Entrevistas Slideshow — 25 setembro 2019
Silvero Pereira, o Lunga de “Bacurau”
Silvero no Festival de Vitória © Maria do Rosário Caetano

Por Maria do Rosário Caetano, de Vitória (ES)

O ator Silvero Pereira tornou-se conhecido nacionalmente quando interpretou o motorista Nonato, que à noite transformava-se na cantora drag queen Elis Miranda. Dois personagens, criados especialmente para ele, pela teledramaturga Gloria Perez, autora de “A Força do Querer”.

Desde maio, quando “Bacurau”, filme de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, estreou (e foi premiado) em Cannes, que a imagem de Silvero ganhou outros matizes. Coube a ele interpretar o visceral Lunga, mix de cangaceiro e chefe de facção. O personagem desta trama, que soma ficção científica, western e ação, regressa ao povoado de Bacurau para ajudar sua comunidade a enfrentar estranhas e muito bem-armadas forças de extermínio.

O ator encontra-se na capital capixaba para ministrar, ao longo desta semana, Oficina de Interpretação, para a qual a vigésima-sexta edição do Festival de Cinema de Vitória mobilizou trinta alunos. Silvero pretende passar aos oficineiros parte do conhecimento que acumulou em muitos anos de teatro e, agora, de TV e cinema. Mas avisa que encerrará as aulas em tempo de ir ao Centro Cultural Sesc Glória, no centro histórico, assistir a todos os filmes da competição oficial. É um cinéfilo apaixonado. Ao final da sessão de “Pacarrete”, que disputa o Troféu Vitória, ele foi abraçar seu conterrâneo, o diretor cearense Allan Deberton, e as atrizes Marcélia Cartaxo e Soia Lira.

“Fiz uma foto com Marcélia” (foto abaixo) — contou — “para colocar nas minhas redes sociais”. E justificou: “ela foi muito importante na minha vida de ator. Desde que a vi como a Macabéia (‘A Hora da Estrela’, de Suzana Amaral, 1985), que me identifiquei profundamente com ela. Macabéia somos todos nós, atores nordestinos”.

A mesma identificação se deu com a bailarina sexagenária que a atriz paraibana interpreta em “Pacarrete”. Para criá-la, Allan Deberton inspirou-se em personagem real de sua cidade interiorana, Russas. “Como também sou cearense do interior, enfrento os mesmos problemas e discriminações que ela, Pacarrete, enfrenta”.

No filme, a bailarina, já idosa, sonha em apresentar-se na festa do bicentenário de Russas, mas é rejeitada pela autoridades municipais, que preferem bandas do chamado forró de plástico. “Em Mombaça”— lembra Silvero — “também sou ignorado. Nunca fui convidado, pelo poder municipal, a me apresentar nos festejos de aniversário da cidade”. Nem depois do sucesso em “A Força do Querer”. Continuará assim, mesmo com a imensa visibilidade conseguida pelo personagem Lunga? Registre-se que o ator recebeu título de Cidadão Honorário de Fortaleza, por iniciativa da Câmara Municipal.

Silvero utiliza muito bem as redes sociais. Principalmente, em defesa de sua militância LGTB. E segue em frente, mesmo que Mombaça, onde viveu sua infância e parte da adolescência, o ignore. No final de outubro, início de novembro, ele irá ao Maranhão, atuar no filme “De Repente Drag Queen”. O convite lhe chegou semanas atrás e ele aceitou na hora. Por causa da importância da causa LGTB. “Nem tive tempo de guardar o nome do diretor”, pondera, mas “lá estarei para, com entusiasmo, fazer minha participação”.

No teatro, Silvero Pereira segue trabalhando, sem descanso, com o espetáculo “BR-Trans”. Tão logo termine a Oficina de Interpretação no festival capixaba, retomará temporada desta montagem em circuito pelo interior de São Paulo. Em dezembro, em Fortaleza, onde montou seu novo apartamento, ele e seus colegas do coletivo As Travestidas promoverão mais uma edição de festival teatral de fim-de-ano. Não um festival tradicional, com peças de outros municípios (ou Estados) e distribuição de prêmios. “Na verdade”— explica — “trata-se de um festival do nosso Coletivo. Aproveitamos o mês de dezembro para colocar em cartaz todo nosso repertório, que compõe-se com sete montagens”.

O ator torce para que este novo momento de sucesso, graças à repercussão de “Bacurau”, o leve de volta às telenovelas e ao elenco de outros filmes. Afinal, “estou pronto para novos desafios”. Deseja ser provocado e convocado a sair do “lugar de conforto” em que muitos o enquadram. Ou seja, em espetáculos LGBT.

“Entendo”— explica — “a luta das atrizes trans, que foram historicamente excluídas do mercado de trabalho. Esta causa é minha e luto junto com elas para que possam desempenhar as mais diversas personagens. Temos grandes atrizes trans, muito preparadas, inclusive em palcos internacionais, e só agora elas começam a receber convites que as desafiam”.

A foto abaixo, de Silvero encarnado em Lunga (torso nu, em tons amarelo-dourados e manchado de sangue), encapou a revista Teorema, do Rio Grande do Sul, e apareceu com destaque em cadernos culturais de grandes jornais. O personagem, andrógino, ainda assim passa a ideia de virilidade e força. E prova que o ator tem talento para enfrentar qualquer desafio, independente do gênero.

Visto de perto, Silvero Pereira parece ter bem menos que seus 37 anos. Com ideias sólidas e militância aguerrida pelas causas LGBT, ele compara os dois momentos que lhe renderam repercussão nacional, a novela da TV Globo e o Lunga de “Bacurau”.
“Foi maravilhoso interpretar dois personagens em ‘A Força do Querer’”, avalia. “A Glória Perez entendeu meu desejo de me desdobrar, dar vida ao motorista Nonato, um personagem comum, e a Elis Miranda, uma drag queen”. E mesmo sendo “a TV um espaço de entretenimento mais comercial, pudemos trabalhar com certa ambiguidade, buscar valores artísticos”. Em muitas conversas com Lilia Cabral e Humberto Martins, atores com quem contracenou em “A Força do Querer”, ele diz ter aprendido muito. E teve reconhecimento popular, graças ao imenso alcance das novelas da Globo.

Silvero conta que, agora, com a repercução de “Bacurau”, dá-se algo diferente, já que o cinema parece gozar de status artístico especial. “O Lunga me deu uma espécie de troféu, um espaço singular, enfim, reconhecimento artístico”.

Ele aproveita o bom momento para ampliar o alcance de seu trabalho, também no teatro, linguagem em que se formou (na escola e na vida profissional). Fez Artes Cênicas no Instituto Federal e, radicado em Fortaleza desde a adolescência, mantém-se um estudioso. “Gosto muito de ler, de ir ao cinema, de ver trabalhos dos colegas”.

Os vereadores que o prestigiaram com o título de “Cidadão Fortalezense”, podem ficar tranquilos. Ele é apaixonado pela cidade adotiva. E não tem planos de sair da capital de seu Estado para morar no eixo Rio-São Paulo. “As gerações anteriores à minha”— analisa — “sentiam-se obrigadas a deixar as capitais nordestinas para tentar a sorte no Rio ou em São Paulo”. Se não se mudassem, entendiam, nunca seriam convidados para novos papéis. “Agora, a situação mudou”. Os Estados do Nordeste “têm cenas teatrais e cinematográficas importantes”. E arremata: “quem pensa que o Nordeste ainda é sinônimo de seca, mandacaru e chão batido está por fora”.

Como prova de que o Nordeste está vivendo um grande momento em sua história cinematográfica (vide o sucesso de “Bacurau”, mais um título da poderosa safra pernambucana), ele avisou que depois de emocionar-se profundamente com “Pacarrete”, mal via a hora de assistir ao paraibano “O seu Amor de Volta (Mesmo que Ele Não Queira), de Bertrand Lira, também na competição de longas. “Tenho ótimas referências deste filme, estou ansioso para assisti-lo”.

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