Fim de Festa
© Victor Jucá

Por Maria do Rosário Caetano

Uma das quatro estreias brasileiras desta quinta-feira, 5 de março, é “Fim de Festa”, terceiro longa-metragem do diretor Hilton Lacerda, um dos mais festejados roteiristas do país (do nordestern “Baile Perfumado” aos cinco filmes de Cláudio Assis, passando pela “Festa da Menina Morta”, de Matheus Nachtergaele).

Pernambucano nascido no Recife, há 54 anos, Hilton dirigiu alguns curtas (caso de “Simião Martiniano, o Camelô do Cinema”) e estreou no longa-metragem com o documentário “Cartola – Música para os Olhos”, em parceria com Lírio Ferreira. Seis anos depois, estreava na ficção solo com o libertário “Tatuagem”, protagonizado, como “Fim de Festa”, por Irandhir Santos. Suas duas ficções conquistaram o Troféu Redentor, prêmio máximo do Festival do Rio.

Para construir o roteiro de “Tatuagem”, Hilton buscou em vivências de um grupo de teatro recifense a sua matéria-prima. Desta vez, o ponto de partida foi outro e bem diferente: um crime que despertou grande atenção da mídia (séria e sensacionalista) do Recife, dez anos atrás. No carnaval de 2010, uma turista alemã, Jennifer Kloker, foi assassinada em São Lourenço da Mata, na região metropolitana do Recife. A trágica morte da jovem teria sido encomendada pela sogra brasileira.

“Fim de Festa” não é, porém, um filme policial. É, em essência, um filme de afetos, de corpos em movimento, de liberdades e comportamentos pouco previsíveis. A trama, lacunar, se desenvolve entre a quarta-feira de Cinzas e o domingo. Os cinco dias são lembrados por sintéticas e, às vezes, enigmáticas palavras. Primeiro dia, “Cinzas”. Segundo: “Ele não sabia viver sem ela”. Terceiro: “Atropelos do acaso”, Quarto: “A Bout de Soufle”. Quinto e último: “Os civilizados”.

Findo o carnaval, hora do “fim de festa”, estamos no Recife de anos recentes. A população toma conhecimento do assassinato de uma jovem francesa, Emma (Maria Barreira). O policial Breno Wanderley (Irandhir Santos), que gozava de seu período de férias e estava viajando, chega de surpresa a seu apartamento, pois fora convocado às pressas para investigar a morte da turista. Depara-se com o filho Breninho (Gustavo Patriota) arranchado com mais três amigos – Penha (Amanda Beça) e o casal amigo Indiara (Safira Moreira) e Ângelo (Leandro Vila).

Com a cidade, dominada por prédios altos e centenas de janelas, captada em belos planos, Hilton vai revelando os pequenos segredos de seus personagens e desenterrando traumas do passado de Breno. Ele será confrontado, no exercício de seu ofício de investigador, pela ruidosa sogra da turista assassinada, Alice Garnier (Suzy Lopes). Com ela, comparecem aos interrogatórios (meios atordoados) o marido francês Jérome Garnier (papel que coube a Jean-Thomas Bernardini, distribuidor e exibidor franco-brasileiro) e o filho (Ariclenes Barroso).

O policial sofre, além da pressão da família da vítima, que questiona sua competência, as duras cobranças de um programa sensacionalista, o “Dracma”, daqueles que esguicham sangue. Numa das cenas mais belas do filme, o carente Breno Wanderley irá encontrar-se com a cunhada, gêmea de sua mulher (Hilton teve o capricho de batizar as irmãs de Cosma e Damiana, saborosa ‘feminização’ dos santos Cosme e Damião). Interpretada por Hermila Guedes, com a sensibilidade costumeira, a dupla pernambucana (ela e Irandhir) dá um show. Diálogos simples, pequenas carícias e lembranças imantam a atenção do espectador.

O filme reúne um time de profissionais de grande talento. Caso de Ivo Lopes Araújo, que assina as imagens, do montador Mair Tavares (em parceria com Pedro Queiroz) e da envolvente trilha de DJ Dolores. A poderosa voz de Júnior Black (o exagerado “Dracma”) e textos líricos (de Miró de Muribeca) ajudam a compor a sintética e elíptica narrativa de “Fim de Festa”.

Um detalhe curioso: por mera coincidência, já que os filmes foram realizados simultaneamente, um drone terá, na ficção de Hilton Lacerda, papel tão importante quanto o que vemos em “Os Miseráveis”, de Ladj Ly. No filme brasileiro, assim como no afro-francês, encontramos gente de muitas cores – negros, mestiços, brancos. A metrópole e sua gente se apresentam, vivas, em toda a sua variedade (social, étnica, sexual) aos nossos olhos. Isto dá ao filme um caráter quase documental.

 

Fim de Festa
Brasil, 94 minutos, 2020
Direção: Hilton Lacerda
Elenco: Irandhir Santos, Suzy Lopes, Gustavo Patriota, Amanda Beça, Safira Moreira, Leandro Vila Ariclenes Barroso, Hermila Guedes, Jean-Thomas Bernardini, Nash Laila, Conceição Camaroti e Gleyson Luiz
Produção: João Vieira Jr e Nara Aragão (Carnaval Filmes)
Distribuição: Imovision

 

FILMOGRAFIA
Hilton Lacerda (Recife, 12-08-1965)

Como diretor

1998 - “Simião Martiniano, o Camelô do Cinema” (curta-metragem, com Clara Angélica)
2007 – “Cartola – Música para os Olhos” (longa doc, com Lírio Ferreira)
2013 – “Tatuagem” (ficção solo)
2017 – “Fim do Mundo” (série de TV, com Lírio Ferreira)
2018 – “Lama dos Dias” (série de TV, com Helder Aragão)
2020 – “Fim de Festa” (ficção solo)

Como roteirista

1997 – “Baile Perfumado” (Lírio Ferreira e Paulo Caldas)
2002 – “Amarelo Manga” (Cláudio Assis)
2006 – “Baixio das Bestas” (Cláudio Assis)
2006 – “Árido Movie” (Lírio Ferreira)
2008 – “Filmefobia” (Kiko Goifman)
2008 – “A Festa da Menina Morta” (Matheus Nachtergaele)
2011 – “Capitães da Areia” (Cecília Amado)
2011 – “Estamos Juntos” (Toni Venturi)
2012 – “Febre do Rato” (Cláudio Assis)
2012 – “Augustas” (Francisco César Filho)
2015 – “Big Jato” (Cláudio Assis)
2020 – “Piedade”(Cláudio Assis)

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