Vera Fischer recebe homenagem do Festival de Vitória
© Renato Cabrini

Por Maria do Rosário Caetano, de Vitória (ES)

A atriz Vera Fischer, que fará 68 anos em novembro próximo, lançou e autografou, depois de movimentada coletiva de imprensa, o Caderno de Cinema número 18, narrativa sobre sua vida artística, produzida pelo Festival de Cinema de Vitória.

Na noite de ontem, 26 de setembro, ela recebeu, no palco do Centro Cultural Sesc Glória, principal cenário do festival capixaba, o Troféu Vitória “por sua trajetória no audiovisual brasileiro”. Trajava um longo negro, colado ao corpo e com imensa fenda lateral. Agradeceu, emocionada, mas sempre brincalhona, e quis entender o significado do troféu. Quando soube que ali estava “uma simbólica asa da Vitória”, ela colocou o trofeu sobre a cabeça, como se fosse uma coroa de miss.

Em março próximo, a atriz, que trabalhou em 20 filmes, 21 telenovelas, 5 minisséries e 12 peças de teatro, espera estar em plena filmagem de “Quase Alguém”, novo longa-metragem que a terá como protagonista. Na direção, o autor do argumento (um acerto de contas entre mãe ausente e filha carente) Daniel Ghivelder, na produção de Márcio Rosário e, assinando o roteiro, Sylvio Gonçalves.

Vera Fischer participou da conversa com os jornalistas, no Hotel Sesc Ilha do Boi, vestida com elegância ímpar e par de sapatos altíssimos, maquiagem discreta, cabelos louríssimos e beleza estonteante para uma mulher que se aproxima dos 70 anos. Não fugiu de nenhuma pergunta. Alfinetou “um ator e diretor careca, filho de uma grande atriz” que assegurou que ela não tinha talento para ser atriz. Alfinetou, também, Xuxa Meneghell, que retirou o filme “Amor Estranho Amor”, de Walter Hugo Khouri, de circulação. E, sem apelar a nenhum clichê do tipo “gosto de todos os meus trabalhos”, destacou, sim, os que julga os melhores. A maior parte deles feitos para TV.

Na telinha, ela destacou as minisséries “Desejo”, “Riacho Doce” e “Agosto” (todas com fonte literária), as novelas “Pátria Minha” (“a melhor de todas”), “Laços de Família” e a da “Jocasta” (“Mandala”), claro! No cinema, “Amor Estranho Amor, um filme bergmaniano”, “Intimidade”, que produziu e protagonizou com o primeiro marido, Perry Salles, e “Dora, Doralina”, adaptação de Rachel de Queiroz. E avisou: “estes dois filmes estão desaparecidos, não há cópias disponíveis”. No teatro, deu ênfase a seu melhor desempenho: “Lady MacBeth”. E completou com “Gata em Teto de Zinco Quente” e “Negócios de Estado”.

Abaixo, alguns dos melhores trechos da conversa dos jornalistas com a “indomável” estrela, que foi Miss Blumenau, Miss Santa Catarina e Miss Brasil, em 1969, atuou em diversas pornochanchadas, tornou-se atriz fetiche de Walter Hugo Khouri, protagonizou novelas e minisséries na poderosa Rede Globo, viveu amores tempestuosos, passou pelas drogas e pelas páginas policiais dos jornais:

— Vera, você não pensou em processar Xuxa quando, em 1991, ela conseguiu, pela via judicial, impedir a circulação de “Amor Estranho Amor”? Afinal, este filme rendeu a você o troféu Candango e o prêmio Air France de melhor atriz. Xuxa impediu a circulação de um longa-metragem, no qual você é a protagonista absoluta e ela, então atriz iniciante (que, na trama, inicia um adolescente no exercício do sexo), apenas uma coadjuvante. Você acabou prejudicada em seus direitos, não? Ou, por amizade, preferiu não reagir?
— Nunca fui amiga de Xuxa. Fui e continuo sendo amiga de Aníbal Massaíni, produtor do filme. Quando ela tirou “Amor Estranho Amor” de circulação, por sorte, ele já tinha feito carreira nos cinemas e sido lançado em locadoras. Claro que ela prejudicou o filme, impedindo que novas gerações o assistissem e vissem o trabalho de grandes atores como Tarcísio Meira, Iris Bruzzi, Mauro Mendonça, Walter Foster. Foi um desrespeito o que ela fez. Mesmo assim, nunca pensei em recorrer à Justiça contra ela. Agora, felizmente, pelo que me informou Aníbal Massaíni, Xuxa não recorreu no prazo devido (outubro de 2018), quando venceu o acordo judicial que o produtor teve que fazer com ela. Então, o filme voltará a circular.

— Mas você trabalhou, em 2002, no filme “Xuxa e os Duendes – No Caminho das Fadas”, com ela. Isto significa que foram amigas em determinado momento?
— Não, durante as filmagens ela nem olhou na minha cara. Fiz uma fada orelhuda (risos) para atender a um insistente convite do Papinha (o diretor Rogério Gomes), que me dirigiu na novela “Laços de Família”. Eu estava marrom, de tão bronzeada, curtindo meu sítio, perto, aliás, do local das filmagens. Papinha me ligou, insistiu, e disse que era uma participação especial, com poucas falas, só dois ou três dias de filmagem. Mas como vou fazer uma fada, se estou marrom, de tão bronzeada? Ele me garantiu que as maquiadoras dariam um jeito. Fui lá e fiz. Xuxa, na época, estava com o Luciano Zaffir, que também atuava no filme. Fiquei espantada com o tratamento que ela dava a ele. Dava ordens como se fosse a diretora do filme. Eu olhava para o Papinha como se indagasse: mas não é você o diretor? Ele sorria, pois sabia que Xuxa trabalhava daquele jeito, era a protagonista e produtora do filme. Fazia o que queria.

Vera Fischer na coletiva de imprensa com o livro em sua homenagem © Levi Mori

— Como você está vendo o momento cultural brasileiro? Afinal, os artistas e as instituições do cinema, caso da Ancine, são vistos como inimigos do Estado. Um funcionário da Funarte chamou Fernanda Montenegro de “sórdida“ e “mentirosa”.
— O Governo está com ódio dos artistas, raiva. Eles não querem saber de arte e de artistas. Nos vêem como se fôssemos uns demônios, como se fôssemos vilões. Para eles, a arte é algo pernicioso. Artista pensa, escreve. Não querem que eles pensem, nem escrevam. É um ódio geral, querem acabar com a Ancine. Para eles, somos salafrários, ladrões. Não sei como saíremos deste perrengue. Tem gente que, no teatro, está montando peças com dinheiro do próprio bolso. A TV tem seus meios para produzir. Como não faço parte de turmas, nem desta elite que continua produzindo, procuro saídas. Querem impor um teto de um milhão aos incentivos de leis de fomento. Isto complica bastante. Não queremos os 23 milhões, 26 milhões de ‘O Fantasma da Ópera’, mas necessitamos de mecanismos de fomento. Vejam aí o caso “Marighella”, tá difícil. Queremos fazer nosso filme (“Quase Alguém”) e o jeito é sair com o pires na mão de empresa em empresa. Temos que resistir. Pela primeira vez, estou de queixo caído.

— O que você pode adiantar sobre este novo filme?
— O cinema no Brasil, de uns tempos para cá, só se interessou por filmes protagonizados por homens: Tropa de Elite, Cidade de Deus, Marighella. Praticamente, desapareceu o espaço para filmes mais existencialistas, como os de Walter Hugo Khouri, por exemplo. Então, “Quase Alguém” é um filme sobre mulheres. Eu vou interpretar uma mãe, atriz, da minha idade, que se desentende com a filha. Este é o principal conflito. O roteiro está sendo aperfeiçoado. Já gravamos um teaser com nossa proposta, dirigido por meu filho, Gabriel, formado em Cinema pela PUC. No primeiro semestre de 2020, vamos filmar. (O produtor do filme, Márcio Rosário, garante que há investidores da Rússia, “país onde Vera tem um imenso fã-clube, por causa das telenovelas”, interessados em investir no novo longa da atriz).

— O que significou para você a minissérie “Riacho Doce”? E “Desejo”, sobre a trágica Ana de Assis, mulher de Euclides da Cunha?
— Momentos marcantes da minha vida como artista. Aquela história de José Lins do Rego (“Riacho Doce”) é maravilhosa, surrealista. Filmamos durante quatro meses na Ilha de Fernando de Noronha. Num lugar desabitado. Não havia ninguém, só nós, os atores, e a equipe técnica. Do ponto de vista pessoal, houve algo muito importante: perdi o pânico que tinha de água. Eu não mergulhava de jeito nenhum, pois pensava que ia morrer. Como nunca fumei, descobri durante aqueles quatro meses de preparação e filmagem que podia ficar debaixo d’água, tinha um fôlego maravilhoso. O sol era nosso maquiador. Quatro meses deslumbrantes, ninguém para nos atrapalhar, algo fascinante, hipnótico. Luiz Fernando Carvalho, um dos diretores, respondeu à minha indagação: por que minha personagem olhava o sol e desmaiava? Ele me disse que ela era uma sueca infeliz lá na terra dela. Ao chegar ao Brasil e ver tanta beleza, tanto céu e tanto sol, ficou tocada, deslumbrada, a ponto de desmaiar. Entendi tudo. Comecei a gravar branquinha. Ao final de quatro meses eu estava roxa, de tão bronzeada. E aqueles golfinhos?!

— E a Ana de Assis, de “Desejo”?
— A Ana de Assis apareceu como um furacão dentro de mim. O texto (o roteiro) da Glória Perez era maravilhoso, impecável. Falávamos na segunda pessoa, “tu foste, tu vieste”. Pensei comigo: se eu não fizer este papel, vou morrer. Fiquei morena e coloquei lente para ficar com olhos pretos, tudo para ser Ana. Trabalhamos sem data de estreia, com liberdade para realizar um trabalho especial. Foi usada a steady-cam para realizar longos planos. Começávamos num determinado cenário, numa sala, passávamos pelo corredor, subíamos a escada e lá em cima havia outra câmara nos esperando. Só que, com duas semanas de filmagem, fui atropelada por um carro e quebrei o nariz. Fui ao Pitanguy, que me operou e pediu dois meses para o restabelecimento pleno. A direção da série me avisou que só esperaria um mês, senão eu seria substituída. Mais um dia que fosse seria impossível. Meu nariz estava igual ao do Bozo. Mas com um mês tirei o gesso e, com muita maquiagem e planos mais distantes, fui Ana de Assis. Depois, com direção de Carlos Manga, atuei em “Agosto”, baseada na obra de Rubem Fonseca. Um trabalho deslumbrante de composição do qual me orgulho muito.

— Você sofreu preconceito por ser uma ex-miss e modelo, que chegava ao cinema e à TV?
— Nunca fui modelo. Modelos são magérrimas, vivem à base de água e alface. Eu, alemã, tenho formas mais volumosas. Houve até, no comecinho de minha carreira, instante em que pensei ser modelo, mas desisti, pois nunca estaria dentro do padrão exigido. Quanto a sofrer preconceito, sofri, sim, e muito. Preconceito e censura brabos. Machismo pesado. Fiz pornochanchadas, que vistas hoje são umas gracinhas. Para enfrentar o que enfrentei, tive que ter cabeça e desenvolver um senso de humor ácido. Se eu não soubesse me virar, meu marido (Perry Salles) teria que dar porrada nos caras. O machismo era absurdo e eu não podia esperar o Me Too (risos). Tinha que agir, me defender. Muitos dos que me importunaram, já foram embora. Sobramos nós. Vivi sob 600 rótulos: deusa, diva, ícone… Hoje, olhando para trás, gosto destes rótulos. O que eu queria, aos 17 anos, era sair da minha cidade (Blumenau, em Santa Catarina). O caminho que se apresentou foi o de Miss. Ouvi muito não até me consolidar como artista. Um ator e diretor, que já era careca na época, e filho de uma grande atriz (Vera não o nominou, mas a referência é clara: Cécil Thiré, filho de Tônia Carrero), me disse que eu não tinha talento para ser atriz, que voltasse para casa. Imagina se eu tivesse acreditado nele. Não acreditei e segui em frente. Eu acredito em mim, sempre acreditei. Nunca tive pudor em ficar nua. Ah, o papel exige nudez? Quanto será pago pelo meu desempenho? Aceitei tantas vezes, porque sou alemã e para os alemães, o corpo não está aliado ao sexo. Corpo é corpo, sexo é sexo.

— Você atuou no filme “Navalha na Carne”, peça de Plínio Marcos, adaptada por Neville D’Almeida. Plínio gostava muito de você. Como se deu o contato entre vocês?
— O Plínio era uma pessoa maravilhosa. Ele escreveu o roteiro do filme, ia às locações, conversávamos, trocávamos ideias. Infelizmente, durante as filmagens, ele ficou mal e morreu. E, também e infelizmente, houve acréscimos bobos e impróprios ao filme. Mas há, em “Navalha na Carne”, uma sequência inspiradíssima, que é a da crucificação de Neusa Suely, minha personagem. Isto não estava no roteiro. Foi um insight do Neville. E eu adorei a ideia. Como aprendi com Perry Salles, ator tem que ajudar em tudo. Se precisar limpar o chão, preparar sanduíche, o que for, eu colaboro. Eu ajudei a produção a fazer o que fosse necessário, inclusive a coroa da crucificação. Como filmávamos na Lapa, no Rio, passamos a noite realizando aquela sequência. O resultado é maravilhoso. O que mais gosto no filme do Neville. Fiz dois filmes baseados em Nelson Rodrigues (“Bonitinha, mas Ordinária” e “Perdoa-me por me Traíres). Nos dois, há boas sequências.

— Como foi interpretar “A Superfêmea”, uma das muitas pornochanchadas nas quais você atuou?
— Na época (anos 1970), não sei se entendi bem aquele roteiro. Hoje, vejo o filme como uma comédia muito divertida e inteligente. Havia um cientista louco (Perry Salles), que queria fabricar uma mulher muito fértil. Eu era o tipo gostosona, embora sonhasse em ser magra. Mas não tinha jeito, pois sou curvilínea. Os filmes exigiam que eu usasse muito biquíni e roupas transparentes. Em “A Superfêmea”, contamos com a colaboração de Lenita e Olivier Perroy, dois artistas muito criativos. Eles criavam perucas e roupas muito loucas. Pois eu apareço no filme do Massaíni com o visual bem louco, aquelas perucas vistosas. Numa das cenas do filme, Sílvio de Abreu, hoje respeitado autor de telenovelas e, naquela época, ator, corria atrás de mim, com um terno xadrez e de peruca. Quando lembro disto, ele ri e diz que o melhor é esquecer. Pois bem, o cientista louco descobre a pílula da fertilidade e a superfêmea gera 100 filhos. E eu apareço com 100 bebês de plástico em volta de mim. Cartazes gigantescos da superfêmea, em biquíni sumário, estavam por todo lado. Eu passava de táxi pela região que concentrava grandes cinemas e via filas gigantescas, dobrando quarteirão. Claro que as pessoas, quando me assistiam, decerto pensavam em bater uma punheta. Eu tinha que aguentar aquela vergonha atroz (risos).

— E como os seus fãs a tratam?
— Com imenso carinho. Principalmente, o público de teatro, que é o que mais se aproxima do artista. Quantas vezes, em temporada por cidades Brasil adentro, vi fãs chegarem ao camarim com meus quatro livros, para pedir autógrafo. Fico comovida. O dia do meu aniversário é 27 de novembro. Pois, nesta data, anos atrás, eu estava em cartaz no Palácio das Artes, em BH. A sala estava lotada com 2 mil espectadores. Quando a peça terminou, todos cantaram parabéns. E tinha bolo e muitos presentes de fãs. Agora, surgiu a selfie. É muito pedido de selfie. “Gata em Teto de Zinco Quente” foi a montagem que inaugurou um belo teatro, todo de aço, em Palmas, capital do Tocantins. Chegamos todos os atores, o Ítalo Rossi… O governador e um coro infantil nos esperavam. As crianças nos receberam com uma chuva de pétalas de rosas. Foi emocionante, inesquecível.

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