Brasil enfrenta forte concorrência no Festival de Havana
“Domingo”, de Clara Linhart e Felippe Barbosa

O Brasil emplacou dois concorrentes, as ficções “Ferrugem”, de Aly Muritiba, e “Domingo”, de Clara Linhart e Felippe Barbosa, a disputa pelo Gran Coral Negro, o prêmio máximo do Festival do Novo Cinema Latino-Americano de Havana, que realiza sua 40ª edição de 6 a 16 de dezembro.

Em quatro décadas de história, o festival habanero viu o cinema brasileiro destacar-se, muitas e muitas vezes, principalmente em seus anos iniciais. “Coronel Delmiro Gouveia”, de Geraldo Sarno, venceu a primeira edição, em 1979. Cinco anos depois, em 1984, o prestígio do cinema brasileiro chegou a seu ponto máximo, com a conquista dos três principais prêmios Coral em disputa: melhor ficção para “Memórias do Cárcere”, de Nélson Pereira dos Santos, melhor documentário para “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho, e Prêmio Especial do Júri, para “Jango”, de Sílvio Tendler.

Neste ano de 2018, a ficção brasileira vai enfrentar concorrentes de grande peso. “Pássaros de Verão”, de Ciro Guerra e Cristina Gallego, chegará à disputa com passagem por Cannes (Quinzena dos Realizadores) e como grande vencedor dos Prêmios Fênix de melhor longa ibero-americano. Também com passagem (e Urso de Prata de melhor roteiro) por festival internacional (Berlim), o mexicano “Museu”, de Alonso Ruizpalácios, desponta entre os concorrentes mais fortes. Idem para o longuíssimo e muito ousado “Nuestro Tiempo”, de Carlos Reygadas, da seleção oficial de Cannes e Prêmio da Crítica na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

A delegação argentina, como nas duas últimas décadas, é a mais numerosa. Se o Brasil emplacou dois títulos, nosso vizinho emplacou cinco: “El Ángel”, de Luís Ortega, pré-indicado ao Oscar e finalista ao Fênix (ganhou melhor ator), o instigante “Vermelho Sol”, de Benjamin Naishat, “Joel”, de Carlos Sorín (vencedor do Festival de Havana no começo dos anos 1990, com “La Película del Rey”), “La Sangre Blanca”, de Bárbara Sarosola, e “Acusada”, de Gonzalo Tobal.

Completam a disputa na principal categoria do festival habanero (que totaliza vinte produções), os cubanos “Insumisas”, que Fernando Pérez, o maior cineasta vivo da Ilha, dirigiu em parceria com Laura Cazados, “Nido de Mantis”, de Arturo Soto, e “Inocéncia”, de Alejandro Gil, o chileno “Tarde para Morrer Jovem”, de Domingas Sotomayor, os mexicanos “Las Niñas Bien”, de Alejandra Márquez, e “Comprame un Revolver”, de Julio Hernandez Cordón,

Digno de registro: o pequenino Uruguai (de três milhões de habitantes) emplacou o mesmo número de filmes do Brasil (210 milhões): “Uma Noite de 12 Anos”, de Álvaro Brechner (recriação ficcional dos anos que o futuro presidente Pepe Mujica e colegas tupamaros passaram na prisão), e o venezuelano “Yo, Impossible”, de Patrícia Ortega.

Na categoria longa documental, o Brasil tem representação mais significativa, pelo menos numericamente. São cinco os concorrentes: “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, o instigante “América Armada”, de Pedro Asbeg e Alice Lanari, “Che, Memórias de um Ano Secreto”, sólido documentário de Margarita Hernández, “Lembro Mais dos Corvos”, de Gustavo Vinagre, e “Um Dia para Susana”, de Giovanna Giovaninini e Rodrigo Becker.

Argentina e Colômbia disputam com quatro longas documentais cada um. Os platinos são “El Canino de Santiago”, de Tristan Bauer, “Mujer Nómade”, de Marina Farina, “Secretos a Voces”, de Misael Bustos, e “Teatro de Guerra”, de Lola Arias. Os colombianos apresentarão “Ciro y Yo”, de Miguel Salazar, “El Testigo”, de Kate Horne, “Ruta 60”, de Wilson Arango, e “Amanecer”, de Carmen Torres.

O México concorre com três documentários: “Aurora”, de Laura García, “Los Durmientes”, de Alejandro Ramirez, e “Ayotzinapa, El Paso de la Tortuga”, de Enrique García.

Cuba, que tem longa tradição documental, disputa o Coral com dois candidatos: “Los Viejos Heraldos”, de Luis Alejandro Yero, e “Sérgio Corrieri, Mas Allá de Memórias…”, de Luísa Marisy, sobre o grande protagonista de “Memórias do Subdesenvolvimento”, o mais famoso dos filmes de Tomás Gutierrez Alea. A cineasta é filha de Corrieri (1938-2008), que, no auge da fama, subiu as montanhas da Ilha para fundar o Teatro do Escambray, e depois seguiu ativo na política cultural cubana e nos palcos, como diretor de dezenas de peças, e no elenco de novos filmes (mas nenhum tão bom quanto o de Alea).

Completa a lista de 25 concorrentes do segmento documental, o equatoriano “Soldadito”, de Jairo Cadena, o guatemalteco “La Asfixia”, de Ana Isabel Bustamante, o panamenho “Tierra Adentro”, o portorriquenho “Ser Grande”, de Karen Rossi, e o holandês (rodado na América latina) “Demasiado Hermoso”, de Maceo Frost.

O Brasil tem boa representação em mais duas categorias entre as quatro principais do gigantesco (mais de 400 filmes) festival habanero: “Ópera Prima” (filmes de diretores estreantes) e “Animação”.

Os “estreantes” brasileiros são “Deslembro”, de Flávia Castro, “Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos”, de João Salaviza e Renée Nader Messora, “Los Silêncios”, de Beatriz Seigner, e “Sócrates”, de Alex Moratto.

Flávia Castro já dirigiu um longa-metragem, o ótimo “Diário de uma Busca”, e Beatriz Seigner, realizou “Bollywood Dreams”. Mas, pelos critérios da curadoria do Festival de Havana, elas são estreantes na ficção.

Os quatro candidatos brasileiros têm, pelo menos, um concorrente fortíssimo pela frente: o paraguaio “As Herderas”, que disputou o Urso de Ouro em Berlim (ganhou Urso de Prata de melhor atriz, para Ana Brun) e já acumula 40 prêmios internacionais.

A Argentina é, novamente,  o país que mais emplacou filmes na categoria “Ópera Prima” (cinco). O Peru, com presença modesta na imensa vitrine habanera, conta com um estreante elogiado: “Retábulo”, de Álvaro Delgado Aparício. Para este segmento, foram selecionados 18 concorrentes.

Na área do “Cinema de Animação”, o Brasil tem um candidato fortíssimo: o curta-metragem pernambucano “Guaxuma”, de Nara Normande. Por onde passa, este mix de documentário e ficção, construído com várias técnicas animadas (em especial areia colorida) causa sensação.

Foram selecionados 21 filmes de curta, média e longa-metragem animados. Os outros dois brasileiros são “Tito e os Pássaros”, de Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto, e “O Evangelho Segundo Tauba e Primal”, de Márcia Deretti e Márcio Jr.

Mais uma vez, a Argentina nada de braçada na seleção: emplacou seis candidatos na categoria. Chile, México e Colômbia têm três concorrentes cada um. Cuba, dois (“Encuentro Muy Cercano”, de Pol Chaviano, e “Mamiya CR7”, de Danny de León e Eisman Sánchez). Uruguai, em parceria com o Brasil, fecha a lista com um concorrente, “Almofada de Penas”.

Para comemorar suas quarenta edições, o Festival de Havana convocou filmes especiais para sessões de gala: “Roma”, do mexicano Alfonso Cuarón, “Infiltrado na Klan”, de Spike Lee, “Yuli”, da espanhola Icíar Bollaín, “Um Assunto de Família”, do japonês Kore-Eda (vencedor de Cannes), “The Sisters Brothers”, filme norte-americano do francês Jacques Audiard, “La Dernière Folie de Claire Darling”, de Julie Bertucelli, e “Duplas Vidas”, de Olivier Assayas. Registre-se que este realizador e ex-crítico de cinema da Cahiers du Cinéma está vivendo entre Paris, Havana e os EUA. É que Assayas, diretor do adrenalinado “Carlos” (o Chacal), vai filmar, em Cuba e na Flórida, o thriller político “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”. O filme, cujo nome internacional é “Wasp Network”, é uma produção do brasileiro Rodrigo Teixeira e baseia-se em livro de Fernando Morais, o mesmo de “Chatô, o Rei do Brasil”, “Olga” e “Corações Sujos” (todos transformados em filmes). Desta vez, o foco de Morais (e de Assayas) recai sobre a Operação Vespa, que infiltrou 14 espiões cubanos (12 homens e duas mulheres) em organizações anti-castristas em Miami e outras cidades dos EUA. O grupo buscava informações que impedissem os chamados “gusanos” de promover atentados a bomba em hotéis da Ilha.

O Festival de Havana promoverá – além de mostras dedicadas ao cinema alemão e ao espanhol (destaque para “Camarón de la Isla: Flamenco y Revolución”, de Alexis Morante, e “Muitos Filhos, um Macaco e um Castelo”, de Gustavo Salmerón, vencedor do Platino e do Fênix) – sessões especiais de “Todos lo Saben”, o novo filme do iraniano Asghar Farhadi (com Penélope Cruz, Javier Bardem e Ricardo Darín), “Amor até as Cinzas”, de Jia Zhangke, “O Homem Fiel”, novo filme do ator Louis Garrel como diretor, “Dogman”, de Matteo Garone, “Bergman, un Año, una Vida”, de Jane Magnusson, “THF, Aeroporto Central”, documentário alemão do brasileiro Karin Aïnouz, e o longa que marca o retorno do cineasta Orlando Senna (codiretor de “Iracema, uma Transa Amazônica”) às telas, “Idade da Água”.

Abaixo, a participação brasileira em algumas das dezenas de mostras informativas do Festival do Novo Cinema Latino-Americano de Havana:

Las Colores de la Diversidad

. “Bixa Travesty”, de Cláudia Priscila e Kiko Goifman
. “Tinta Bruta”, de Reolon & Matzembacher
. “Afronte”, de Marcus Azevedo
. “La Flaca”, de Adriana Barbosa e Thiago Zanata (parceria com o México)

La Sala Llena (A Sala Cheia)

. “Albatroz”, de Daniel Augusto
. “O Olho e a Faca”, de Paulo Sacramento
. “Sequestro Relâmpago”, de Tata Amaral
. “Todas Canções de Amor”, de Joana Mariani

En Sociedad

. “Torre das Donzelas”, de Susana Lira
. “De Longe Ninguém Vê o Presidente”, de René Tardin
. “Operações de Garantia da Ordem”, de Júlia Murat

Cultura em foco

. “Erlon Chaves, o Maestro Veneno!”, de Alê Gamo
. “Torquato Neto – Todas as Horas do Fim”, de Eduardo Ades e Marcus Fernando
. “Inaudito”, de Gregório Gananian
. “Slam, a Voz do Levante”, de Tatiana Lohmann e Roberta Estrela D’Alva

Latino-Americanos em Perspectiva

. “Benzinho”, de Gustavo Pizzi

Cinemateca Latino-Americana

.”Humberto Mauro”, de André Di Mauro (inédito)
. “Pixote, a Lei do Mais Fraco”, de Hector Babenco (restaurado)

Vanguardia

. “Espera”, de Cao Guimarães
. “Kamiokande”, de Fernanda Vogas
. “Mehr Licht!”, de Mariana Kaufman
. “Garoto Transcodificado a Partir de Fosfeno”, de Rodrigo Fautsini

À Meia-Noite

. “Mormaço”, de Mariana Meliande
. “O Animal Cordial”, de Gabriela Amaral de Almeida
. “Morto Não Fala”, de Dennis Ramalho

Apresentações Especiais

. “Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues

Em Família

. “Construindo Pontes”, de Helô Passos

Pueblos e Culturas Originários

. “Ex-Pajé”, de Luiz Bolognesi

Memória

. “Soldados do Araguaia”, de Beli´sario Franca
. “Lauri e a Subversão”, de Marcos Escrivão

Fora de concurso

. “Idade da Água”, de Orlando Senna

 

Por Maria do Rosário Caetano

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