Estrelas peninsulares
“Dogman”, Matteo Garrone

Depois do Oscar e de prêmios europeus como o Goya espanhol, o Bafta inglês e o Cesar francês, é hora de voltar os olhos para o “David di Donatello”, prêmio máximo do cinema italiano. Numa sexta-feira, 27 de março, em Roma, com transmissão ao vivo pela Rai Uno, a Academia de Cinema da Itália realizará a edição de número 71 do Donatello. O prêmio peninsular só perde em longevidade para o Oscar (91 edições) e o Bafta (72).

A cerimônia romana reunirá a nata do cinema italiano contemporâneo: Paolo Sorrentino, com o polêmico “Loro”, cinebiografia ficcional de Silvio Berlusconi; Matteo Garrone, com “Dogman”, em cartaz nos cinemas brasileiros; o grande Nanni Moretti, com “Santiago, Itália”, forte concorrente na categoria melhor documentário; a atriz Valeria “Respiro” Golino e seu segundo longa como diretora, “Euforia”; Alice Rohrwacher, com “Lazzaro Felice”; e Alessio Cremone, com “Sob a minha Pele” (estes dois últimos disponíveis na Netflix). Curioso notar que o segundo filme com mais indicações (13 no total), “Capri Revolution”, de Mario Martone, não figura nas duas categorias principais (melhor longa e direção). Mesmo caso de “Loro” (com 12).

Os brasileiros não devem temer que a festa dos Donatello resulte tediosa, por mais que a distribuição do cinema italiano ande, por aqui, rarefeita e precária. Afinal, num dos momentos mais emocionantes previstos pela cerimônia donatelliana, haverá exibição de substantivo clip com trajetória e trechos dos melhores filmes de Bernardo Bertolucci (1941-2018). O diretor de “O Último Tango em Paris”, que morreu no ano passado, será homenageado por muitos dos atores que estiveram em seus principais filmes. Além do mestre parmeggiano, a noite dos Donatello vai prestar tributo a Carlo Vanzini (1951-2018), de quem nós, brasileiros, pouco sabemos.

Ao morrer, ano passado, em sua Roma natal, vítima de câncer, aos 67 anos, Vanzini, diretor, roteirista e produtor, foi tema de significativos obituários nos principais jornais da Península. Todos os veículos destacaram sua ascendência, filho que era do mestre da comédia à italiana, Steno (1915-1988), seu aprendizado com o mestre Mario Monicelli (1915-2010), de quem foi assistente em “Brancaleone nas Cruzadas” e “Romance Popular”, sua permanente busca de diálogo com o grande público e seus principais filmes, “Sapore de Mare”, “Vancanze di Natale” e “Eccezzziunale…Veramente”. Estes dois últimos foram selecionados para a Grande Mostra Retrospectiva da Comédia Italiana, exibida durante a sexagésima-sétima edição do Festival de Veneza, poucos anos atrás. Jornais lembraram, ainda, que alguns filmes de Vanzina foram verdadeiros “panettoni movies” (cinepanettones). Ou filmes natalinos.

A audiência da septuagésima-primeira edição do David di Donatello deve atingir alta pontuação na Itália. Afinal, Berlusconi e Paolo Sorrentino desfrutam, no país, de imensa popularidade mundana. E de notável poder de causar polêmica. “Loro”, blockbuster no mercado italiano (dividido em duas partes), foi lançado na França sob o título “Silvio et les Autres” (com quase quatro horas de duração) e recebeu 12 indicações ao “Oscar” peninsular. É o terceiro com maior presença na competição (mesmo esnobado nas categorias principais). Sua força está na disputa nas quatro categorias de atuação.

O craque Toni Servillo, de “Il Divo” e “A Grande Beleza”, por sua interpretação do polêmico Silvio Berlusconi, concorre a melhor ator. A florentina Elena Sofia Ricci, que interpreta Veronica Lario, ex-atriz e ex-mulher do político italiano, disputa o Donatello de protagonismo feminino.

A Academia preferiu selecionar, para concorrer com o favorito “Dogman”, recordista de indicações (15), um concorrente que os brasileiros conhecem bem, “Me Chame pelo seu Nome”, de Lucas Guadagnino. Este longa-metragem, protagonizado por Timothée Chalamet e Armie Hammer, ganhou, ano passado, o Oscar de melhor roteiro adaptado, e tem entre seus produtores o brasileiro Rodrigo Teixeira. Filmado em inglês, numa Toscana de beleza arrebatadora e sob o comando de um diretor italiano, o filme soma 12 indicações.

Os outros três concorrentes na categoria principal (melhor longa-metragem) são “Lazzaro Felice”, “Euforia” e “Sob a minha Pele”. Note-se a presença significativa de duas realizadoras entre os cinco finalistas: Alice Rochwacher, italiana de origem germânica, e Valeria Golino, napolitana de origem grega. Valéria, vale lembrar, é uma das atrizes mais conhecidas da Itália, e pode ser vista no elenco de “Casa de Veraneio”, de Valeria Bruni-Tedeschi, em cartaz nos cinemas brasileiros.

Na categoria melhor ator, o craque Toni Servillo tem um rival poderoso pela frente, o magricela Marcello Fonte, o cuidador de cachorros de “Dogman”. Afinal, em sua estreia como protagonista de uma ficção italiana, Marcello ganhou a Palma de Ouro em Cannes. E seu parceiro no filme, o brutamontes Edoardo Pece, disputa o Donatello de melhor coadjuvante. Na categoria melhor atriz coadjuvante, destaca-se nome que vem ganhando força em elencos peninsulares, Jasmine Trinca. Ela interpreta a irmã do protagonista de “Sob a minha Pele”, um rapaz preso por tráfico de droga, que viverá dias de horror entre delegacias, presídios e hospitais carcerários.

A partir deste ano, a Academia não vai mais atribuir dois prêmios para filmes estrangeiros, pois abandonou o recorte de “filme europeu” e “filme em língua estrangeira”. Os cinco concorrentes, agora em categoria única, incluem, claro, “Roma”, do mexicano Alfonso Cuarón. Ao contrário da França (que não aceita filmes lançados fora do circuito de salas exibidoras), a Itália foi o primeiro país a premiar o registro das memórias de infância do diretor de “E Tu Mamán Tambien”. Foi em Veneza, onde conquistou o Leão de Ouro, que Cuarón se preparou, com a Netflix na retaguarda, para a vitoriosa carreira de “Roma”. Com ele, disputarão o Donatello estrangeiro o polonês “Guerra Fria” e os anglo-americanos “Trama Fantástica”, de Paul Thomas Anderson, “Três Anúncios para um Crime”, de Martin McDonagh , e “Bohemian Rhapsody”, de Brian Singer.

Na categoria melhor documentário, todos estão de olho no favorito, Nanni Moretti, que resolveu mirar a experiência democrática de Salvador Allende, que implantou o socialismo no Chile, por via eleitoral. Em “Santiago, Itália”, o diretor de “Caro Diário” e “O Crocodilo” mira também sua península natal. Entre os concorrentes documentais, um título chama atenção: “Friedkin Uncut, Un Diavolo di Regista”, de Francesco Zippel. O diretor diabólico em pauta é o autor de “Operação França” e “O Exorcista”, o octogenário William Friedkin.

Este ano, além de ter unificado o prêmio de melhor filme estrangeiro, a Academia de Cinema da Itália criou o Donatello do público. “Loro” tem grandes chances nesta categoria.

Confira os principais concorrentes:

MELHOR FILME

. “Dogman”, Matteo Garrone (15 indicações)
. “Me Chame pelo seu Nome”, de Luca Guadanigno (12)
. “Lazzaro Felice”, de Alice Rohrwacher (9)
. “Sob a minha Pele”, de Alessio Cremone (9)
. “Euforia”, de Valeria Golino (7)

MELHOR DOCUMENTARIO

. “Santiago, Itália”, de Nanni Moretti
. “Arrivedercci Saigon”, de Wilma labate
. “La Strada dei Samouni”, de Stefano Savona
. “Friedkin Uncut, Un Diavolo di Regista”, de Francesco Zippel

MELHOR DIREÇÃO

. Matteo Garrone (“Dogman”)
. Mario Martone (“Capri Revolution”)
. Alice Rohrwacher (“Lazzaro Fellice”)
. Valeria Golino (“Euforia”)
. Lucca Guadanigno (“Me Chame pelo seu Nome”)

MELHOR ATRIZ

. Elena Sofia Ricci, por “Loro”
. Alba Rochwacher, por “Lazzaro Felice”
. Mariana Fontana, por “Capri Revolution”
. Pina Turco, por “Il Vizio della Speranza”
. Anna Toglieta, por “Un giorno al Improviso”

MELHOR ATOR

. Marcello Fonte, por “Dogman”
. Toni Servillo, por “Loro”
. Riccardo Scarmarcio, por “Euforia”
. Fabrizio de André, por “Principe Libero”
. Alessandro Borghi, por “Sob a Minha Pele”

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

. “Roma” (México)
. “Guerra Fria” (Polônia)
. “Trama Fantasma” (EUA-Inglaterra)
. “Três Anúncios para um Crime” (EUA-Inglaterra)
. “Bohemian Rhapsody” (Inglaterra/EUA)

 

Por Maria do Rosário Caetano

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