Turma da Mônica – Laços
© Serendipity Inc

Por Maria do Rosário Caetano

As bilheterias brasileiras estão aquém do esperado. Até “De Pernas pro Ar 3”, da bem-sucedida série protagonizada por Ingrid Guimarães, ficou abaixo de dois milhões de ingressos (o segundo filme da carismática dona de sex-shop passara de quatro milhões).

Conseguirá o primeiro longa-metragem em live action da Turma da Mônica quebrar a escrita? Ou seja, conquistar bilheteria similar aos blockbuster norte-americanos destinados ao público infanto-juvenil, como os recentes “Dumbo”, de Tim Burton, e “Aladdin”, de Guy Ritchie?

“Turma da Mônica – Laços”, dirigido por Daniel Rezende e escrito por Thiago Dottori (a partir de graphic novel dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi), será lançado em grande circuito nesta quinta-feira, 27 de junho. Márcio Fraccaroli, um dos cabeças da poderosa dupla Paris-Downtown Filmes, anuncia, orgulhoso, que serão “700 salas em todo o país”.

O segundo longa de Daniel Rezende (o primeiro foi “Bingo, o Rei das Manhãs”) é o que se convencionou chamar de “filme para toda a família”. Como os carros-chefe da Disney. Muitos adjetivos o acompanham: politicamente correto, nostálgico, generoso, construtivo, fotografado (por Azul Serra) com esmero e elegância e defendido por elenco competente e dedicado (inclusive o mirim). Ou será que “Laços” é mais adequado ao público infantil? Atrairá adolescentes? Pais e avós vão interessar-se pelas aventuras de quatro crianças em busca de cãozinho de estimação?

Rezende acredita ter feito “um filme para todas as idades”, mas não nega que as crianças são as que curtem a trama com maior entusiasmo. Em encontro com a imprensa, no Cinemark Pátio Brasil, em São Paulo, ele forneceu dados impressionantes. Primeiro, instigou os quase 300 jornalistas e formadores de opinião (digital), que ali estavam, a voltar a ver o filme em sala comercial, junto com a criançada. E por que?

“Porque elas (as crianças) riem em momentos” que, às vezes, “passam despercebidos” aos adultos. “Quando a Turma da Mônica” – exemplificou – “depara-se com um rio, que terá que atravessar, antes que Cascão reaja, as crianças já estão rindo, pois prenunciam o que acontecerá”. O mesmo se passa quando “Magali, em hora de perigo, vê imensa fatia de melancia numa geladeira”. Já os adultos – observou o diretor – “choram mais, enquanto as crianças torcem” (pelos personagens). E por que choram os adultos? Tanto Maurício e sua filha Mônica de Sousa, quanto Daniel, acreditam que “é a memória afetiva que vem à tona”, pois as HQs do desenhista são oferecidas ao público brasileiro há quase 60 anos.

Daniel Rezende (agora, sim, chegam os dados espantosos) garante que testes de audiência, levados a cabo pelos distribuidores, foram, mais que animadores, consagradores. “Tivemos 98% de aprovação com ‘ótimo e bom’, vindos das crianças, e 90%, vindos dos pais”.

Em “Turma da Mônica – Laços”, o personagem Cascão não aparece sujo (mesmo que ele não goste de tomar banho), nem há moscas girando em torno de seu corpo infantil. Mônica não surra seus opositores com “coelhadas” frequentes e dolorosas. Magali continua comendo muito, mas não engorda (algo milagroso nas HQs de Maurício e no filme). Cebolinha continua bolando seus “planos infalíveis”. Mas, desta vez, não para “desarmar” a dona da “lua” (rua), mas para resgatar Floquinho, seu amado cãozinho desaparecido. Para empreender tal resgate, ele necessitará da ajuda dos companheiros. Na linha do “um por todos, todos por um”.

Nos principais papéis do filme estão Giulia Benitte (a Mônica do inseparável vestidinho vermelho), Kevin Vechiatto (o Cebolinha que troca o “r” por “l”), Laura Rauseo (a comilona Magali) e Gabriel Moreira (um higienizado Cascão). Em papéis secundários, ou seja, de familiares do quarteto, estão Mônica Iozzi (mãe de Mônica), Paulo Vilhena e Fafá de Rennó (como o Senhor Cebola e Dona Cebola da Silva). Rodrigo Santoro é a surpresa do filme. Tem participação pequena, mas notável, na pele do Louco. Irreconhecível num primeiro instante, ele dá show em composição de recorte jacquestati-chapliniano. Maurício, o pai da “Turma da Mônica”, surge em participação a la Hitchcock. Ou seja, aparece em rápida sequência como dono de uma banca de jornal.

O vilão de “Laços”, um ladrão de cachorros, servil à empresa farmacêutica Cabelol, tem visual bem malvadão, mas arrancará risos ao dançar ao som de pegajosa música brega. O filme é light e só quer divertir seu público. Daniel Rezende esbanja bom humor.

O cineasta, de 44 anos, empenhou-se de tal maneira na direção do filme, que abriu mão de exercer o ofício que o consagrou: o de montador de filmes nacionais e internacionais. Um deles, “Cidade de Deus”, lhe rendeu indicação ao Oscar. Ele editou, também, filmes de Walter Salles, José Padilha e, até, do estadunidense Terrence Mallick. Rezende garantiu à Revista de CINEMA que não montou “Turma da Mônica – Laços”, nem “Bingo, o Rei das Manhãs”, para poder fazer o que fez nos filmes alheios: “trazer um olhar de fora, ver o que funcionava e o que não funcionava”.

“Vou continuar dirigindo” – assegurou – “e não pretendo montar nenhum de meus filmes”. Ao lado de Maurício de Sousa e da produtora Bianca Villar (da Biônica), o cineasta deu a entender que, se o público receber bem o live action “Laços”, novas aventuras da Turma da Mônica poderão transformar-se em novos longas-metragens. Mas “tem que ser logo” – brincou – “senão os meninos crescem”.

Giulia, Kevin, Laura e Gabriel torcem pela sequência do filme, pois adoraram seus personagens, a longa convivência com a equipe técnica e artística e o clima no set (além de filmagens em estúdio, houve externas em Holambra, Poços de Caldas e Mairiporã).

Turma da Mônica – Laços
Brasil, 97 minutos, 2019
Direção:
Daniel Rezende
Elenco: Giulia Benitte, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo, Gabriel Moreira, Rodrigo Santoro, Mônica Iozzi, Paulo Vilhena e Maurício de Souza

FILMOGRAFIA
Daniel Rezende (São Paulo, SP, 1975)

COMO DIRETOR:

2019 – “Turma da Mônica Laços” (longa)
2017 – “Bingo, o Rei das Manhãs” (longa)
2008 – “Blackout” (curta-metragem)

COMO MONTADOR:

2002- “Cidade de Deus” (Fernando Meirelles)
2003 – Narradores de Javé (Eliane Caffé)
2004 – “Diários de Motocicleta” (Walter Salles)
2005 – “Água Negra” (Walter Salles)
2006 – “Filhos do Carnaval” (TV, Cao Hamburger)
2006 – “Quando meus Pais Saíram de Férias” (Cao Hamburger)
2007 – “Tropa de Elite” (José Padilha)
2008 – “Linha de Passe” (Daniela Thomas e W. Salles)
2008 – “Cidade dos Homens” (Paulo Morelli)
2008 – “As Melhores Coisas do Mundo” (Laís Bodanzky)
2008 – “Ensaio sobre a Cegueira” (F. Meirelles)
2010 – “Tropa de Elite 2” (José Padilha)
2011 – “A Árvore da Vida” (Terrence Malick)
2011 – “360” (Fernando Meirelles)
2011 – “Artigas, la Redota” (Cesar Charlone)
2012 – “On the Road” (Walter Salles)
2014 – “Robocop” (José Padilha)
2018 – “7 Dias em Entebbe” (José Padilha)

A TURMA DA MÔNICA NO CINEMA

1982 – As Aventuras da Turma da Mônica
1983 – A Princesa e o Robô
1986 – As Novas Aventuras da Turma da Mônica
1987 – Mônica e a Sereia do Rio
1988 – A Turma da Mônica em O Outro Bicho Papão
2004 – Turma da Mônica em CineGibi
2005 – Cine Gibi 2 – O Filme: Turma da Mônica
2008 – Cine Gibi 3 – Planos Infalíveis

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