Mostra de Cinema de Gostoso premia “Meu Nome é Daniel” e “Guaxuma”

Por Maria do Rosário Caetano, de São Miguel do Gostoso (RN)

O longa carioca “Meu Nome é Daniel” e o curta pernambucano “Guaxuma” foram os principais vencedores da quinta edição da Mostra de Cinema de Gostoso, concluída na noite desta terça-feira, 27 de novembro, na Praia do Maceió, litoral potiguar.

Os dois filmes foram escolhidos como os melhores pelo público e, por isto, fizeram jus ao Troféu Luís da Câmara Cascudo, que homenageia o grande folclorista e pesquisador nordestino. “Meu Nome é Daniel” é um longa documental que narra a trajetória de seu diretor, o jovem Daniel Gonçalves, portador de deficiência motora. O público acompanha o personagem (real, claro) desde seu nascimento, até a fase adulta (ele tem 32 anos). O cineasta nasceu em Barra Mansa, no estado do Rio, numa família de posses. Desde pequenino mostrou-se diferente dos outros. Os pais não mediram esforços em busca de diagnóstico e cura para o primogênito.

Ao longo de tocantes 83 minutos, vemos Daniel em seu relacionamento com a mãe, na escola (num dos melhores momentos, interpretando uma minhoca em peça infantil), praticando escalada, um esporte radical, e buscando, incansavelmente (a custo inclusive de desmaios), diagnóstico médico capaz de esclarecer a origem de seus males físicos.

O que faz de “Meu Nome é Daniel” um filme diferente é a ausência de autopiedade somada ao bom-humor de seu protagonista e diretor. Apesar de intensos tratamentos e de recaídas que exigiram novos cuidados da família (a mãe foi incumbida de registrar em vídeo os repetitivos exercícios cotidianos do garoto para o devido acompanhamento do médico), Daniel nunca recorre ao “coitadismo”.

Como seus pais costumavam filmar as atividades de lazer em família (além do duros exercícios de fisioterapia do garoto), há farta documentação em super-oito e VHS para ilustrar a condensada narrativa de suas infância e adolescência. E bons registros do tempo presente. A ótima montagem de Vinícius Nascimento dá ao filme ritmo ágil e assisti-lo torna-se experiência enriquecedora.

Por ter  seu primeiro e autobiográfico longa-metragem selecionado para o poderoso IDFA (Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, na Holanda), Daniel Gonçalves partiu para a Europa e se fez representar, na Mostra de Gostoso, por Vinícius Nascimento. Foi, portanto, seu parceiro de trabalho — os dois preparam, agora, novo longa sobre o complexo tema da sexualidade entre portadores de deficiência — quem apresentou e debateu o filme. E quem recebeu o Troféu Luís da Câmara Cascudo.

Já “Guaxuma”, coprodução entre Brasil e França, dirigida por Nara Normande, 31 anos, alagoana radicada em Pernambuco, é uma animação documental, categoria que vem chamando bastante atenção do público e dos festivais, mundo a fora. Nara evoca parte de suas memórias, em especial a amizade com Tayra. As duas eram inseparáveis e viviam na praia de Guaxuma, em comunidade hippie, sobre a areia (matéria-prima dos belos desenhos e bonecos animados do filme), sob o sol e fortes ventos. Um dia, um acidente abreviou a vida de Tayra. O filme vem acumulando prêmios em festivais nacionais e internacionais.

Este ano, pela primeira vez, a Mostra de Gostoso contou com o Prêmio da Imprensa. Nove jornalistas elegeram o cearense “Inferninho”, de Guto Parente e Pedro Diógenes, como “melhor longa”, o gaúcho “Catadora de Gente”, de Mirela Kruel, como melhor curta nacional, e “Filho de Peixe”, de Igor Ribeiro, como o melhor dos curtas gostosenses (todos realizados por integrantes do Coletivo Nós do Audiovisual).

“Inferninho” é fruto de parceria das produtoras Marrevolto e Tardo (ambas oriundas do Coletivo Alumbramento) com o grupo teatral Bagaceira, de Fortaleza. Em diálogo com o próprio cinema e evocações do “Querelle” fassbenderiano, o filme constrói-se em um mundo onírico, em torno de Deusimar (Yuri Yamamoto), dona de um bar, que vive cercada de poucos e estranhos seres. Ela sonha com novos mundos, com novos deslocamentos. Quando o marinheiro Jarbas (Demi Lopes) chega, ele o faz tomado pelo desejo de ancorar sua vida em terra firme. O amor fulminante entre os dois mudará o dia-dia daquele espaço tão peculiar.
“Catadora de Gente” registra sólido depoimento de Maria Tugira Cardoso, que, por 30 anos, tirou o sustento de sua família do lixão de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. Hoje, ela lidera associação de catadores. O filme, intencionalmente, não mostra lixões, nem misérias. A personagem é enquadrada pela câmara em ambiente limpo, para expressar suas percepções da vida, subjetividades, descobertas (inclusive de obras literárias e jurídicas, colhidas no lixo) e lembrar preconceito contra catadores e recicladores.

O documentário “Filho de Peixe” constrói-se em torno de dois pescadores de São Miguel do Gostoso: o octogenário Seu Chico Neri, e o septuagenário Seu Lulu. A ideia inicial do diretor Igor Ribeiro, de 21 anos, consistia em colher divertidas histórias de pescadores. Elas estão na narrativa, mas cedem espaço, especialmente, aos anseios existenciais de seus retratados. Seu Chico, apesar dos 82 anos, ainda vai ao mar, em companhia de filhos ou netos, pois a pesca foi a principal razão de sua vida e a profissão que ensinou a filhos e netos. Já Seu Lulu tudo fez para que seus filhos estudassem e não se tornassem pescadores, “ofício duro e perigoso”. Hoje, aos 77 anos, vive da venda de pequenos produtos num quiosque em São Miguel do Gostoso.

Duas empresas dedicadas à indústria do audiovisual, a Elo Company e a Mystika, entregaram prêmios “aquisição para distribuição” e “serviços de finalização” a dois curtas-metragens.

Bárbara Sturm, diretora de conteúdo da Elo, premiou o mineiro “Teoria sobre um Planeta Estranho”, de Marco Antônio Pereira. Trata-se do terceiro curta do inquieto e inventivo cineasta, que vem causando sensação em festivais brasileiros e internacionais. Seus curtas anteriores — “Retirada para um Coração Bruto” e “Alma Bandida”— devem somar-se a “Planeta Estranho” e a mais duas novas realizações, já em fase de criação, para gerar o longa-metragem “Cordisbrurgo”. O nome evocará a cidade onde nasceu o escritor Guimarães Rosa, o próprio Marco Antônio e muitos de seus personagens. “Neste novo filme”— contou o cineasta, em debate em Gostoso — “somei a dois atores da terra (Seu Brasinha, dono de uma lojinha muito louca, e Seu Nenzito, que morreu sem ver o filme pronto) dois atores de fora, Larissa Bocchino e Gérson Marques, ele um mameluco de cabelo cacheado e fortão bombado”.

A Mystika, representada por Ariadne Masetti, atribuiu o Prêmio de Finalização a “P’s” (Pês), de Lourival Andrade, professor de História na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, campus de Caicó. O curta-metragem recria e ambienta, no sertão nordestino, a tragédia do camponês Pierre Rivière que, na França do século XIX, degolou a mãe, a irmã e o irmão.

O filme “Sócrates”, dirigido por Alex Moratto e produzido pelo Coletivo Querô, da Baixada Santista, recebeu Menção Honrosa da Mostra de Cinema de Gostoso.

Ao final da descontraída cerimônia de premiação, a diretora de fotografia Maíra Iabrudi leu, em nome dos cineastas e profissionais do audiovisual presentes na Mostra de Gostoso, o seguinte documento:

Considerando os momentos de incerteza em relação às políticas voltadas para a cultura, mais especificamente para o audiovisual, as realizadoras e os realizadores manifestam seu posicionamento em defesa do Ministério da cultura e de políticas públicas que vêm sendo construídas ao longo das últimas décadas. 

Esperamos que sejam mantidas os incentivos à iniciativas indispensáveis para a construção da nossa identidades.  

As políticas publicas para a arte e audiovisual, geram inúmeros benefícios para nossa sociedade: desde a geração de emprego, geração de renda, formação de público e formação de novos técnicos. 

Nossa preocupação também é em relação aos festivais e mostras de cinema, que em todo país, contribuem para troca de experiência, olhares e um dos mais importantes meios de circulação das obras produzidas no país; além de serem também um espaço que possibilita o acesso ao cinema onde não há salas de exibição ou mesmo outros espaços culturais. 

É importante reforçar que esses festivais e mostras são uma forma de retribuir para vocês, o dinheiro público investido em muitas dessas obras.

Por fim, sublinhamos que curtas-metragens existem SIM! E que devem ser valorizados como obras audiovisuais, portanto devem também fazer parte dessa nova pontuação proposta pela ANCINE.

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