Festival Aruanda festeja centenário do cinema paraibano
“Desvio”, de Arthur Lins

Por Maria do Rosário Caetano

O Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro inaugura sua décima-quarta edição nesta quinta-feira, 28 de novembro, apresentando concerto musical com trilhas sonoras de filmes realizados na Paraíba (“Salário da Morte”, de Linduarte Noronha, “Menino de Engenho”, de Walter Lima Jr, e “Romeiros da Guia”, de Carvalho e Ramiro) e a exibição, seguida de debate, do documentário “Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”, de Bárbara Paz.

O evento prossegue no Complexo Cinépolis do Manaíra Shopping, em João Pessoa, até dia 4 de dezembro. Os homenageados pelo festival, este ano, são a atriz Ingrid Trigueiro, de “Bacurau” e “Rebento”, o ator Flávio Bauraqui (“Quase Dois Irmãos”), os cineastas João Batista de Andrade (“O Homem que Virou Suco”) e Marcus Vilar (“Ariano, o Senhor do Castelo”), o escritor José Bezerra (também produtor de “Salário da Morte”), os produtores Lucy e Luiz Carlos Barreto e a empresária e fomentadora cultura Mônica Botelho.

Três mostras competitivas compõem o Festival Aruanda: a Brasileira (com cinco longas ), a Sob o Céu Nordestino (com seis produções) e uma de Curtas Nacionais e Nordestinos (com 14 títulos).

Na competição brasileira, estão duas ficções – “Desvio”, de Arthur Lins, e “Pacificado”, de Paxton Winters – e três documentários (“Partida”, de Caco Ciocler, “Barretão”, de Marcelo Santiago, e “Indianara”, de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa).

Na mostra Sob o Céu Nordestino, há cinco filmes em competição e um hors concours (“Giocondo Dias – Ilustre Clandestino”, de Vladimir Carvalho). Ano passado, esta competição, composta só com filmes paraibanos, chamou mais atenção que a mostra nacional. Acontecerá o mesmo este ano? A conferir.

A Paraíba, desta vez, tem apenas dois títulos no segmento regional do Aruanda: “O que os Olhos Não Veem”, ficção dirigida por Vânia Perazzo, e “Jackson na Batida do Pandeiro”, de Marcus Vilar e Cacá Teixeira, documentário sobre o rei do ritmo, Jackson do Pandeiro, nascido em Alagoa Grande, em 1919 (e falecido em 1982, em Brasília, onde fazia temporada de shows).

O Ceará, que está brilhando nos festivais e nas telas brasileiras com “Pacarrete”, de Allan Deberton, e “Greta”, de Armando Praça, participa com dois longas documentais, “Soldados da Borracha”, de Wolney Oliveira, e “Currais”, de Sabina Colares e David Aguiar. Pernambuco completa a lista de concorrentes com “Frei Damião, o Santo do Nordeste”, de Deby Brennand.

Lúcio Vilar, diretor do Festival e professor da Universidade Federal da Paraíba, lembra que, este ano, o Aruanda vai homenagear o Centenário do Cinema Paraibano. Foi em 1919, que a chamada Sétima Arte, já se aproximando dos 25 anos, chegou à Paraíba. Pioneiros, começaram a produzir pequenos registros da vida fabril, social e cultural no Estado.

“Ao longo do século XX” – lembra Vilar –, “o DNA de nossa produção foi o cinema documental”. No século XXI, “deu-se a emergência da narrativa ficcional”. Para concluir: “estamos vivendo um ótimo momento, com produção de curtas, médias e longas-metragens documentais e ficcionais”. E o Aruanda “tem sido a vitrine privilegiada destes filmes”.

Para marcar o Centenário do Cinema Paraibano, o festival organizou, em parceria com a Universidade Federal, um amplo seminário. Serão analisados os ciclos do documentário social, que teve em Linduarte Noronha e seu seminal “Aruanda” e nos curtas de Rucker Vieira, Vladimir Carvalho e João Ramiro Mello seus nomes mais importantes.

Um grande painel, com realizadores e estudiosos, analisará “Os Arranjos Regionais: a Experiência do Polo Audiovisual da Zona da Mata de Minas Gerais”, em busca de “convergências e prospecções de parceria a ser construída”. Ou seja, troca de experiências e coproduções entre mineiros e paraibanos. Haverá, ainda, reunião do Fórum do Audiovisual Paraibano, para que produtores, realizadores e técnicos locais analisem mecanismos de fomento regionais e nacionais (isto, num momento em que o Governo Federal paralisou Editais Públicos e aportes a Fundos Setoriais) .

Para culminar com chave-de-ouro as reflexões e comemorações sobre o ano do Centenário do Cinema Paraibano, será lançada a plaquete “Linduarte Noronha, Ícone da Radiofonia Paraibana”, organizada por Naná Garcez (a partir de entrevista realizada, em 2006, por Lúcio Vilar com o cineasta) e publicada pela Editora A União.

O Festival Aruanda será palco, também, do lançamento do livro “Mulheres Atrás das Câmeras – As Cineastas Brasileiras de 1930 a 2018”, organizado por Luiza Lusvarghi e Camila Vieira e editada pela Estação Liberdade. Trata-se de publicação pioneira, que estuda a produção de diretoras com mais de cinco longas-metragens em sua filmografia e traz um anexo com 300 verbetes sobre todas as cineastas que dirigiram pelo menos um filme de longa duração nas últimas nove décadas.

Quatro nomes com grandes serviços prestados ao cinema brasileiro serão homenageados e terão filmes exibidos no festival paraibano. Caso do mineiro-paulista João Batista de Andrade, do ator Flávio Bauraqui e do casal de produtores, Lucy e Luiz Carlos Barreto, que receberá um Troféu Aruanda pelo conjunto da obra.

Barretão, que é tema de filme de mesmo nome, produzido pelo Canal Brasil, terá sua trajetória avaliada em painel intitulado “O Cinema Brasileiro, de Vidas Secas e Terra em Transe a Bacurau – Entre a Poesia, o Mercado e a Política”. Depois que o próprioBarreto apresentar reflexões sobre sua longa estrada (ele tem 91 anos), os documentaristas Vladimir Carvalho e Emília Silveira, o escritor Fernando Morais, o produtor Cesar Piva, do Polo Audiovisual da Zona da Mata-MG, e o professor Fernando Trevas (UFPB) analisarão suas realizações como diretor de fotografia, produtor e cineasta (ele dirigiu o longa-metragem “Isto É Pelé”, em parceria com Eduardo Escorel, em 1970).

João Batista de Andrade, que está completando 80 anos, receberá um Troféu Aruanda especial e apresentará, ao público, duas sessões com alguns de seus principais filmes. Primeiro, o longa-metragem “O Homem que Virou Suco”, Medalha de Ouro no Festival de Moscou,em 1980, protagonizado pelo ator paraibano José Dumont. Depois, em sessão intitulada É Proibido Proibir!, serão mostrados dois de seus curtas censurados pela ditadura militar: “Liberdade de Imprensa”, realizado em 1968, “Restos”, de 1975. O cineasta participará, ainda, dos “Diálogos Aruanda”, no painel intitulado “João Batista de Andrade, 80 Anos: ‘Cinema de Militância’, entre o Real e o Ficcional”.

O ator Flávio Bauraqui, de “Madame Satã” e “Quase Dois Irmãos”, fará palestra sobre tema mais que necessário, urgente: “A ‘luta corporal’ de um ator negro no Brasil”. O público poderá rever o trabalho dele, na pele de Tabu, amigo próximo dos personagens de Lázaro Ramos (Madame Satã) e Marcélia Cartaxo (Laurita).

Competição nacional

. “Desvio”, de Arthur Lins (ficção, PB)
. “Pacificado”, de Paxton Winters (fic, RJ)
. “Barretão”, de Marcelo Santiago (doc, RJ)
. “Partida”, de Caco Ciocler (doc, SP)
. “Indianara”, de Chevalier e Barbosa (doc, SP)

Competição Nordestina

. “O que os Olhos Não Veem”, de Vânia Perazzo (fic, PB)
. “Jackson na Batida do Pandeiro”, de Vilar & Teixeira (doc, PB)
. “Soldados da Borracha”, de Wolney Oliveira (doc, CE)
. “Currais”, de Sabina Colares e David Aguiar (doc, CE)
. “Frei Damião, o Santo do Nordeste”, Deby Brennand (doc, PE)

Hors concours

. “Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”, de Bárbara Paz (SP)
. “Giocondo Dias – Ilustre Clandestino”, de V. Carvalho (DF)
. “Barato de Iacanga”, de Thiago Mattar (SP)

Curtas-metragens nacionais

. “Brasil, Cuba”, de Bertrand Lira e Arturo Garza (Doc -PB)
. “No Oco do Tempo”, de Antonio Fargoni (Fic-PB)
. “Quitéria”, de Tiago A. Neves (Fic-PB)
. “Grande Amor de um Lobo”, de K. Rogis e A. Barbosa (Fic-RN)
. “Nadir”, de Fábio Rogério (Doc-SE)
. “Nuvem Negra”, de Flávio Andrade (Fic-PE)
. “Apenas o que Você Precisa Saber sobre Mim”, de Augusta Nunes (Fic-SC)
.”De Longe, Ninguém Vê o Presidente”, de Rená Tardin (Doc -RJ)
. “Um Café e Quatro Segundos”, de Cristiano Requião (Fic-RJ)
.”Travelling Adiante”, de Lucio Branco (Doc-RJ)
. “Balão Azul”, de Alice Gomes (Fic-RJ)
. “Um”, de Daniel Kfouri e João Castellano (Doc-SP)
. “Gravidade”, de Amir Admoni (Anim – SP)
. “Nervo”, de Pedro Jorge e Sabrina Maróstica (Fic – SP)

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