Olhar de Cinema – Três nomes no feminino
“Chão”, de Camila Freitas

Por Maria do Rosário Caetano, de Curitiba

O filme mais aplaudido, até agora, na oitava edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, é brasileiro e de temática explosiva: “Chão”, de Camila Freitas, sobre assentamento do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), plantado no coração do agronegócio goiano-matogrossense.

Junto com mais dois documentários — “Diz a Ela que me Viu Chorar”, da paulistana Maíra Bühler, e “Casa”, da baiana Letícia Simões — “Chão” integra a trinca de “filmes no feminino”, escalada para representar o Brasil na competição internacional curitibana. A concorrência estrangeira é forte e se compõe com sete filmes. Quatro já foram exibidos: o ótimo “Entre Dos Águas” (da Espanha), o impactante e surpreendente “Família da Madrugada” (México, em parceria com os EUA), o sintético “Etrangs Noir” (Bélgica), e o curioso, mas redundante “Pretérito.Imperfeito” (China, via EUA). Três estão por vir: “Seguir Filmando”, da França, “Tel Aviv em Chamas” (de Israel, com um palestino na direção) e o argentino “De Novo Outra Vez”, de Romina Paula.

Os prêmios aos melhores do Olhar de Cinema serão entregues na noite desta quarta-feira. Não é impossível que “Chão” seja um dos laureados. Entre os filmes exibidos até agora, dois, com imensas qualidades, despontam entre os favoritos. Um deles é o espanhol “Entre Dos Águas”, sobre irmãos ciganos, um prestando serviços como padeiro à Marinha, e o outro vivendo ora como catador de mariscos, ora como traficante de drogas. O filme causou imenso impacto no público curitibano.

O outro, o mexicano “Família da Madrugada” (realizado pelo diretor estadunidense Luke Lorentz), é um complexo retrato dos Ochoa, família que vive e trabalha na capital asteca. Com segurança, contenção e muito humor (sim, com muito humor), o documentário revela, para nosso espanto, facetas do inusitado ofício de quatro Ochoa (dois adultos, um adolescente e um menino lindo e gorducho). Eles comandam uma ambulância de socorro a acidentados na madrugada mexicana. Como o Estado dispõe de poucas unidades para prestar tal serviço, “viradores”, por conta própria e ao arrepio da letra fria da lei, correm pelas ruas em busca de “clientes”. A disputa é brutal (com ambulâncias disputando verdadeiras provas de Fórmula 1 por avenidas cheias, com sirene ligada e microfones na mão).

Embora demonstre imensa simpatia e respeito pelos Ochoa, que falam muitos palavrões, comem “porcarias” gordurosas noite adentro e disputam clientela em espantoso vale-tudo, o realizador (também fotógrafo, montador e roteirista do filme) não esconde as falhas éticas de seus personagens. Por isto, o documentário que vai somando humor a cenas de ação (as corridas da ambulância dos Ochoa pelas ruas) termina em tom menor, reflexivo, trágico.

Até agora, os melhores filmes apresentados pela competição do festival são documentários. “Chão” está, pois, entre eles. Este filme, que lotou a maior sala do Espaço Itaú Crystal (ficou gente de fora), foi aplaudido de pé e demoradamente. Sua diretora, como Luke Lorentz, estudou cinema na universidade (ela, na UnB e UFF) e especializou-se em direção de fotografia (a brasileira, na Escola Louis Lumière, em Paris). Antes de dirigir “Chão”, seu longa de estreia, a realizadora baiano-brasiliense comandou dois curtas e um média, “Passarim”, “De Asfalto e Terra Vermelha” e “Ararat”. Um deles foi apresentado num assentamento do MST. E a jovem diretora foi estimulada a realizar um novo trabalho junto ao movimento social camponês.

Quatro anos atrás, nascia o projeto de “Chão”. Durante 48 meses, Camila filmou o dia a dia de acampados no Assentamento da Usina Santa Helena, em Goiás, propriedade do grupo Naum, grande devedor de impostos. Acompanhou o entusiasmo e a luta de Vó (Natalina Cândida), Frango (Valtenir Gomes), PC (Wilmar Fernandes) e de lideranças do MST, incluindo o articulado Nélson Guedes. Os quatro estiveram ao lado da cineasta, na sessão mais prestigiada do Olhar de Cinema. O público, que permaneceu na sala para o debate (em número espantoso em festival com programação tão vasta), se levantou para aplaudir “Chão”.

Há muitos filmes sobre o MST. Alguns com boa difusão (caso de “Terra para Rose” e “O Sonho de Rose”, ambos de Tetê Moraes, e “Por Longos Dias”, de Mauro Giuntini, com texto que Saramago escreveu para o livro “Terra”, de Sebastião Salgado). Outros, com difusão restrita. “Chão”, que participou da mostra Forum do último Festival de Berlim, pode romper o isolamento. Por sua complexidade e construção estética.

Camila Freitas fugiu da pressa, da precariedade e do didatismo, marcas de muitos filmes de temática social. Elaborou seu longa-metragem (de quase duas horas) com vagar, reflexão e montagem rigorosa. Por ser fotógrafa (e uma das três autoras das imagens do filme, cabendo a Cris Lyra o crédito principal) zelou por direção de fotografia de rara qualidade. Ainda mais se levarmos em conta as complicadas condições de filmagem (noites iluminadas por velas, em acampamento que só usa luz elétrica de pequeno gerador para sintonizar TV coletiva, cenas épicas com militantes do MST promovendo bloqueio de estrada férrea etc).

Num filme realizado “no feminino” (diretora, montadora, fotógrafas, incluindo Carol Matias), vemos o passar do tempo impresso em atos domésticos (ou políticos) dos assentados, obrigados a ter paciência. Afinal, a reforma agrária é um dos mais lentos processos econômico-políticos de nossa história de cinco séculos. A concentração da posse na terra em mãos de poucos segue incontornável. Um dos militantes do MST avisa aos acampados que a luta será árdua e longa. E que só conseguirão alguma conquista “se persistirem e se forem muitos”. Afinal, “acampamento não é atividade de fim de semana”. No caso do assentamento de Santa Helena, nada de concreto se materializou, apesar da longa espera. O teatro da Justiça, mostrado no filme com juízes falando o mais puro juridiquês para plateia não-iniciada, dá a entender que a espera será imensa e inexorável.

Em rara inserção de material de arquivo, vemos o então ministro da Agricultura (Governo Temer), o senador Blairo Maggi, ele mesmo um rei da soja e astro do agronegócio, dizendo à reportagem da Band que o bloqueio da estrada de ferro (aquela que leva grãos a portos exportadores) será breve. Que aqueles assentados serão dali retirados e que “as famílias” que lavram as imensas plantações do Centro-Oeste voltarão ao trabalho.

No momento mais belo e contundente do filme — montado por Marina Meliande e Fred Benevides — vemos, após declaração do poderoso ministro, imensa máquina estendendo dois longilíneos braços mecânicos, um, primeiro e espaçadamente, o outro em seguida, para pulverizar inseticida na plantação. Não há um ser humano (menos ainda uma das evocadas “famílias” de trabalhadores) na paisagem. O condutor da máquina (verdadeiro “transformer” hollywoodiano) está escondido em pequena cabine. A imagem soma a cor amarelecida da soja madura ao furor mecânico da gigantesca colheitadeira. Tudo é dito dito sem palavras, só pela potência da imagem.

Os outros dois representantes do Brasil na competição — o documentário social de Maíra Bühler e o confessional “Casa” de Letícia Simões — são documentários com grandes qualidades, mas sem o impacto de “Chão”.

Maíra se atribuiu tarefa hercúlea: mergulhar, com pequena equipe, em um prédio que, na gestão Fernando Haddad, atendeu a usuários de drogas que perambulavam pela Cracolândia. O projeto, já desmantelado pelos sucessores do prefeito petista, se propunha a realizar programa de “redução de danos”. Com imensa coragem, a documentarista (coautora de “Elevado 3.5″, “Ela Sonhou que Eu Morri” e “A Vida Privada dos Hipopótamos”) passou um ano filmando no hotel parque, cravado no problemático centro paulistano. Há que se ter nervos de aço para aguentar a primeira parte do filme. Na segunda, raios (mesmo que tênues) jogam alguma luz em cenas que somam violência a carências de naturezas diversas, amores e desamores, fissuras e desesperanças. O maior mérito do filme é dar visibilidade a segmento populacional que os “bem-nascidos” fazem questão de ignorar. Isto quando não estão torcendo por seu extermínio. Ou seja, pela mais completa higienização urbana. No debate do filme, o fotógrafo Léo Bittencourt, vindo do Rio de Janeiro, não conteve as lágrimas ao lembrar seu contato (o filme foi realizado ao longo de um ano, 2016) com os moradores do hotel parque.

“Casa”, novo longa da poeta e cineasta (desenraizada) baiana Letícia Simões, do cativante “O Chalé É uma Ilha Batida de Vento e Chuva”, sobre o escritor e professor paraense Dalcídio Jurandir, registra, com delicadeza e, paradoxalmente, muito de fúria, a vida de três mulheres da Bahia: a avó Carmelita, já nonagenária, a filha sexagenária, Heliana, e a neta, a própria cineasta, chegando aos 30 anos. Elas vivem relações cotidianas de amor e desamor, se atraem e se repelem, reavivam memórias que têm o espaço físico como fonte deflagradora. Seja casa de veraneio na Ilha de Itaparica, seja residência apertada num bairro soteropolitano ou espaçosa morada onde Heliana vive, hoje, e esconde, com cadeados, registros fotográficos de seu passado. Registros que o filme, também realizado em espaço temporal largo, conseguirá revelar.

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