“Roma”, filme 100% mexicano, na trilha do Oscar
Cuáron com os prêmios do Globo de Ouro © AFP

“Roma”, o novo longa-metragem de Alfonso Cuarón, teve desempenho notável no Globo de Ouro. O filme rendeu ao autor de “E Tu Mamán También” (e “Gravidade”, detentor de sete Oscars) o troféu de melhor diretor, deixando para trás nomes como os de Bradley Cooper, Adan Mckay, Peter Farelly e de Spike Lee, todos norte-americanos. O realizador mexicano, levou para casa, também, o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.

A Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, que outorga o Globo de Ouro, só aceita em sua categoria principal (melhor filme) produções faladas em inglês. “Roma” – batizado com o nome do confortável e arborizado bairro de classe média alta da gigantesca Cidade do México (Colônia Roma) – é falado em espanhol, com alguns diálogos em mizteca (vem desta etnia ameríndia sua protagonista, a doméstica Cleodegaria Gutiérrez, interpretada com sensibilidade pela professora primária Yalitza Aparício, de 27 anos).

O triunfo de Alfonso Cuarón no Globo de Ouro e a comoção que o filme vem despertando, somados à imensa fortuna crítica acumulada desde sua estreia no Festival de Veneza (no qual conquistou o Leão de Ouro), nos leva a deduzir que ele poderá, no Oscar 2019 (indicações em 22 de janeiro e premiação em 25 de fevereiro) figurar em categorias nobres. Deve disputar, inclusive, a mais cobiçada de todas, a de “melhor filme”. O poderoso Sindicato dos Produtores dos EUA o colocou entre os nove longas-metragens do ano, junto com “Infiltrado na Klan”, de Spike Lee, “A Favorita”, de Yorgos Lanthimos, “Um Lugar Silencioso”, de John Krasinski, “Bohemian Rhapsody”, de Bryan Singer, “Green Book, o Guia”, de Peter Farelly, “Vice”, de Adam McKay, “Pantera Negra”, de Ryan Coogler, e “Nasce uma Estrela”, de Bradley Cooper.

Alfonso Cuarón pode concorrer, ainda, ao Oscar de melhor filme estrangeiro (categoria em que se apresenta como favorito) e, individualmente, a melhor diretor, roteirista e fotografia (pois são dele as imagens enquadradas em requintado preto-e-branco).

A fortuna crítica do filme soma admiradores empolgados e críticos duros. “Roma” já foi acusado de “monótono”, por causa de seus “planos longos e trama rarefeita”. E de “paternalista”, “conciliador”, “melodramático” e “colonizador”. O último adjetivo se faz acompanhar de argumento que cala fundo em novas sensibilidades: a milionária produção da Netflix oferece mais um retrato ameríndio (no caso, o da doméstica mizteca Cleo) composto pelo olhar de um homem branco, formado pela cultura hegemônica europeia (a espanhola, da qual Cuarón descende).

Há, porém, olhares voltados para o que o filme tem de melhor e faz dele o mais consistente entre os nove filmes pré-selecionados pelo poderoso Sindicato dos Produtores. Em especial, o protagonismo absoluto dado à doméstica dos Cuarón (Cleo é uma recriação ficcional de Libória Rodríguez, agregada, ainda hoje, aos 75 anos, à família). O cineasta buscou em suas memórias de infância (e em entrevistas com “Libo”) a matéria-prima de seu filme.

Vale destacar em “Roma” uma de suas menos comentadas qualidades: a sutil e refinada contextualização histórico-política do México comandado pelo presidente Luis Echeverría. Quem acusa o filme de monotonia e trama rarefeita decerto não teve olhos para a imensa riqueza de informações visuais (e de acontecimentos) construída por Cuarón.

Echeverría, prócer do PRI (Partido Revolucionário Institucional), governou o país de 1970 a 1976. Um tempo em que o México viveu intensas convulsões. Depois de sediar a Copa do Mundo (ganha pelo Brasil), o país tentava aparentar calma. Afinal, em 1968, na Praça de Tlatelolco, centenas de estudantes haviam sido abatidos a tiros por forças militares. Uma das páginas mais bárbaras daquele ano em que os jovens sacudiram o mundo.

Com o sucesso da Copa, o país e seu novo presidente se preparavam para seguir em frente. Mas os estudantes continuavam inquietos e as forças repressivas se organizavam para enfrentá-los. “Roma” começa no final do ano de 1970, já próximo ao Natal. Cleo, auxiliada por Adela, de origem mizteca como ela, trabalha, sem descanso, no belo e confortável casarão de Colônia Roma. O patrão, Antônio, é um médico renomado. A esposa, Sofia, é química, mas deixa seu ofício de lado para dedicar-se aos quatro filhos (dois garotos na pré-adolescência, Paco e Toño, uma garota, Sofi, e o caçula, Pepe, muito apegado à babá Cleo). A doméstica lava corredores, ajuda na cozinha, veste os meninos, arruma lanches e refeições e ainda pajeia Paco, o alterego mirim de Cuarón.

Adela apresenta a Cleo um jovem de nome Fermín (José Antonio Guerrero). Ele é primo de Ramón, namorado de Adela, teve infância e adolescência muito pobres (mora numa periferia miserável) e adora Artes Marciais. Acredita que tal prática o arrancará da pobreza.

Numa das mais duras sequências do filme, Cleo, abandonada por Fermín, desde que engravidara, vai procurá-lo num descampado periférico. Lá, ele treina Artes Marciais com diversos instrutores e com um astro de TV, o Professor (mascarado) Zoveck. A rispidez do “namorado” com a jovem doméstica será avassaladora. Mais tarde, saberemos o que ele aprende naqueles “balés” marciais.

Cuarón desenha com imensos zelo e sutileza o quadro político e econômico daquele final de 1970 e início-meados de 1971. Num poste, vemos o cartaz do PRI (o cineasta Paul Leduc gosta de lembrar que o longevo partido mexicano porta um desatino no nome: revolucionário e institucional). Nas casas ricas, estacionam-se carros que bebiam litros e litros de gasolina, caso do imenso Galaxy da família que emprega Cleo (a crise do petróleo já se avizinhava). A cada entrada do automóvel na garagem, os problemas da doméstica se avolumam. O patrão reclamará, até abandonar o confortável lar, da falta de limpeza do corredor. Sujava, sempre, os sapatos com bosta de cachorro.

Cleo irá, na condição de agregada, a uma rica festa de Revéillon na casa do irmão da patroa. Lá, norte-americanos e seus anfitriões mexicanos buscam atividades que os divirtam. Dezenas de troféus de caça confirmarão que, ali, armas de fogo constituem elemento indispensável. Para os que vieram do Norte, em especial. E para os homens que vivem abaixo do Rio Grande (as mulheres mexicanas não mostram nenhum entusiasmo pela prática de tiros).

Para registar o principal acontecimento político de “Roma” – “El Halconazo” ou Massacre de Corpus Christi – Cuarón exibirá todo seu virtuosismo como diretor e fotógrafo. Com a câmera postada dentro de uma imensa loja de móveis, veremos, pelos cristais das vitrines, militares auxiliados por paramilitares, descendo o sarrafo em estudantes que protestam. Acuados, os jovens buscarão abrigo, alguns na loja. Se não bastasse o tumulto, Cleo verá Fermín entre os paramilitares, espancando (ou matando) estudantes. As consequências, para ela, serão terríveis.

Como dizer que não acontece nada num filme que tem massacre de estudantes, festa de Revéillon “animada” por armamentistas vindos do Norte, lutas marciais coreografas com beleza kurosawiana, incêndio em uma hacienda, engarrafamento (magnífica e milionária sequência, com centenas de carros de época), parto fora de hora, passeio na praia e quase-afogamento? De tédio não se morre em “Roma”.

O grande filme sobre mulher ameríndia que trabalha em casa burguesa ainda está por ser feito. E o será quando mexicanas de origem mizteca, azteca ou maia se tornarem cineastas. O que Alfonso Cuarón, filho de família burguesa, realizou em seu longa-metragem foi um apaixonante (e bem construído) “amarcord” recheado com lembranças de um menino que amava sua babá Liba.

2018, há que se registrar, foi um ano de ouro para o cinema mexicano. Um ano que começou com “Museu”, de Alonso Ruipalácios, na seleção de Berlim (Urso de Prata de melhor roteiro) e terminou com o Leão de Ouro veneziano para “Roma”. Ver os dois filmes constitui experiência enriquecedora. “Museu” é mais convulsivo, inquieto, provocador, dionisíaco. “Roma” é virtuosístico, sofisticado, clássico. Ambos revelam muito da força do cinema azteca, que vem, há quase uma década, emprestando grandes talentos ao cinema hegemônico, o dos EUA.

Nomes como os de Alejandro González Iñarritu, Guillermo del Toro, o fotógrafo Emmanuel Lubezki e o diretor e fotógrafo Alfonso Cuarón tornaram-se habitués na festa anual da Academia de Hollywood. Eles já somam mais de uma dezena de estatuetas. Só que os triunfos anteriores deste quarteto fantástico (no Oscar) se deram com filmes “gringos” (exceção para “O Labirinto do Fauno”).

Cuarón irá, agora disputar, se a sorte continuar do lado dele, estatuetas douradas de Hollywood com um filme 100% mexicano: filmado no bairro onde ele nasceu e cresceu, com atores de seu país (nenhuma estrela carimbada internacionalmente) e falado em espanhol e mizteca. “Gravidade” somou sete estatuetas, mas perdeu a principal para “12 Anos de Escravidão”. A sorte “romana” está lançada.

Roma
México/EUA, 135 minutos, 2018
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Yaritza Aparício, Marina de Tavira, José Antonio Guerrero, Nancy Garcia, Latin Lover, entre outros
Disponível na Netflix

 

Por Maria do Rosário Caetano

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