Martin Eden

Por Maria do Rosário Caetano

O longa italiano “Martin Eden”, baseado em livro homônimo de Jack London, chega ao circuito brasileiro nesta quinta-feira, 27 de fevereiro. Quem é leitor do escritor norte-americano, sabe que o cinema o tem como fonte inesgotável. Vide “O Chamado da Floresta”, ainda em cartaz e protagonizado por Harrison Ford, em papel que foi de Clark Gable (“O Grito da Selva”, 1935) e de Charlton Heston (“O Chamado da Floresta, 1972). Sem falar nas versões de “Caninos Brancos”, entre outras aventuras londonnianas, filmadas e refilmadas.

Luca Marinelli, colega de júri do brasileiro Kleber Mendonça nesta septuagésima edição do Festival de Berlim, dá vida ao protagonista Martin Eden, que tem muito do próprio Jack London (1876-1920). Por seu notável desempenho, conquistou o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza, ano passado.

O cineasta Pietro Marcello transporta as reflexões sobre arte e política de Jack London dos EUA para a realidade italiana. Martin Eden é um jovem napolitano de origem humilde, que mora com a irmã, também pobre, casada com grosseirão. Vive de trabalhos braçais, seja como pescador ou embarcadiço. Um dia, salva um jovem no porto. Agradecida, a família, rica e aristocrática, do rapaz recebe Eden em sua mansão. Mas incomoda-se com seus gestos rudes, seus hábitos sem nenhum refinamento.

A jovem Elena (Jessica Cressy), irmã do jovem a quem Eden socorrera, vai apaixonar-se pelo pescador e será correspondida. Inserido neste novo mundo, Martin Eden mergulhará na leitura de livros emprestados por Elena ou adquiridos em sebos. E começará a escrever de maneira febril. Ao tentar publicar seus contos e romances, receberá dezenas de negativas de revistas literárias e editoras.

Para agravar as angústias do aspirante a escritor, a família de Elena não desdenha apenas dos modos rudes e da origem social do namorado da filha. Vê com igual desprezo os sonhos literários do rapaz. Desesperado, sem dinheiro, ele começa a questionar o mercado editorial, a sociedade burguesa, que o discrimina, e até a duvidar de seu potencial criador. Esta é a primeira parte do filme, arrebatadora e fascinante.

Pietro Marcello, de 40 anos, experiente documentarista, faz de sua segunda obra ficcional (a primeira é “Bella e Perduta”, de 2015), um filme inventivo, narrado com a ajuda de inserções de arquivos históricos, embora não se aferre ao tempo histórico. Filmado em 16 milímetros, o filme ganha cores e texturas especiais. Os figurinos nos deixem em suspenso. Estamos no século XIX ou nas primeiras décadas do XX? Imagens em preto e branco (do mundo do trabalho, da faina marítima) se somam a registros de movimentos sociais. Somos imantados por atmosfera única e nos encantamos com a complexa vida artístico-política de Martin Eden.

Jack London, nunca é demais lembrar, foi garimpeiro na busca do ouro nas geleiras do Canadá e Alasca (às margens do Rio Yukon, cenário de seus conhecidíssimos “Caninos Brancos” e “O Chamado da Floresta”). Foi também embarcadiço. Sempre agarrado aos livros, inclusive no tempo de aventuras de juventude, ele leria ao longo de seus breves 40 anos de vida, inúmeros pensadores, entre eles Spencer (essencial em “Martin Eden”), Engels e Marx e aproximar-se-ia das ideias socialistas. Interessou-se, em profundidade, pelo mundo do trabalho, pelo imenso abismo que separava o proletariado da burguesia, pelas lutas coletivas e pelos sonhos individuais.

Se a segunda parte de “Martin Eden”, introduzida por poderosa e desconsertante elipse, fosse tão boa quanto a primeira, esse inquietante filme mereceria o status de obra-prima.

Duas observações finais: 1. O filme deve muito ao apoio do Projeto L’Imaginne Ritrovata, da Cinemateca de Bolonha, parceira de Martin Scorsese no restauro de clássicos do cinema mundial. Pietro Marcello registra o fundamental apoio recebido da instituição comandada por Marco Bellocchio e equipe. 2. Quem curtiu o longa “Como Água para Chocolate” (Alfonso Arau, 1992), ambientado na Revolução Mexicana de Zapata e Pancho Villa, decerto reconhecerá no elenco de “Martin Eden” o ator Marco Leonardi (par romântico de Lumi Cavazos nesta recriação da romântica novela de Laura Esquivel). Já quase cinquentão, Leonardi dá vida a Bernardo Fiori, o tosco cunhado de Martin Eden.

 

Martin Eden
Itália, 129 minutos, 2019
Direção: Pietro Marcello
Elenco: Luca Marinelli (melhor ator no Festival de Veneza), Jessica Cressy, Denise Sardisco, Carlo Cecchi, Marco Leonardi e Vicenzo Nemolato
Distribuidora: Pagu Pictures
A partir de livro homônimo de Jack London. Prêmio do Sindicato dos Críticos da Itália e melhor filme no Festival de Sevilha/Espanha.

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