Festival Mimo apresenta “Sambalanço, a Bossa que Dança”
Cena do filme “Sambalanço, a Bossa que Dança”

Por Maria do Rosário Caetano

Entre as muitas atrações cinematográficas do Festival Mimo de Cinema, que realiza sua décima-sexta edição em várias cidades, está “Sambalanço, a Bossa que Dança”, dirigido por Fabiano Maciel, e roteirizado pelo crítico musical Tárik de Souza.

Esse longa documental de nome balançante e aliciante será exibido ao público neste sábado, 30 de novembro, às 18h, no Cine Odeon, na Cinelândia carioca. Fabiano é autor de vários curtas (“Vaidade”, “Pracinha”, “A Língua da Língua”) e de um ótimo longa-metragem, “A Vida é um Sopro”, sobre a trajetória do arquiteto Oscar Niemeyer (1907 -2012). Atualmente, ele conclui a série de TV “Cidades de Cinema”.

Tárik de Souza, jornalista, pesquisador e escritor, é autor de vários livros sobre nossa música popular (“Rostos e Gostos da MPB”, “Som Nosso de Cada Dia”, “Tem Mais Samba – Da Raiz à Eletrônica”) e um dedicado à trajetória do cartunista e ativista Henrique de Souza Filho, o Henfil (1944-1988), de quem foi amigo próximo e colega de trabalho.

“Sambalanço, a Bossa que Dança” marca a estreia de Tárik como pesquisador e roteirista de um longa-metragem. Na condição de “depoente”, ou seja, de entrevistado de documentários musicais, ele marca presença em vários projetos já mostrados nos cinemas ou em canais de TV. Como “Coisa Mais Linda”, de Paulo Thiago, “Fabricando Tom Zé” , de Décio Matos Jr, “O Homem que Engarrafava Nuvens”, de Lírio Ferreira, “Arnaldo Baptista – Loki” e “Cássia Eller”, ambos de Paulo Henrique Fontenelle, “”Raul Seixas, o Início, o Fim e o Meio”, de Walter Carvalho, “Vento Bravo – Edu Lobo”, de Regina Zappa e Beatriz Thilmann, “7 Vezes Bossa Nova”, série de TV de Belisário Franca, e “Som, Sol & Surf em Saquarema”, de Hélio Pitanga. Ele colaborou, ainda, com seu testemunho sobre Henfil, nos documentários ”Três Irmãos de Sangue (Betinho, Henfil e Francisco Mario)”, de Ângela Reigner, e “Henfil”, de Ângela Zoé.

Tárik apresentou, no Canal Brasil, o programa “MPBambas” e integrou a equipe de pesquisadores e roteiristas do longevo (e imperdível) “O Som do Vinil”, de Charles Gavin.

O cineasta Fabiano Maciel dirigiu “Sambalanço, a Bossa que Dança” para a TV Zero, produtora carioca que soma, em seu acervo, importantes documentários e ficções sobre grandes nomes da MPB (incluindo duas versões sobre a trajetória de Wilson Simonal, uma ficcional e outra documental).

Ao ler os originais do livro que Tárik dedicou à turma de Orlandivo e outros sambalanceiros (“Sambalanço, a Bossa que Dança – Um Mosaico”, Editora Kuarup, 2016), Fabiano viu que havia ali material para um longa documental dos mais descolados. Diretor e roteirista se entenderam e colocaram mãos à obra. O processo, porém, “foi longo e árduo” – registra Tárik –, “pois a fase de finalização do filme coincidiu com este momento em que há explícita má vontade do Governo Bolsonaro com o fomento ao audiovisual brasileiro”.

O roteirista lembra que a ideia do filme nasceu praticamente junto com a do livro. “Nossa intenção principal” – detalha – “é colocar na história da MPB um movimento musical não captado pelos radares de nossos teóricos, apesar do enorme sucesso popular que alcançou na época”.

Tárik lembra que “foi muito difícil encontrar material visual” sobre a turma do Sambalanço, já que “o movimento passou realmente despercebido”. O que tornou “tudo muito mais difícil e complicado”. Juntos, Fabiano e Tárik empreenderam “verdadeiro trabalho de arqueologia”.

Para complicar, há a complexa etapa de aquisição de direitos autorais junto aos compositores e/ou intérpretes (ou junto a seus herdeiros). Tárik, conhece bem o meio musical. Afinal, atuou no jornalismo musical brasileiro desde final dos anos 1960, quando integrou a equipe que fundou a revista Veja, e com José Américo Pessanha e José Ramos Tinhorão editou duas coleções da “História da MPB”, pela Abril Cultural (fascículos e discos de vinil).

“Há sempre muita dificuldade na aquisição de direitos autorais” – testemunha –, “pois além dos personagens principais (os criadores – compositores e intérpretes) há os intermediários, gravadoras, editoras, que nem sempre conseguem perceber que quanto mais dificultarem o acesso a seus filiados, mais os fazem desaparecer na memória já combalida de nossa cultura”.

O roteirista de “Sambalanço, a Bossa que Dança” destaca o personagem que, em sua opinião, mais rendeu no filme: “o Orlandivo, aliás um personagem bem central do movimento”. Tárik lembra que o compositor e intérprete catarinense, um legítimo carioca adotivo, “ainda chegou a ler e aprovar o livro, mas infelizmente faleceu antes do filme ficar pronto”.

Orlandivo Honório de Souza nasceu em Itajaí, em agosto de 1937, e faleceu no Rio, em fevereiro de 2017, portanto sete meses antes de completar 80 anos. Sua percussão de chaveiro (era especial sua bossa no manuseio musical de um conjunto de chaves) fez seu nome e (relativa) fama. Ele deixou discos sambalançantes como “A Chave do Sucesso”, “Sambaflex”, “Samba em Paralelo”, “Orlann Divo” e “Viagem ao Mundo da Lua”. Tárik adora o conceito “sambaflex”.

Fabiano Maciel e seu roteirista são unânimes nos elogios aos principais artistas do Sambalanço, pois todos foram “muito generosos e receptivos nas pesquisas do livro e nos depoimentos ao filme”.

Tárik destaca dois momentos que considera especiais de “Sambalanço, a Bossa que Dança”. Primeiro: “a participação absolutamente comovente do baterista Jadir de Castro, que contracenou com Brigitte Bardot em seu célebre filme de estreia (“E Deus Criou a Mulher”, Roger Vadim, 1956)”. Afinal, “ele já estava muito mal de saúde, mas fez questão de comparecer ao Beco das Garrafas, onde estávamos gravando, para dar seu depoimento.”

Segundo: “há uma cena raríssima no filme, o registro de espetáculo único do organista Ed Lincoln apresentando-se pela primeira vez em um teatro, o do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), dentro de série produzida por Henrique Cazes e apresentada por mim”. Tárik lembra que “Lincoln alcançou sucesso espetacular na vendagem de discos nas décadas de 1950 e 60, mas só se exibia em bailes. Tocava para que todos dançassem e nunca para ser visto por plateia sentada”. Ali, naquele teatro, “o público sentou-se para ouvi-lo e admirá-lo e, obviamente, no final, acabou caindo na dança”.

A pré-estreia carioca de “Sambalanço, a Bossa que Dança” deve contar com a presença de artistas octogenários como João Roberto Kelly, Elza Soares, Dóris Monteiro e Sílvio César, além da incansável Amanda Bravo, filha do compositor Durval Ferreira e atual diretora artística do Beco das Garrafas. Ela é uma das mais entusiasmadas difusoras do livro de Tárik e do filme de Fabiano Maciel. E da Bossa Nova, em suas diversas variantes.

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