Por Maria do Rosário Caetano

Três informações apavoraram os meios cinematográficos e o jornalismo cultural brasileiro nos últimos meses: o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro – que, em novembro, realiza sua edição de número 52 – apresentaria uma Mostra de Filmes Religiosos, perderia sua tradicional Mostra Brasília, criada há 23 anos e, por fim, o seria boicotado pelo segmento mais experimental (autoral) da produção.

A primeira informação (ou boato) caiu por terra no final de agosto, quando Adão Cândido, titular da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF, apresentou – junto com o quinteto que comandará a quinquagésima-segunda edição do festival – quadro panorâmico do que se verá, na capital brasileira, no Cine Brasília e cidades satélites, de 22 de novembro até primeiro de dezembro.

Em síntese, Cândido, presidente do festival, e seus cinco auxiliares (Érica Lewis, secretária-adjunta de Economia Criativa, Pedro Lacerda, assessor de cinema, e o novo trio curatorial – Marcus Ligocki, Anna Karina de Carvalho e Thiago Bellotti) garantiram: 1. O Festival selecionará sete longas-metragens e 14 curtas pautados pela pluralidade (“diversidade de gêneros e olhares”), 2. Haverá uma mostra (Território Brasil) que exibirá filmes de todas as unidades da Federação, 3. Serão distribuídos prêmios em dinheiro no valor de R$580 mil (sendo R$240 mil para a Mostra Brasília), 4. As inscrições irão até esta sexta-feira, 13 de setembro, e os títulos selecionados serão anunciados até 15 de outubro, 5. O Instituto Alvorada Brasil continua sendo o parceiro do evento e o responsável pela busca de patrocínios financeiros, 6. O festival buscará o fortalecimento de “aspectos ligados ao negócio e ao mercado do audiovisual”.

Como se vê, pelas coordenadas anunciadas mês passado, não há a mínima referência a uma possível mostra de filmes religiosos. Há, isto sim, uma boa ideia: apresentar, em Brasília, centro geopolítico do país, uma mostra panorâmica do que se faz, no terreno do audiovisual, por todos os Brasis. Haverá, sem dúvida, muito a mostrar, pois a produção regional (incentivada pela CONNE – Conexão Norte-Nordeste-Centro-Oeste, organismo que luta com bravura por políticas públicas) está vivendo uma primavera. Prova disto é a força do cinema pernambucano, que já dura quase duas décadas, e o boom verificado ano passado, na Paraíba, e este ano no Ceará (o Estado venceu o Festival de Gramado, com “Pacarrete”, de Allan Deberton, e o Cine Ceará, com “Greta”, de Armando Praça).

No que diz respeito à Mostra Brasília, dedicada a longas e curtas realizados no Distrito Federal, por produtoras locais, a situação complicou-se poucos dias depois da coletiva de Adão Cândido e seu quinteto audiovisual. A Câmara Legislativa do DF, o parlamento brasiliense, avisou, justo na hora de lançar as inscrições de filmes, que o projeto (realizado durante 22 anos) não era prioridade e não contaria com os recursos (R$240 mil) para premiar os filmes.

Depois de quase três semanas de suspense, o comando do festival avisou que o BRB (Banco de Brasília) vai patrocinar a mostra candanga, responsabilizando-se pelos prêmios em dinheiro. Decerto, um longa-metragem exibido em Gramado – “O Homem Cordial”, de Iberê Carvalho, protagonizado por Paulo Miklos – será um dos concorrentes. O filme chega com dois Kikitos na bagagem.

Sobre o boicote de segmentos ligados ao cinema independente e mais autoral, há que se aguardar. As inscrições terminam nesta sexta-feira. Só aí, então, a Comissão Curatorial saberá quantos filmes se inscreveram. E se a hegemonia do “cinemão” dará o tom dominante.

O que se pode afirmar, com segurança, é que não faltarão filmes para a edição de número 52, pois a produção brasileira ainda está aquecida (as consequências das intervenções do Governo Bolsonaro só devem se fazer sentir nos próximos anos). E – há que se lembrar – falta de filme apavorante mesmo foi a que se verificou na primeira metade da década de 1990, quando o Governo Collor desmontou a Embrafilme e o Concine.

Naqueles que foram os anos mais difíceis da história do festival (e do cinema brasileiro), encontrar seis filmes para a competição era uma operação de guerra. Houve ano em que foram anunciados seis longas-metragens, mas só apareceram, na hora do frigir dos ovos, cinco, pois um dos selecionados, dirigido pelo paranaense Talício Cirino, não ficara pronto em tempo hábil.

A situação tornou-se tão grave, que o Festival de Gramado foi obrigado a internacionalizar sua programação, tornando-se latino (com curadoria do cineasta Walter Hugo Khouri). Hoje, com o Brasil produzindo (por enquanto) média de 150 longas (ficcionais, documentais e de animação) por ano, há produção suficiente para alimentar dezenas de competições, pelo país a fora.

Nos últimos anos, o festival (criado, em 1965, por Paulo Emilio Salles Gomes e equipe) priorizou, em suas seleções (em especial na gestão do secretário Guilherme Reis e sob curadoria de Eduardo Valente), o cinema mais autoral. Ao agir assim, a curadoria aproximou a programação brasiliense do perfil da Mostra de Cinema de Tiradentes.

A nova trinca (na verdade um quinteto) curatorial garante que, nos quatros anos do Governo Ibaneis Rocha (MDB-DF), se “pautará pelo pluralismo”. Aguardemos, pois, meados de outubro, quando serão anunciados os sete (e não mais os dez dos últimos anos) longas que disputarão os troféus Candango e prêmios em dinheiro.

Este ano, o Festival de Brasília acontecerá em sua pior data, pois realizará sua noite de premiação num tardio primeiro de dezembro. O germe do evento nasceu, como ideia, na gestão do poeta Ferreira Gullar (Governo Jânio Quadros) para acontecer na primavera. Ou seja, em setembro, no Cine Brasília, Cine Cultura e Auditório da Escola Parque da 508 Sul, patrimônios da jovem capital que nascia. Mas problemas de infraestrutura (grana!!) o fizeram mudar de data muitas vezes. Julho, setembro e novembro foram as mais recorrentes.

O mês de novembro, data da edição de número 52, foi opção compulsória dos piores momentos (década de 1990, em especial). Depois, o festival voltou ao mês da primavera. Agora, por falta de dinheiro e pelo atraso de lançamento dos editais necessários (inclusive o que estabelece parceria com o Instituto Alvorada), o adiamento tornou-se obrigatório.

Resta torcer para que, ano que vem, o mais tradicional e duradouro dos eventos do calendário cultural brasiliense volte à sua melhor data, a original e primaveril.

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