Globo de Ouro consagra “1917”
“1917”, de Sam Mendes

Por Maria do Rosário Caetano

“1917”, épico de guerra do britânico Sam Mendes, foi o grande vencedor da 77ª edição do Globo de Ouro, premiação atribuída pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood. O filme, baseado em experiência vivida pelo avô do cineasta durante a Primeira Guerra Mundial, foi eleito o melhor drama. E seu realizador, que 20 anos atrás ganhou o Oscar com “Beleza Americana”, levou a estatueta pela melhor direção. O filme estreia no Brasil no próximo 23.

O segundo filme mais premiado da noite dos Globos de Ouro foi “Era uma Vez em… Holywood”, tributo de Quentin Tarantino ao cinema, estrelado por Leonardo DiCaprio, intérprete de ator em fase de decadência, e seu fiel dublê de corpo (Brad Pitt). Além de melhor comédia, o longo filme do cultuado cineasta lhe rendeu mais um troféu pelo engenhoso roteiro (que evoca, ainda, a breve carreira de Sharon Tate, então mulher de Roman Polanski, assassinada, em 1969, por seguidores de Charles Manson). Brad Pitt foi eleito o melhor coadjuvante.

A noite, comandada pelo humorista britânico Rick Gervais, somou dois imensos agradecimentos de Ellen DeGeneris, homenageada por sua trajetória na TV e por sua luta pelos direitos LGBTQ+, e de Tom Hanks, laureado com o Trofeu Cecil B. DeMille, também por sua exitosa trajetória. A amiga Charlize Theron saudou o ator, que a dirigiu, jovenzinha, em “Tudo por um Sonho” (1996), lembrando o quanto ele era amado por todos, por sua generosidade e por representar, como poucos, o “homem comum”.

Tom Hanks reafirmou sua condição de intérprete ideal do “homem comum” ao falar que tomara muitos remédios para suavizar gripe que o atormentava e saudar a família, “esposa e cinco filhos muito amados”, que o olhavam, de mesa bem composta (e servida só com comidas veganas), com carinho e admiração.

A ausência de diretores negros e de nomes femininos entre os listados a melhor drama e melhor comédia ou musical não gerou protestos especiais. A festa foi branca e majoritariamente de olhos azuis. Mas há que se notar que alguns estrangeiros foram laureados. Caso do ator sueco Stellan Skarsgard, descoberto pelo público brasileiro no magnífico “Ondas do Destino” (Lars Von Trier/1996), da compositora islandesa Hildur Guônadottir, e de Ramy Youssef, de origem egípcia.

Num gesto de simbólica beleza, o coreano Bong Joon-ho subiu ao palco – para receber seu Globo de Ouro (pelo notável e favoritíssimo “Parasita”, melhor longa estrangeiro) – acompanhado de uma jovem tradutora. Agradeceu em sua língua materna e lembrou: “quando conseguirem superar a barreira das legendas, vocês vão descobrir filmes maravilhosos”. E arrematou: afinal, “todos nós falamos uma única língua, a do cinema”.

O tom dos discursos dominantes ao longo da noite priorizou três assuntos; a ameaça de guerra dos EUA de Donald Trump contra o Irã, depois do assassinato do General Qassem Soleimani, as queimadas na Austrália, resultado do desequilíbrio ecológico (“desastre climático”, como definiu a australiana Cate Blanchett) e a necessidade de se votar em novo dirigente para os EUA. Que “mobilizemos todos os nossos conhecidos”, sugeriu Patricia Arquette.

O laureado Joaquin Phoenix, o Jocker, vegano e oriundo de família hippie, ligada, portanto, à Natureza, foi mais longe: provocou (e convocou) os milionários colegas da indústria do cinema a abrirem mão de seus jatinhos particulares em sucessivos passeios a Palm Springs.

Michelle Williams, premiada por seu trabalho na série “Fosse/Verdon”, fez o mais feminista (embora discreto) dos discursos da noite. Defendeu o direito de escolha das mulheres e as convocou a votar em quem possa defender os interesses delas. Para arrematar: “ é isto que os homens têm feito” (defender os direitos deles).

Sam Mendes, ao receber o Globo de Ouro de melhor diretor, pagou tributo a Martin Scorsese, o mestre que, aos 77 anos, vem encantando o mundo com “O Irlandês”, seu poderoso retrato de gângsters que “pintam paredes” com sangue. “Não há diretor no mundo”, disse Mendes, “que não se apoie nos ombros de Martin Scorsese”.

O cineasta ítalo-novaiorquino não ganhou nenhum Globo de Ouro com seu vigoroso épico político-sindical-policial. Mesmo caso de “Dois Papas”, do brasileiro Fernando Meirelles. E de outro filme da Netflix, a comédia “Meu Nome é Dollemite”, protagonizada por um hilário Eddy Murphy (dos quatro filmes mais badalados da poderosa empresa de streaming, só “História de um Casamento” levou um Globo de Ouro e, mesmo assim, secundário: melhor atriz coadjuvante para Laura Dern).

Scorsese e Meirelles, porém, estão felizes com a imensa repercussão de seus filmes. “O Irlandês” está entre os dez programas mais acessados da cartela da Netflix. Já Meirelles calcula que 20 milhões de pessoas viram, até agora, seu bem-humorado, tolerante e imaginário diálogo entre dois pontífices, Bento e Francisco.

O Globo de Ouro mantém significativas diferenças com o Oscar. Preserva, em tempos de hibridismo de linguagens, extemporânea divisão por gêneros. E mais: não permite que longas-metragens de expressão não-inglesa participem das categorias de melhor filme (daí a ausência de “Parasita” entre os dramas), não se interessa pelo cinema documentário e abre espaço imenso para a produção televisiva. Ainda assim, tudo leva a crer que muitos dos filmes que destacou nesta edição – em especial “1917” – estarão na lista de finalistas ao Oscar, cujo anúncio se dará na próxima segunda-feira, 13 de janeiro.

Outra constatação óbvia: os prêmios de melhor ator e atriz dificilmente escaparão das mãos de Joaquin Phoenix, por seu dilacerado e ensandecido Coringa, e de Renee Zellweger, por sua recriação da trágica vida da cantora e atriz Judy Garland (1922-1969), que mergulhou nas drogas e viveu amores conflituosos. A jovem estrela de “O Mágico de Oz” morreu prematuramente, doze dias depois de completar 47 anos.

O namoro, cheio de altos e baixos, com a China deve continuar. Afinal, não se ignora um país de mais de um bilhão de habitantes, que vem investindo pesado no cinema. “A Despedida” (The Farwell), com elenco de origem chinesa e falado majoritariamente em idioma do grande país asiático, teve sua hora e sua vez na festa do Globo de Ouro. Os Correspondentes Estrangeiros premiaram a rapper Awkwafina como melhor atriz de comédia. O filme deve figurar em alguma categoria do Oscar.

Confira os premiados:

CINEMA

. “1917”, de Sam Mendes (Inglaterra/EUA) – melhor drama e melhor diretor

. “Era uma Vez em… Hollywood”, de Quentin Tarantino (EUA) – Melhor comédia (ou musical), melhor roteiro (Tarantino), melhor coadjuvante (Brad Pitt)

. “Coringa”, de Todd Phillips (EUA) – melhor ator de drama (Joaquin Phoenix) e melhor trilha sonora (Hildur Guônadottur)

. Rocketman”, de Dexter Fletcher (Inglaterra) – melhor ator de musical ou comédia (Taron Egerton), melhor canção (“I’m Gonna Love me Again”, de Elton Jones e Bernie Taupin)

. “Judy”, de Rupert Goold (EUA): melhor atriz de drama (Renee Zellweger)

. “A Despedida”, de Lulu Wang (China/EUA) – melhor atriz de comédia ou musical (Awkwafina)

. “Parasita”, de Bong Joon-ho (Coréia do Sul) – melhor filme em língua estrangeira

. “História de um Casamento”, de Noah Baumbach (EUA) – melhor atriz coadjuvante (Laura Derm)

. “Link Perdido”, de Chris Butler (Canadá/EUA) – melhor longa de animação

TELEVISÃO

. “Fleabag” (Inglaterra) – melhor série de comédia e melhor atriz (Phoebe Waller-Bridge)

. “Succession” (EUA) – melhor série de drama, melhor ator (Brian Cox)

. “Chernobyl” (EUA) – melhor telefilme, melhor ator coadjuvante (Stellan Skarsgard)

. “The Crown” (Inglaterra) – melhor atriz (Olivia Colman)

. “Fosse/Verdon” (EUA) – melhor atriz de minissérie ou telefilme (Michelle Williams)

. “The Loudest Voice” (EUA) – melhor ator de minissérie ou telefilme (Russel Crowe)

. “The Act” (EUA) – melhor atriz coadjuvante de minissérie ou telefilme (Patricia Arquette)

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