Festival do Rio premia novo filme de Hilton Lacerda
Os premiados do festival © Davi Campana

Por Maria do Rosário Caetano

O Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro premiou “Fim de Festa”, terceiro longa-metragem do pernambucano Hilton Lacerda, como o melhor filme de sua vigésima-primeira edição. Marcada pelo distributivismo, a premiação só atribuiu mais um Troféu Redentor ao seu principal laureado – o de melhor roteiro, escrito pelo próprio realizador. Nunca é demais lembrar que Lacerda é autor de roteiros de alguns dos mais festejados filmes do cinema brasileiro contemporâneo, de “Baile Perfumado” e “Amarelo Manga” aos longas que dirigiu ou codirigiu (“Tatuagem” e “Cartola”).

“Fim de Festa” inspira-se, livremente, em caso que marcou a crônica policial pernambucana, anos atrás: o assassinato a pauladas de jovem turista estrangeira, em tempo de festejos carnavalescos. A trama se passa entre a quarta-feira de Cinzas e o domingo, quando um homem (Irandhir Santos) investiga a tragédia.

O segundo filme mais premiado foi o carioca “A Febre”, que rendeu o Redentor de melhor direção a Maya Da-Rin e o Prêmio Especial do Júri (com ênfase no time de profissionais que assina o som direto, a edição de som e a mixagem). O longa de Maya iniciou sua vitoriosa carreira em festivais, pela Suíça (Prêmio Fipresci e melhor ator para Regis Myrupu, o protagonista, em Locarno) e seguiu conquistando o Troféu Candango no Festival de Brasília, entre muitas outras mostras competitivas.

O indígena Justino (Regis Myrupu, também premiado em Brasília) trabalha como segurança no Porto de Cargas de Manaus. Ele começa a sentir estranha febre ao saber que a filha Vanessa (Rosa Peixoto), técnica em enfermagem, foi aprovada no vestibular de Medicina da Universidade de Brasília (UnB) e, por isto, deve rumar ao Planalto Central, deixando-o na capital amazonense. Esta história, que mantém intenso diálogo com o cinema documental (e com a atmosfera dos filmes do tailandês Apichatpong Weerasethakul) vem encantando às mais diversas comissões julgadoras, sejam brasileiras ou internacionais.

Este ano, com edição realizada às vésperas do Natal e com recursos financeiros reduzidos drasticamente, o Festival do Rio não promoveu o tradicional Júri da Crítica, comandado pela Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema). O Júri Popular, sim, foi preservado, e o filme vencedor foi “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida”, de Jeferson De. Neste longa ficcional, um black movie, um jovem afro-brasileiro, estudante de Medicina, percebe que os corpos estudados nas aulas de Anatomia são pretos como o dele.

Os prêmios de melhores intérpretes ficaram com Regina Casé, melhor atriz pela doméstica empoderada e divertida, mas enrolada pelo patrão, de Três Verões”, e Fabrício Boliveira, melhor ator pelo angustiado taxista de “Breve Miragem do Sol”. Na categoria coadjuvante, os vencedores foram Juliana Carneiro da Cunha (por “Anna”) e Augusto Madeira, o prefeito ‘enrolão’ de “Acqua Movie”.

“Ressaca” recebeu o Troféu Redentor de melhor documentário e melhor direção (para a brasileira Patrizia Landi e o francês Vicent Rimbaux, radicado no Brasil há 18 anos). O filme estreou, em setembro último, no Cine Ceará, depois de percorrer diversos festivais internacionais. Sua premiação no Rio de Janeiro é mais que compreensível. Afinal, a dupla de diretores registra a crise financeira que se abateu sobre a Cidade Maravilhosa e deixou corpos estáveis do imponente Theatro Municipal (bailarinos, músicos sinfônicos, coro e funcionários) sem receber salário por muitos meses. Se tal condição é apavorante para qualquer cidadão, ela ganha ainda mais relevância no caso de bailarinos. Afinal, como jogadores de futebol, eles dependem da juventude para obter suas melhores performances.

O melhor curta, escolhido pelo Júri Oficial do Festival do Rio, foi “A Mentira”, de Klaus Diehl e Rafael Spínola. Já o público preferiu a animação “Carne” (SP), de Camila Kater, de grande beleza e invenção (feliz soma de documentário e filme animado, condição que o levou à seleção do IDFA, o poderoso Festival de Cinema Documental de Amsterdã, na Holanda).

Confira os vencedores:

LONGA-METRAGEM (FICÇÃO)

. “Fim de Festa” (PE-SP) – de Hilton Lacerda – melhor filme, melhor roteiro (Hilton Lacerda)

. “A Febre” (RJ) – melhor direção (Maya Da-Rin), Prêmio Especial do Juri (som direto, edição de som e mixagem

. “Breve Miragem do Sol” (RJ), de Eryk Rocha – melhor ator (Fabrício Boliveira), fotografia (Miguel Vassy), montagem (Renato Vallone)

. “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida” (RJ) – de Jeferson De – melhor filme pelo Júri Popular, menção honrosa do Júri Oficial

. “Três Verões” (RJ), de Sandra Kogut – melhor atriz (Regina Casé)

. “Anna”, de Heitor Dahlia (SP) – melhor atriz coadjuvante (Juliana Carneiro da Cunha)

. “Acqua Movie”, de Lírio Ferreira (PE-RJ) – melhor ator coadjuvante (Augusto Madeira)

LONGA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO)

. “Ressaca”, de Patrizia Landi e Vicent Rimbaux (RJ-França) – melhor filme, melhor direção

. “Favela é Moda”, de Emílio Domingos (RJ) – Melhor filme pelo Júri Popular, Menção honrosa do Juri Oficial

CURTA-METRAGEM

. “A Mentira”, de Klaus Diehl e Rafael Spínola – melhor filme

. “Carne” (SP), de Camila Kater – Melhor filme pelo Júri Popular

MOSTRAS ESPECIAIS

. “Sete Anos em Maio” (MG) – de Affonso Uchoa – melhor filme (Novos Rumos)

. “Chão” (DF-GO), de Camila Freitas – Prêmio Especial do Júri (Novos Rumos)

. “Revoada”, de Victor Costa Lopes – melhor curta (Novos Rumos)

. “A Rosa Azul de Novalis”, de Gustavo Vinagre eRodrigo Carneiro- Menção honrosa para Marcelo Diório, ator e co-roteirista (Novos Rumos)

. “Retrato de uma Jovem em Chamas”, de Céline Sciamma (França) – melhor longa internacional de ficção (Prêmio Felix LGBTQ+)

. “Lemebel, um Artista Contra a Ditadura Chilena”, de Joana Reposi Garibaldi (Chile) – melhor documentário (Prêmio Felix LGBTQ+)

. “Alice Júnior”, de Gil Baroni (PR) – melhor filme brasileiro (Prêmio Felix LCBTQ+), melhor filme pelo Júri Popular (Mostra Geração)

. “Bicha-Bomba”, de Renan de Cillo – Prêmio Especial do Júri (Prêmio Felix LGBTQ+)

. Menção honrosa para Camile Cabral, pela atuação em luta dos Direitos Humanos.

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