São Miguel do Gostoso promove exibição de filmes na praia e laboratório de projetos
Longa-metragem "Fendas", do potiguar Carlos Segundo

Por Maria do Rosário Caetano

A Mostra de Cinema de Gostoso, que inaugura nesta sexta-feira, 8, sua sexta edição na pequena cidade potiguar de São Miguel do Gostoso, promoverá, em parceria com o BrLab e, pela primeira vez, o Gostoso Lab.

O mais festejado festival do Rio Grande do Norte realizará seu próprio laboratório para avaliar quatro projetos de longa-metragem (ficcionais ou documentais) em fase de desenvolvimento.

Os selecionados são “Almeidinha”, de Gustavo Guedes e Júlio Castro, “Noite Adentro”, de Diana Coelho, e “Reflexo”, de Felipe Ferreira da Silva e Ricardo Morais Nunes (três ficções). E o documentário “Calixto Passou por Aqui”, de Wallace Santos e Rodrigo Sena. Todos foram formatados para serem produzidos e realizados no Estado nordestino.

A Mostra de Gostoso continuará com suas competições de curtas e longas-metragens, que – caso único no Brasil – serão exibidos em imensa tela montada na Praia do Maceió, sob a luz do luar e das estrelas. O festival continuará, também, com suas atividades reflexivas (debates, seminários, mesas-redondas) e com oficinas de realização e produção de curtas-metragens.

Um dos últimos filmes produzidos pela Mostra, “O Grande Amor de um Lobo”, dirigido por Kennel Rogis e Adrianderson Barbosa, foi selecionado para vários festivais e conquistou o cobiçado Prêmio Aquisição Canal Brasil (troféu e R$15 mil), em agosto último, no Cine Ceará.

O terror-comédia "O Grande Amor de um Lobo", produção do Coletivo Nós do Audiovisual, de Sao Miguel do Gostoso

A Mostra de Cinema de Gostoso é promovida pela Heco Produções e Núcleo Nós do Audiovisual, em parceria com o Coletivo de Direitos Humanos, Ecologia, Cultura e Cidadania. A curadoria é assinada pelos cineastas Eugenio Puppo e Matheus Sundfeld.

Como o Estado do Rio Grande do Norte está empenhado em fomentar a produção de longas-metragens (não como cenário de realizações vindas da região Sudeste, mas com diretores e produtores locais), Eugenio Puppo entendeu ser chegada a hora de instituir o Gostoso Lab, concebido como espaço voltado à análise de projetos para o desenvolvimento e intercâmbio criativo de ideias.

Os quatro produtores potiguares submeterão seus projetos a laboratório semelhante aos que são promovidos em festivais espalhados pelo mundo inteiro. “Um laboratório” – explica Puppo – “configura-se como espaço de discussão coletiva em torno do argumento, da narrativa, da realização, da produção e da distribuição de um longa-metragem”.

Os participantes do Laboratório terão oportunidade de trabalhar sob orientação de experientes profissionais do audiovisual brasileiro, como a produtora Daniela Aun, na tutoria, Fernanda De Capua, no roteiro, e Marcelo Lordello, na direção. O produtor Rafael Sampaio, diretor e coordenador pedagógico do BrLab, assina a coordenação pedagógica.

Ao longo dos quatro primeiros dias, os representantes dos projetos selecionados participarão de atividades de discussão, recebendo consultorias individuais e participando de sessões coletivas e de programação que contarão com palestras e encontros com outros profissionais do audiovisual. No quinto dia, os selecionados serão submetidos a um pitching (apresentação, com solicitação de esclarecimentos, dos projetos a possíveis produtores/investidores).

São Miguel do Gostoso, antiga vila de pescadores situada na “esquina do Brasil”, tornou-se conhecida como a capital do kitesurf e do windsurf, entre outros esportes radicais praticados no mar e favorecidos pelo vento. Com a criação da Mostra de Cinema de Gostoso, o pacato município (de apenas 10 mil habitantes), chamou atenção por contar, ao longo de uma semana, com um cinema montado na areia da Praia do Maceió.

Por fazer parte dos 5.185 municípios brasileiros desprovidos de sala de exibição (os pouco mais de três mil cinemas do país estão concentrados em apenas 383 cidades), São Miguel dos Gostoso aproveita o festival para ver filmes projetados em tela de 12m x 6,5m, projeção com resolução 2K e som 5.1. Os espectadores podem escolher umas das 560 cadeiras (em formato de espreguiçadeiras) ou colocar esteira na areia e assistir ao filme deitados (nas laterais).

Ao longo do festival, o público assistirá a 60 filmes, entre eles dois grandes sucessos recentes do cinema brasileiro: “Bacurau”, dos pernambucanos Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, premiado em Cannes e visto, no circuito exibidor, por 700 mil espectadores, e “Pacarrete”, do cearense Allan Deberton. Este, ainda inédito, virou o xodó dos festivais desde que conquistou oito prêmios em Gramado.

Os filmes das mostras competitivas de curta e longa-metragem concorrem ao Troféu Luís da Câmara Cascudo, concedido por voto popular. Também serão concedidos prêmios de Finalização das empresas Mistika e Dot Cine, de Acessibilidade (das empresas ETC Filmes e Video Shack), de Aquisição para Distribuição (pela Elo Company), e o Prêmio da Imprensa Especializada.

“Fendas”, do potiguar Carlos Segundo, “Vermelha”, do goiano Getúlio Ribeiro, “Casa”, da baiana Letícia Simões, e o cearense “Pacarrete” disputarão o Troféu Câmara Cascudo, que homenageia o grande folclorista, antropólogo e pesquisador nascido em Natal, capital do Rio Grande do Norte, em 1898. Apaixonado pelo Brasil e pelo Nordeste, Cascudo morreu em sua cidade natal, em 1986.

"Sete Anos em Maio", filme de Affonso Uchôa

Um média-metragem (o mineiro “Sete Anos em Maio”, de Affonso Uchôa, diretor do festejado “Arábia”) e cinco curtas disputarão o Troféu Cascudo em sua categoria. São eles os potiguares “A Parteira”, de Catarina Doolan, e “Em Reforma”, de Diana Coelho, “Marie”, do pernambucano Leo Tabosa, “Quebramar”, da o paulista Cris Lira, e “Plano Controle”, da mineira Juliana Antunes.

Quem já foi à Mostra de Gostoso sabe que os filmes que mais divertem a plateia são produções da terra. Sim, o pequeno município já soma duas dezenas de curtas-metragens realizados por integrantes do Coletivo Nós do Audiovisual, formado com jovens da zona rural e urbana, preparados em sucessivas oficinas de formação técnica e artística. Todos têm temática local e, sejam documentários ou ficções, mobilizam moradores da “esquina do Brasil” (pescadores, barqueiros, artesãos, vendedores, cozinheiros, professores ou estudantes). Ao se verem na tela, os gostosenses caem no riso (muitas são as histórias que carregam no humor) e aplaudem com vontade.

Este ano, a Mostra Coletivo Nós do Audiovisual apresentará quatro curtas: as ficções “Ando me Perguntando”, de Clara Leal, e “Carta Branca”, de Rubens dos Anjos e Levi Jr, e os documentários “Júlia Porrada”, de Igor Ribeiro, e “Labirinteiras”, de Renata Alves.

Além das “Sessões Especiais” (com “Bacurau” e “A Noite Amarela”, do paraibano Ramon Porto Mota, a Mostra de Gostoso apresentará em seu segmento “Panorama” quatro longas-metragens e quatro curtas.

Três longas (todos documentais) são dirigidos por nomes femininos: “A Mulher de Luz Própria” (sobre a trajetória da atriz Helena Ignez), de Sinai Sganzela, “Chão” (um belo registro do cotidiano de trabalhadores que vivem em assentamento goiano do MST), de Camila Freitas, e “Diz a Ela que me Viu Chorar”, de Maíra Bühler. O paraibano Torquato Joel completa a programação com “Ambiente Familiar”, ficção sobre três rapazes que constroem novo arranjo familiar baseado em afetos e não em laços consanguíneos.

Os curtas da Mostra (informativa) Panorama são “Crua”, de Diego Lima (PB), “Looping”, de Maick Hannder (MG), “Imagens de um Sonho”, de Leandro Olímpio, e “Primeiro Ato”, de Matheus Parizi (ambos de SP).

Para formar plateia e mobilizar estudantes das escolas do município, a Mostra Infantil montou programa com doze curtas, muitos deles de animação: “As Invenções de Akins”, de Ulísver Silva (MS), “Lily’s Hair”, de Raphael Gustavo (GO), “Parabéns a Você”, Andréia Kaláboa (PR), “O Véu de Amani”, de Renata Diniz (DF), “Os Dois Lados da Moeda”, de coletivo carioca, “Cascudos”, de Igor Barradas e “Os Três Primos”, de Bruno Pereira, (os três do Estado do Rio), “Macaco Albino”, de Leandro Robles, “Os Chocolix”, de Elizabeth Mendes, “Não Acorde”, de Roberto Rogato, e “Um Beijo Para Sofia”, de Calleb Jangrossi (todos de São Paulo).

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