Candidatos a vaga no Oscar internacional chegam aos cinemas brasileiros
“Parasita”, de Bong Joon-Ho

Por Maria do Rosário Caetano

A safra de pré-candidatos ao rebatizado Oscar de melhor filme estrangeiro – agora Oscar internacional – chega, com força, ao circuito de arte brasileiro. Nesta semana, estreiam “Parasita”, de Bong Joon-Ho, pré-candidato da Coreia do Sul, e “Retablo”, de Alvaro Delgado Aparício, do Peru.

Nas próximas semanas, estreiam o brasileiro “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz (que já pode ser visto em pré-estreias), o marroquino “Adam”, de Maryam Touzani, e o mexicano “A Camareira”, de Lila Avilés.

Já estão em cartaz “Papicha”, de Mounia Meddour, pré-candidata argelina, “A Odisseia do Tontos”, de Sebastián Borensztein (um legítimo “Darín movie”), da Argentina, e, em fase final de circuito (salas de algumas cidades brasileiras), “Dor e Glória”, de Pedro Almodóvar, pela Espanha. Outros postulantes ao Oscar internacional virão.

As apostas dão “Parasita” e “Dor e Glória” como presenças garantidas no Oscar internacional. Há quem acredite que o coreano pode figurar até entre os finalistas a melhor filme, a principal categoria do prêmios anual da Academia hollywoodiana.

O filme de Bong Joon-Ho é o fenômeno do ano. Ganhou a Palma de Ouro, em Cannes, vendeu 11 milhões de ingressos na Coreia (quase a mesma quantidade do blockbuster “O Hospedeiro”) e, na França, estourou. Vendeu quase 1,7 milhão de ingressos, mais que outros recentes palmaré, os francesas (“Entre os Muros da Escola”, de Laurent Cantet, com 1,618 milhão, e o provocante “Azul é a Cor Mais Quente”, de Abdellatif Kechiche, com pouco mais de um milhão de espectadores).

“Dor e Glória” é o filme de um Almodóvar maduro (que chegava aos 70 anos), com muito de autobiográfico, um ator em estado de graça (Antonio Banderas, Palma de Ouro em Cannes por seu desempenho) e uma tocante pegada homoafetiva. No Brasil, o filme vendeu 220 mil ingressos.

Para completar o quinteto de finalistas, apostadores arriscam no representante francês “Les Miserables”, de Ladj Ly (que dividiu o Prêmio do Júri com o brasileiro “Bacurau”), em “Atlantique”, detentor do Grande Prêmio do Júri , direção da senegalesa Mati Diop, sobrinha de Djibril Diop Mambéty (1945-1998), e em “Beanpole”, de Kantemir Balagov, pré-candidato da Rússia (melhor diretor e Prêmio Fipresci na mostra Un Certain Regard).

A se julgar por esta lista, Cannes será a fonte de todos os finalistas (até porque o premiado brasileiro na mostra Un Certain Regard – “A Vida Invisível” – também é lembrado quando a lista sobe para dez favoritos). Já Veneza, que premiou com seu Leão de Ouro o blockbuster “Coringa”, fonte de imensa e controvertida fortuna crítica, deve ver seu laureado na lista de recordista das principais categorias do Oscar.

Por que Inglaterra (com “O Menino que Descobriu o Vento”) e Austrália (com o doloroso “Empuxo”), países de expressão inglesa, realizam filmes qualificados a disputar as pouquíssimas vagas (apenas cinco, para produções oriundas de cem países)? Afinal, por falarem o mesmo idioma dos EUA (e de sua Academia de Artes, Ciências e Indústria Cinematográfica) seus filmes estão habilitados a concorrer em todas as categorias da cobiçada estatueta.

O crítico Chico Fireman tem uma resposta: “eles querem ganhar de algum maneira já que ‘falam’ inglês e não podem indicar filmes naturalmente seus. A Austrália sempre faz filmes no Sudeste Asiático. A Inglaterra ou vai de África (caso deste ano e do ano passado, com ‘Eu Não Sou uma Feiticeira’) ou de filmes em galês, que são mais raros, mas existem”.

O cineasta Fernando Meirelles está atento às mudanças processadas no seio da Academia hollywoodiana. Ele, que teve “Cidade de Deus” indicado a quatro Oscar (direção, roteiro, fotografia e montagem) e que viu sua atriz Rachel Weisz (de “O Jardineiro Fiel”) laureada com o Oscar de coadjuvante, tem rodado festivais no mundo inteiro com “Dois Papas”. Este filme, bem recebido, inclusive pela crítica norte-americana, pode receber indicações (quem sabe roteiro, do neo-zelandês Anthony McCarten, ou fotografia, de Cesar Charlone, ou montagem, de Fernando Stulz).

O realizador brasileiro entende que o novo presidente da Academia, David Rubin, “está fazendo um enorme esforço para que a premiação deixe de parecer algo da indústria norte-americana e passe a ser mundial”. Tanto que, “mês passado convidaram (para seus quadros de associados) 800 novos membros, a maioria vinda de fora dos EUA”.

“Fui a uma festa da Academia” – conta –, “mês passado, em Roma, onde estavam ilustres acadêmicos italianos: os cineasta Lina Wertmuller e Giuseppe Tornatore, o fotógrafo Vittorio Storaro, o compositor Ennio Morricone”. Meirelles viu a festa “como uma enorme homenagem ao cinema italiano” para aproximar seus associados peninsulares da Academia.

O diretor de “Dois Papas” (estreia dia 20 de novembro, em cinemas e no streaming, pela Netflix) destaca, “entre as mudanças promovidas pela Academia, a troca do nome da categoria que deixa de ser ‘melhor filme de língua estrangeira’ – acharam que “estrangeiro” é pejorativo – e passa a ser ‘melhor filme internacional’”.

“Há um grande movimento” – acredita Meirelles – “para tentar colocar o mundo na fita”. Ele vê duas motivações para tais mudanças: “o mundo hoje está menor mesmo (por causa da facilidade de comunicação) e, talvez, esta “movimentação constitua oportunidade para aumentar a audiência do evento”. Ou seja, os índices da transmissão da grande festa anual por TVs planetárias.

Historicamente, a Academia buscou nomes internacionais para laurear com sua cobiçada estatueta. Bergman, Fellini, Storaro, Morricone e Dante Ferretti são alguns deles. Mas a festa, até recentemente, continuava essencialmente dedicada ao cinema anglo-saxão, em especial ao norte-americano, seguido pelo inglês (e seus grandes filmes sobre a realeza).

Na era Trump, marcada pelo chauvinismo e perseguição aos mexicanos, a Academia ampliou seu olhar aos cineastas de seu vizinho ao sul do Rio Grande. Três deles foram premiados: Alejandro Gonzales Iñarritu e Guillermo del Toro (ambos com filmes made in USA: “Birdman” e “A Forma da Água”) e Alfonso Cuarón. Este com um filme 100% mexicano (história, atores, locações e idioma espanhol e indígena). O filme só não ganhou o Oscar principal, porque a Academia ainda não resolveu sua complicada relação com a Netflix, poderosa empresa dedicada ao streaming (o mais novo inimigo dos proprietários de salas de cinema).

O que um filme deve seguir para concorrer ao Oscar internacional? O crítico de cinema Ely Azeredo responde: “o Regulamento da Academia chamava de ‘melhor filme em outro idioma’, agora melhor filme internacional, aquele longa-metragem com, no mínimo, 50% do tempo (já estão aceitando também com 40%) de projeção falado em língua(s) que não seja(m) a inglesa”.

O Regulamento não diz se o filme deve ser ficcional. Prova disto é que a Macedônia do Norte indicou o poderoso “Honeyland”, de Tamara Kotevska e Liubomir Stefanov. O filme não aparece nas listas de favoritos a melhor longa internacional, mas brilha nas listas de candidatos a uma vaga de melhor longa documental.

Cada vez mais interessada em tornar-se um prêmio do cinema planetário, como os festivais de Cannes, Veneza e Berlim, a Academia aceita – em tese – avaliar qualquer filme que seja lançado nos cinemas norte-americanos por, pelo menos, uma semana. Foi assim com “Cidade de Deus”, indicado pelo Brasil e rejeitado pelo comitê da Academia no Oscar 2003. No ano seguinte, ele voltou à competição disputando quatro categorias nobres. Isto porque, fora lançado nos cinemas dos EUA. Teve, portanto, uma segunda chance.

Abaixo, as estreias das próximas semanas de pré-candidatos ao Oscar internacional.

Parasita – O sétimo longa-metragem de Bong Joon-ho, Palma de Ouro em Cannes, soma drama social e horror, entre outros gêneros (inclundo a comédia), de forma surpreendente. Consegue o que poucos filmes conseguem: atrair o grande público e ser valoriado pela crítica. Numa grande metrópole sul-coreana, as desigualdades sociais são imensas. Famílias pobres vivem em porões. Já as famílias burguesas, como a Park, desfrutam de mansões high-tec assinadas por grandes arquitetos. Um acaso permitirá que uma família pobre, formada por pai, mãe, um filho e uma filha ingressem, profissionalmente, numa rica mansão, sem que os donos e seus filhos saibam do grau de parentesco que os une. O rapaz torna-se professor de inglês da jovem burguesa. A garota pobre vai ministrar aulas de arte ao filho caçula dos Park. O pai torna-se motorista e a mãe governanta. Das relações entre os pobres e os ricos se construirão os 131 minutos desta pulsante narrativa. Estreia nesta quinta, 7 de novembro.

Retablo – O primeiro longa-metragem do jovem realizador peruano Álvaro Delgado-Aparício L. representa seu país na busca por uma vaga ao Oscar internacional. Vencedor do Festival de Cinema de Lima, o filme traz em seu elenco Júnior Bejar Roca, Amiel Cayo e Magaly Solier, ela, detentora de um Urso de Prata de melhor atriz, em Berlim, por “A Teta Assustada”. A trama, escrita por Delgado-Aparicio e Héctor Galvez e ambientada nos Andes, é protagonizada por um adolescente que aprende, com o pai, ofício dos mais importantes na cultura popular peruana: a criação de retábulos. As belas e coloridas caixas retratam cenas religiosas ou profanas e são vendidas para enfeitarem vitrines e, depois, residências ou museus. O garoto, de 14 anos, dedica-se ao rigoroso aprendizado até que algo, ligado ao pai, virá perturbar sua vida cotidiana. Perturbará, ainda mais, o remoto vilarejo, marcado pela religiosidade e extremamente conservador. Construído com delicadeza e síntese, o filme causou ótima impressão no público que o assistiu, ano passado, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Duração: 95 minutos.

A Camareira – Primeiro longa-metragem da diretora mexicana Lila Avilés, recebeu 10 indicações ao Ariel, o Oscar mexicano. Venceu como “melhor opera-prima” (filme de diretor estreante) e correu dezenas de festivais, mundo a fora. Sua protagonista, Eve (Gabriela Cartol, que lembra a protagonista de “Roma”, Yalitza Aparício), trabalha em hotel de alto luxo na Cidade do México. Tem um filho pequeno e dedica-se com afinco ao emprego. Seu sonho é subir na vida para dar conforto ao menino. E subir na vida, no seu caso, significa trabalhar no 42º andar do sofisticado hotel, onde hospedam-se os vips dos vips. Ela frequenta curso de aperfeiçoamento, espera a hora de herdar vestido vermelho esquecida por hóspede milionária, mantém amizade com a hilária Minitoy (Teresa Sánchez) e cuida do bebê de hóspede argentina, a maluquinha Romina (Agustina Quinici). O filme, de evidente pegada feminina, trata suas personagem com amor e delicadeza. Só mesmo uma cineasta-mulher para construir diálogos tão saborosos e atentos a particularidades do corpo feminino (vide a cena ligada à menstruação de Eve). Estreia dia 14. Duração: 102 minutos.

Adam – Longa-metragem de estreia da marroquina Maryam Touzani (também roteirista), representa o país magrebino na disputa por uma vaga no Oscar internacional. Duas mulheres, uma grávida e desesperada, Samia (Nisrin Erradi) depois de perambular em busca de emprego, vai parar na casa de outra, a viúva Abla (Lubna Azabal), que vive com a filha de oito anos, Warda (Doue Belkhaoud) da venda de pães de fabricação doméstica. A relação entre as duas mulheres será tensa. Samia tudo fará para ajudar Warda, que a acolheu, mas só por alguns dias. A desconfiada viúva não abre a guarda. Samia consegue, a muito custo, preparar pão saboroso, que atrairá clientela para Abla. Sem grandes reviravoltas, o filme se constrói com sentimentos sutis e nos envolve na vida cotidiana daquelas três mulheres. Maryam Touzani, que é casada com o cineasta Nabil Ayouch, foi atriz-protagonista e corroteirista de “Razzia”, dirigido por ele. Ao escrever o roteiro de seu primeiro longa, ela inspirou-se, em personagem real, uma interiorana que, ao descobrir-se grávida e abandonada pelo namorado, foge da família para tentar a vida em Casablanca. A jovem foi acolhida pelos pais da cineasta. Mais um filme de alma feminina. Estreia dia 14 de novembro. Duração: 98 minutos.

A Vida Invisível – O sétimo longa-metragem de Karim Aïnouz, representante brasileiro na disputa por uma vaga no Oscar internacional, baseia-se no romance “A Vida Invisível de Eunice Gusmão”, de Martha Batalha. O cineasta recriou, com imensas liberdades, a história de duas irmãs, a rebelde Guida (Júlia Stocker) e a filha exemplar, Eunice (Carol Duarte), que se querem muito. A primeira busca o amor romântico, a segunda, sonha tornar-se uma grande pianista. Em ritmo de “melodrama tropical”, banhado em cores fortes, em especial o vermelho, o filme registra a separação das duas irmãs. Guida vai parar na Grécia, levada por uma paixão, mas regressa, infeliz, ao Rio de Janeiro dos anos 1950, com um filho. Os pais conservadores das jovens, desenham para elas vidas invisíveis. Eunice casa-se com Antenor (Gregório Duvivier), também muito conservador, e leva vida medíocre. As duas moças tudo farão para reencontrar-se. Fernanda Montenegro (como Eurídice, já idosa) tem participação curta, mas notável. E Bárbara Santos também brilha. Estreia dia 21. Duração: 139 minutos.

 

FILMOGRAFIA DE BONG JOON-HO
(Coreia do Sul  – 1979)

2019 – “Parasita”
2917 – “Okja”
2013 – “Expresso do Amanhã”
2009 – “Mother – A Busca para a Verdade”
2006 – “O Hospedeiro”
2003 – “Memórias de um Assassino”
2000 – “Barking Dogs Never Bite”

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