Críticas de Filmes Notícias — 26 novembro 2018
“Zuza Homem de Jazz” estabelece pontes musicais entre o Brasil e os EUA

“Zuza Homem de Jazz”, documentário de Janaína Dalri, terá sua pré-estreia paulistana nesta sexta-feira, 30 de novembro, no Instituto Itaú Cultural. Os ingressos, gratuitos, serão distribuídos uma hora antes da sessão.

Quem for ao cinema, não deve esperar uma biografia convencional do contrabaixista que deixou o instrumento de lado para dedicar-se, com imensa paixão, à pesquisa e difusão do jazz, da Bossa Nova, da era dos festivais, do cancioneiro moderno e contemporâneo brasileiro e do samba-canção, em especial. O dispositivo adotado pela cineasta, e abraçado com felicidade e bom humor pelo retratado, consiste em levar Zuza, de 85 bem vividos anos, ao encontro de (muitos) músicos brasileiros e norte-americanos. E também de críticos musicais e pesquisadores como ele (estes, em menor quantidade, mas de grande valor na narrativa).

O filme começa com Zuza Homem de Mello fazendo sua caminhada matinal, num espaço cercado de verde. Depois, o vemos no estúdio da Rádio USP, onde grava seu programa semanal, “Play List”, dedicado só à música de altíssima qualidade. O programa é difundido, também, pela Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles.

Chega, então, a hora de Zuza encontrar seu primeiro interlocutor: o baiano Letieres Leite, criador da Orkestra Rumpilezz. A conversa entre os dois, tendo os músicos e o som de seus instrumentos como acompanhantes, vai desaguar em um dos momentos mais iluminados de nossa música popular: o CD duplo “Ouro Negro”, com o qual o Brasil redescobriu um de seus maiores artistas, o pernambucano Moacir Santos (1926-2006).

O criador de “Coisas”, que passou grande parte de sua vida nos EUA, torna-se o foco de deliciosa e enriquecedora conversa entre Zuza e os músicos Mário Adnet e Zé Nogueira, responsáveis pelo “Ouro Negro”, gravado com Orquestra. A paixão dos três pelo genial músico pernambucano contamina o espectador.

“Zuza Homem de Jazz” parte, então, rumo à Sala São Paulo, onde encontrará, devidamente sentado ao piano, André Mehmari. Os dois trocam palpites certeiros sobre a riqueza de nossa música, em especial do choro, e prestam tributo a grandes criadores, sendo Pixinguinha o maior deles.

Com o pianista Nelson Ayres, a conversa ganha corpo e tempo mais elástico. Os dois falam do regresso do músico ao Brasil, depois de fase de estudos em Berkeley, nos EUA. Ayres montaria uma big band e com ela brilharia num festival de jazz. Lembremos que festivais do gênero conheceriam seu apogeu no Free Jazz, evento criado pela Dueto, de Silvia e Monique Gardenberg. As duas trouxeram ao Brasil nomes da grandeza de Benny Carter, Dizzy Gillespie, B.B. King, Astor Piazzolla, Ray Charles, Stan Getz, Gerry Mulligan, Pat Metheny, entre muitos outros.

Ayres conta que, ao desembarcar no aeroporto, Dizzy Gillespie pediu informações sobre o festival e soube que Ben Carter estava fazendo um som com músicos brasileiros. Não quis saber de trocar de roupa, nem de descanso. Pediu para ser levado ao local onde o som rolava. E para lá foi conduzido. Para deleite de todos.

Monique Gardenberg, que na época tinha 20 e poucos anos, relembra o prazer de ter organizado evento tão importante. Roberto Muylaert, então diretor da TV Cultura, que mostrava os shows do festival, aparece em dois tempos. Naqueles “free” e hoje. Lembra que uma de suas principais tarefas, naquele momento, foi convencer o pessoal da segurança que os músicos norte-americanos “puxavam fumo” na maior, sem cerimônia. Não poderiam ser detidos por tal ato. Eram a atração maior do evento e tinham que ser respeitados. Habituados a prender quem puxava fumo, imagine o transtorno que causariam caso isto acontecesse com um astro do jazz made in USA.

Outra conversa se dá entre Zuza e Egberto Gismonti, então no auge de seu sucesso, mais internacional que nacional. O artista lembra seu poder de fogo naquele tempo. Sua gravadora, a ECM alemã, queria embalar “Dança das Cabeças” com sua capa padrão, feita em preto, cinza e branco. O brasileiro não aceitou: “minha música tem cor, quero uma capa colorida”. Impôs seu desejo e a dança das cabeças saiu com invólucro vermelho e foto de um varal no qual se pendurara uma roupa maltrapilha.

Como assim? Gismonti tinha a resposta na ponta da língua: “Costumam nos ver com um povo pobre. Pois ao abrir a capa de ‘Dança das Cabeças’, encontrarão dentro dela algo que nunca ouviram”.

Zuza e sua vida cotidiana voltam ao centro da narrativa. Depois de apresentar trecho do show “Copacabana”, que ilustra musicalmente seu livro sobre o Samba Canção, ele é visto em seu sítio, tomando café com a esposa, Ercília. E preparando-se para viagem a Nova York, onde encontrará colegas e amigos dos tempos em que estudou na Julliard School.

Os pais do jovem Zuza, quando perceberam que o negócio dele era música, pediram que se formasse em Medicina, Direito ou Engenharia, profissões respeitadas na época. O jovem optou pela Engenharia. E Música. Que fosse, então, exigiram os pais, estudar numa ótima escola. E com afinco. Com um dos professores da Julliard, o brasileiro aprendeu que mais que tocar um instrumento, ali ele aprenderia a “escutar” música.

Nos EUA, além de estudar, Zuza frequentava casas de jazz. E escrevia a coluna jornalística “Nova York (Via Varig)”, já que a empresa aérea transportava seus textos para redações brasileiras.

No primeiro encontro norte-americano, Zuza conversa com a compositora Maria Schneider. Ela fala maravilhas da música brasileira. Mesmo caso do trumpetista Winton Marsalis.

Na mais supreendente conversa do filme, o crítico de jazz Gary Giddins empreende, com leveza e charme, análise de imensa acuidade. Ele conta que, no final dos anos 1950, início dos 60, o rock tomou conta dos EUA. Os músicos de jazz, depois de décadas de ouro (de 1925 a 1955) ficaram sem espaço. Os meios de comunicação e as casas noturnas não estavam mais abertas para eles. E o que aconteceu na década de 1960? Os grandes músicos norte-americanos descobriram que, no Brasil, um tipo de jazz, a Bossa Nova, florescia. E tinha seu próprio Gershwin e que ele se chamava Jobim. Tom Jobim. O jazz dos EUA e Bossa Nova estabeleceram, então, densa relação de troca.

A paixão bela Bossa Nova tomou conta dos grandes músicos norte-americanos. No filme, Stan Getz, Perry Como e Charles Byrd tocam e fazem saborosas piadas bossanovistas. Falam da febre musical brasileira que se alastra pelos EUA. Outros artistas (os ‘saloon singers’ Eric Comstock, Steve Ross) falam da onda brasileira que tomou conta dos meios jazzísticos. Alguém define o impacto da Bossa Nova na terra de Sinatra: “foi um tsunami”. Eles até aprenderam a falar três palavras em português: “coração, amor e saudade”.

Zuza dirige-se, então, ao Village Vanguard, um bar que frequentava sempre que podia, para assistir shows de jazz. Nada mudou no local. O proprietário morreu, mas a filha, Debora Gordon, cuida de tudo. E preserva a tradição.

Para relembrar, para valer, os anos na Julliard School, Zuza vai à casa do pianista e cantor Bob Dorough, seu colega de classe. Os dois conversam e folheiam álbuns de fotos, que Zuza levara do Brasil. E, ao atender a um pedido do colega, Dorough pergunta se Zuza prefere uma balada ou um suíngue. “Um suíngue”, responde o brasileiro.

Quando o sintético (apenas 72 minutos) passeio cinematográfico musical de “Zuza Homem de Jazz” termina, não há como não estar satisfeito. Afinal, este homem, que carrega tal vocábulo no próprio nome e acredita que sobreviverá em seus livros, é um amoroso, bem-humorado e simpático amante da boa música, seja ela norte-americana ou brasileira.

Zuza Homem de Jazz
Brasil, 72 minutos, 2018
Direção: Janaina Dalri
Estreia: 30 de novembro, às 20h00, no Itaú Cultural, em São Paulo. Entrada Franca.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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