Estreia TV Revista de Cinema — 10 março 2020
Nóis por Nóis

Por Maria do Rosário Caetano

“Nóis por Nóis”, quarto longa-metragem do cineasta baiano-paranaense Aly Muritiba – desta vez em parceria com Jandir Santin – estreia nesta quinta-feira, 12 de março. O filme acompanha a vida de jovens de Vila Sabará, comunidade periférica de Curitiba.

Quatro dos protagonistas do filme terão seus “destinos selados” após festa tumultuada por uma briga. Como acontece em grande parte dos longas e curtas de Muritiba, o aparelho policial tem participação de relevo na trama. O cineasta, formado em História pela USP, foi agente penitenciário e transformou sua duradoura experiência neste ofício em matéria-prima de suas criações audiovisuais.

O sintético e urgente “Nóis por Nóis”, que participou da competição oficial do Festival do Rio, em 2018, nasceu de iniciativa de Jandir Santin. Ele, ex-aluno de Aly Muritiba em curso de Roteiro, numa escola de cinema de Curitiba, levou um argumento ao professor.

“Jandir foi meu assistente de direção no curta “Brasil” – lembra Muritiba – “e me trouxe a ideia de realizarmos um filme ambientado na Vila Sabará, onde ele atuava como educador, usando o audiovisual como ferramenta. Gostei da ideia e começamos a trabalhar juntos”.

A dupla estruturou um pré-roteiro e iniciou a seleção de elenco entre jovens curitibanos, inclusive em Vila Sabará. Os pré-selecionados (vindos em especial do movimento negro da cidade e da turma rapper) participaram, então, de oficinas de interpretação. E, durante o processo, passaram a dar importante colaboração ao roteiro final, principalmente na ‘pegada’ e dicção dos diálogos.

Um dos escolhidos foi o jovem Matheus Moura, que interpreta, por causa de seus olhos puxados, o personagem Japa. Ele, que destaca-se entre o elenco jovem, vem firmando-se na cena cinematográfica de Curitiba e já sequenciou sua carreira como um dos protagonistas de “Alice Jr”, do também paranaense Gil Baroni. Ano passado, em debate no Festival de Cinema de Vitória, Matheus contou que não tem ascendência japonesa, apesar dos olhos puxados. Na verdade, sua origem é indígena e afro.

Os outros protagonistas jovens de “Nóis por Nóis” são Ma Ry (Mari, aspirante a rapper), Maicon Douglas (o Gui), Matheus Correa (o Café), Felipe Shat (o Shat) e Stephany Fernandes (a Jana). “Nossa ideia” – pondera Muritiba – “era montar um elenco misto de atores naturais e atores profissionais”.

Entre os profissionais, há que se destacar Luiz Bertazzo (roteirista de “Alice Jr”), que desempenha papel de relevo na trama. Ele incorpora o contraventor Nando, que alicia jovens para venda de produtos ilegais. Também são profissionais Otávio Linhares (o Cabo Rocha) e Marcos Tonial (o soldado Santos). O próprio Aly Muritiba desempenha papel coadjuvante (o Sargento Carlos) e não faz feio.

Depois de realizar um longa documental sobre agentes penitenciários (“A Gente”), Muritiba estreou na ficção com um longa denso e de nome fúnebre-amoroso, “Para minha Amada Morta”. O projeto seguinte – “Ferrugem”, vencedor do Festival de Gramado e ambientado em Curitiba, como os dois anteriores – tinha a juventude de classe média alta como foco. Bons colégios, roupas descoladas e celulares de última geração eram elementos essenciais à narrativa. A filmagem de relação íntima de uma jovem causaria a tragédia (e razão de ser da narrativa) naquele meio de jovens bem-nascidos.

Agora, com “Nóis por Nóis”, os protagonistas são jovens e seus familiares de baixa renda. Vila Sabará é a maior ocupação urbana da cidade de Curitiba. Lá os rapazes buscam um trampo, vão a festas e também são loucos por tecnologia. Um celular cumprirá, neste filme, como em “Ferrugem”, função essencial aos fatos narrados.

Aly Muritiba, que vem dedicando-se, sem descanso, à TV (em séries como “Carcereiros” e a novíssima “Irmandade”), continua empenhado em seu projeto de realizar filmes políticos e sociais. Ao retratar, em parceria com Jandir Santin, “o cotidiano de meninas e meninos que tentam sobreviver e exercer sua criatividade em ambiente adverso”, ele levou em conta “as especificidades” dos que estão na base da pirâmide.

“As questões que atravessam os jovens periféricos são de outra natureza” – resume. “Elas (as questões) são mais urgentes e diretas, menos existencialistas e mais de natureza da existência física mesmo. O simples fato de estar no mundo, de se locomover nas ruas, já constitui uma situação de insegurança quando se é preto, pardo ou mina”. Por isto, os dois diretores entenderam “ser importante mostrar esta situação, mas não apenas como diagnóstico”. Eles fizeram questão de “apontar caminhos de resistência, de forma que os corpos destes jovens estejam nas ruas, ocupando e reivindicando o direito à existência”.

Enquanto lança “Nóis por Nós”, Aly Muritiba finaliza dois novos filmes – “Jesus Kid” e “Deserto Particular”. E, incansável, arremata: “em paralelo, estou terminando de filmar, para a Globo Play, a série “O Caso Evandro”, sobre o sequestro do garoto Evandro Ramos Caetano, ocorrido em 1992, na cidade de Garatuba, litoral paranaense”. A imprensa referia-se aos trágicos acontecimentos de quase três décadas atrás como “o Caso Evandro e as Bruxas de Guaratuba”. Pois supunha-se haver, segundo a investigação policial da época, elementos de magia negra envolvidos no sequestro, e assassinato, do menino de apenas seis anos, cujo corpo foi encontrado num matagal, sem os órgãos internos.

Nóis por Nóis
Brasil, 89 minutos, 2020
Direção: Aly Muritiba e Jandir Santin
Elenco: Ma Ry, Matheus Moura, Maicon Douglas, Otávio Linhares , Luiz Bertazzo, Matheus Correa, Stephanie Fernandes, Felipe Shat, Aly Muritiba, Sol do Rosário (Dona Lúcia), Regina Razzolini (Dona Augusta), Patrícia Savary (Dona Lurdinha), Mazé Portugal (Dona Ana), Antônio Júnior (comerciante)
Fotografia: Maurício Baggio
Produção: Antônio Jr, Marisa Merlo e Chris Spode

FILMOGRAFIA
Aly Muritiba (Mairí-Bahia, 20-02-1979)

Longas-Metragens:

2013 – A Gente (documentário)
2015 – Para minha Amada Morta (ficção)
2018 – Ferrugem (ficção)
2020 – Nóis por Nóis (fic, codireção de Jandir Santin)
2020 – Jesus Kid (fic, em finalização)
2020 – Deserto Particular (fic, em finalização)

Curtas-metragens:

2011 – A Fábrica
2013 – Pátio
2014 – Brasil
2015 – Tarântula (com Marja Calafange)
2015 – Parque Pesadelo (com Francisco Gusso e Pedro Giongo)

Séries de TV:

. O Hipnotizador (HBO)
. Irmãos Freitas (Space)
. Carcereiros (Globo)
. Irmandade (Netflix)

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