Coprodução minoritária com Brasil na perspectiva da cineasta María Alché
María Alché estreia na direção com "Família Submersa"

A Argentina é um dos países que mais coproduz filmes com o Brasil, historicamente, perdendo apenas para Portugal. Desde 2010, o chamado Protocolo de Cooperação com o Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA), assinado juntamente com a Ancine, prevê um edital bilateral específico para a realização de longas-metragens com sócios argentinos, estimulando ainda mais essa integração regional. Muitos desses filmes já foram selecionados para festivais internacionais, como os de San Sebastián e Locarno, a exemplo de “Família Submersa”, o primeiro longa-metragem da jovem cineasta María Alché, que acaba de estrear no Brasil.

Segundo a produtora brasileira Tatiana Leite, da Bubbles Project, o filme passou por mais de 20 festivais e foi vendido para distribuidores da Espanha, Alemanha, Áustria, Austrália, Nova Zelândia e do México. Além dela, aparece nos créditos outra produtora carioca, a TvZero, atualmente comandada por Roberto Berliner, dividindo a participação patrimonial brasileira. Ainda no lado minoritário, consta a alemã Pandora Film Productions e a norueguesa 4 1/2 Films. A majoritária é a argentina Pasto Cine.

Trata-se, portanto, de um filme realizado por produtores de quatro países, dois latino-americanos e outros dois europeus, ampliando as possibilidades de fundos de financiamento e a abrangência de mercados internacionais para a sua estreia comercial. Do Brasil, para além do edital Ancine-INCAA (via Fundo Setorial do Audiovisual) na complementação do orçamento, a equipe de som durante a filmagem foi totalmente brasileira, assim como a de pós-produção, responsável pela montagem, correção de cor e mixagem. No elenco, a contribuição foi bem menor, representada apenas pelo ator Luiz Carlos Vasconcelos, em um papel discreto, com apenas uma cena. O desenvolvimento do roteiro foi acompanhado de perto por Tatiana Leite, “opinando e trocando referências” com a diretora, como ela mesma relata. A estratégia internacional que está sendo realizada, desde o ano passado, está igualmente sob sua responsabilidade.

Para esta coluna, conversei também com a diretora María Alché, que trouxe o seu olhar argentino sobre a coprodução internacional e as suas implicações no processo criativo.

Revista de CINEMA – Além de escrever o roteiro e dirigir, você acompanhou o processo de coprodução internacional de “Família Submersa”? Como foi essa primeira experiência?

María Alché – Comecei a pensar no filme no final do ano de 2013. Naquele momento, eu havia dirigido um curta-metragem chamado “Noelia”, que chamou a atenção de algumas produtoras. Uma delas era a Barbara Francisco, uma produtora jovem, que até então só tinha trabalhado com diretores homens e que queria explorar outros universos. Conversamos um pouco sobre as ideias iniciais do filme e avançamos em paralelo: da minha parte, fui aprofundando na escrita do roteiro, e ela, nas possibilidades de buscar sócios, parcerias e formas de financiar o longa. Em 2014, viajamos para Berlim, ela estava estreando um filme na mostra Panorama, e eu fui para o Talent Campus. Lá, conhecemos a Tatiana Leite, do Brasil, e o Christoph Friedel, da Alemanha, que se tornaram nossos coprodutores nesses dois países. Agradeço muito aos dois, porque recebi muito apoio humano, artístico e criativo, assim como uma compreensão muito generosa que tivemos, todos juntos, sobre o projeto. Na direção de fotografia, incluímos a Hélène Louvart, da França, e ela nos apresentou à Turid Oversveen, que acabou sendo a nossa coprodutora na Noruega, onde ganhamos o prêmio SorFond. Gostaria de destacar que o mais interessante da coprodução é sentir essa rede de apoio e força para que o projeto siga adiante. São muitos anos, com muita paciência, nos quais vão aparecendo más e boas notícias, editais que não saem e outros que sim. E sentir essa companhia incondicional é fundamental. Tatiana fez sugestões de várias pessoas do Brasil e que foram essenciais para o processo criativo, como a Livia Serpa, editora carioca e apaixonada pelo projeto, cujo entusiasmo trouxe rigor e com quem tive uma dinâmica muito frutífera de trabalho. Tatiana também esteve presente em muitas decisões da pós-produção, acompanhando com sábio critério, assim como no lançamento internacional, trazendo a sua ampla experiência, e entendendo o filme como se fosse seu, não apenas como uma coprodutora. E isso foi excepcional da sua parte. Fizemos o som com a Gabriela Cunha e a Fernanda Porto, duas técnicas de som de São Paulo, muito profissionais e geniais. A mixagem de som também ocorreu no Brasil, com o Paulo Gama.

Revista de CINEMA – Você pensou no Brasil como país participante desde o início da escrita do roteiro ou isso acabou acontecendo posteriormente, por causa da coprodução que se confirmou?

María Alché – Surgiu o nome da Tatiana Leite, ela e a minha produtora argentina se conheceram anteriormente e tinham muita vontade de trabalhar juntas. A partir daí, começamos a trabalhar conjuntamente e ver de que forma podia ser possível a coprodução. Um pouco antes de começar a filmagem, recebemos o edital de coprodução Ancine-INCAA, que foi fundamental.

Revista de CINEMA – O ator brasileiro Luiz Carlos Vasconcelos tem um papel no filme. Como foi trabalhar com ele?

María Alché – Tenho uma lembrança muito bonita. Ele chegou com a sua suavidade, um sorriso enorme e muita vontade de testar tudo. Conversamos um pouco e começamos a ensaiar com a Claudia Cantero, atriz argentina [que faz o papel da esposa de Vasconcelos no filme]. Eu já tinha “dado um Google” para saber mais sobre o Luiz e visto algumas coisas dos seus trabalhos anteriores que me interessavam. A sua presença me alegrou, porque ele chegou com uma pré-disposição de experimentar coisas novas e arriscar. Nos dias em que filmamos com ele, fazia muito calor e chovia bastante, num espaço ínfimo, mas soubemos superar bem.

Revista de CINEMA – Anteriormente, você atuou em “A Menina Santa”, da cineasta Lucrecia Martel, que também é uma coprodução da Argentina com vários países. Na sua opinião, de que maneira esse processo internacional muda e interfere nos projetos? Quais são as facilidades e as dificuldades na elaboração do roteiro e durante as filmagens?

María Alché – As facilidades têm a ver com muitos aspectos: o valor artístico, nutrir-se de artistas de outras geografias, com outras experiências, fazer essas trocas, somar forças e conhecimentos. Para cineastas latino-americanos, isso me parece fundamental. Muitos filmes não teriam sido possíveis economicamente sem essas parcerias internacionais. Acredito que para qualquer cineasta, ator ou técnico, é enriquecedor trabalhar em outro país, aprender, contribuir. Talvez as dificuldades tenham a ver com o fato de que nem sempre se pode adaptar o roteiro para que haja um personagem brasileiro ou argentino, e isso pode trazer algo forçado para o projeto. Mas creio que depende do caso. Nós não sofremos essa coisa mais forçada, pelo contrário, nos beneficiamos de toda a contribuição brasileira. Quiçá outra dificuldade para nossas frágeis economias latino-americanas e neoliberais sejam as mudanças no câmbio em relação ao dólar, e os atrasos que podem existir de um lado ou outro na liberação das verbas dos editais, sobretudo nesse contexto tão hostil para a cultura, nos dois países.

 

Por Belisa Figueiró, autora do livro “Coprodução de Cinema com a França: Mercado e Internacionalização” (Editora Senac São Paulo, 2018)

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