar o filme, destruiu seus negativos (por considerar de alto risco conservá-los, devido ao estágio “precaríssimo”). O diretor paulistano-carioca não concordou com tal destruição e processou a Cinemateca Brasileira.

A festa carioca exibirá um total de 200 filmes brasileiros e internacionais (em anos passados, foram exibidos de 250 a 300 produções), em diversos cinemas da capital fluminense, com extensão no Circuito Reserva Cultural, em Niterói.

Por Maria do Rosário Caetano

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