Festival de animação, salvo por crowndfunding, mostra edição compacta
"Buñuel en el Laberinto de las Tortugas", de Salvador Simo

Por Maria do Rosário Caetano

Graças ao recurso do financiamento coletivo, ou “vaquinha da resistência”, a vigésima-sétima edição do Anima Mundi, maior festival dedicado a filmes animados da América Latina, acontecerá no Rio, a partir do dia 17 de julho, e depois, em São Paulo, a partir do dia 24.

As duas cidades terão edições compactas, de apenas cinco dias cada. As últimas edições do Anima Mundi, no Rio, duravam, respectivamente dez e nove dias. Este ano, sem o patrocínio da Petrobras, os recursos obtidos via crowndfunding obrigaram os organizadores a redimensionar sua programação. Mas, mesmo com os cortes, o quarteto de curadores (Marcos Magalhães, Aída Queiroz, Lea Zagury e César Coelho) garante que “animadores e público podem se preparar para edição com programação qualificada e variada”. Estão programados muitos “e ótimos filmes”, vindos de vários cantos do mundo. No total, 303 títulos oriundos de mais de 40 países, sendo 118 produções (ou coproduções) brasileiras.

O Brasil se fará representar por dois longas-metragens: “Cidade dos Piratas”, do gaúcho Otto Guerra, inspirado em tiras de Laerte, e “Miúda e o Guarda-Chuva”, do baiano Amadeu Alban. E por 116 curtas-metragens. “Nosso foco” – diz Marcos Magalhães, premiado em Cannes/1982 com o sintético e contagiante “Meow”– “continua sendo o filme de curta duração”.

Para que possamos visualizar os progressos do cinema de animação no Brasil, desde que o Anima Mundi foi criado, há 27 anos, vale comparar os dados de 1993 com os atuais. Com a palavra, Marcos Magalhães: “na edição inaugural, realizamos uma retrospectiva de toda a produção nacional desde os anos 1980, com cerca de 30 filmes”. No ano seguinte, “1994, não havia nenhum curta brasileiro novo para exibir, pois o setor estava em crise”. De 1995 em diante, “a produção foi crescendo até atingir esta média de cerca de cem novos títulos todo ano. Os filmes brasileiros passaram a ser maioria no festival nas últimas dez edições”.

Entre os longas internacionais, o diretor de “Animando” (curta que encantou Norman McLaren, o papa da animação experimental), destaca ”Buñuel en el Laberinto de las Tortugas”, de Salvador Simo, um docudrama sobre o célebre cineasta aragonês, baseado em graphic novel de Fermín Solís.

O diretor de “Viridiana” aparece no filme do espanhol Simo ainda no início de carreira, mas já em crise. Suas duas incursões cinematográficas pelo surrealismo causaram furor e escândalo, mas ele vivia a angústia de não saber que rumo tomar e, principalmente, onde arrumar dinheiro para fazer novos filmes.

Um amigo, o escultor Ramón Acín, prometeu ao aragonês: iria comprar um bilhete de loteria e, se ganhasse, produziria o documentário “Las Hurdes” (“Terra sem Pão”), com o qual Buñuel esperava retratar uma das regiões mais pobres e esquecidas da Espanha. Pode parecer folhetim barato, mas Acín ganhou o prêmio lotérico e manteve sua promessa. Financiou o filme em 1932. Buñuel realizaria, ainda, mais um documentário “Madrid 1936”. Com a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), ele foi obrigado a partir para o exílio, primeiro nos EUA e, em seguida, no México, adotado como sua segunda pátria.

A existência de uma graphic novel e de um longa-metragem animado sobre Buñuel constituem indício de que o criador de “Um Cão Andaluz” e “A Idade do Ouro” (ambos com Salvador Dalí) e de “Os Esquecidos” e “Discreto Charme da Burguesia” volta a provocar interesse. O pesquisador brasileiro, radicado na França, Paulo Paranaguá, notou, surpreso, que “Buñuel”, presença garantida em ótimos postos na lista de melhores filmes de todos os tempos, tivera presença modesta na última delas, preparada pela revista Sound&Sigth e pelo BFI (Instituto Britânico de Filmes), poucos anos atrás.

Marcos Magalhães destaca mais dois longas-metragens que devem motivar o público fiel do Anima Mundi: o polonês “Another Day of Life”, de Raúl de La Fuente e Damian Nenow, e “Ruben Brandt, Collector”, de Milorad Krstic. O primeiro, como o filme sobre Buñuel, é “um docudrama animado sobre um jornalista polonês que se embrenha na guerra civil em Moçambique, fruto de parceria entre Espanha, Holanda e Polônia”. O segundo, também vindo do Leste Europeu, “é um suspense emocionante e alegórico baseado nos mistérios do mercado de arte internacional”. São filmes para públicos jovens e adultos (assim como o frenético e alucinado “Cidade dos Piratas”, do Brasil).

Já entre os longas infantis, Magalhães destaca, além do baiano”Miúda e o Guarda-Chuva”, o letão ”Away” (Longe), de Gints Zilbalodis, aventura viajante dentro de um ambiente de videogame, “Misión H2O”, de Álvaro Cáceres, sobre a defesa do meio-ambiente (Venezuelana/Cubana/China), e “Morten Lollide Laeval” (Capitão Morten e a Rainha Aranha), do estoniano Kaspar Jancis. Sobre este filme, o curador registra: “trata-se de uma linda animação de bonecos em stop motion”. E lembra que o Anima Mundi promoverá “pré-estreia especial do longa ‘Playmobil’, produção franco-alemã dirigida por Lino di Salvo, com distribuição garantida, no Brasil, pela Paris Filmes.

No terreno do curta-metragem, tradição sedimentada do Anima Mundi, Marcos Magalhães promete “variedade e qualidade incríveis, espalhadas por cinco mostras competitivas (curtas, curtas infantis, filmes de encomenda, experimentais, filmes de estudantes) e não-competitivas (panorama, escolas de animação, futuro animador)”.

“São filmes” – constata – “com temáticas intrigantes como redes sociais, sexualidades, meio ambiente, relacionamentos humanos, política, economia, terror e, claro, muita comédia”. Magalhães registra a presença de “muitas animações baseadas em histórias reais”. Por isto, “as melhores foram selecionadas para nova competição (melhor documentário animado), cujo prêmio será atribuído pelo júri popular do festival.

Nunca é demais lembrar que, cada vez mais, a animação se integra à narrativa do cinema documental. No Brasil, tal diálogo ganhou fôlego depois de êxito de “Dossiê Rê Bordosa”, de César Cabral, selecionado para o É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários de São Paulo, em 2008. Quem consultar o catálogo da Netflix verá que documentário sobre o compositor de blues, Robert Johnson (1911-1938), “um artista pactário com o diabo”, foi construído em sua quase totalidade com cenas animadas.

 

27º Anima Mundi
No Rio de Janeiro, de 17 a 21 de julho (Centro Cultural Banco do Brasil e Estação Botafogo-NET)
Em São Paulo, de 24 a 28 de julho (Itaú Cultural, Unibes, Cine Belas-Artes, entre outros).
Mais informações: www.animamundi.com.br.

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