Notícias Últimas Notícias — 27 maio 2020
Leopoldo Nunes, cineasta e gestor cultural, morre aos 54 anos

O cineasta e gestor cultural Leopoldo Nunes morreu, vítima de complicações hepáticas, na última terça-feira, 26 de maio, em Cuiabá, no Mato Grosso. Tinha 54 anos. Paulista de Santa Fé do Sul, ele estudou Cinema na ECA-USP e fez cursos de especialização na EICTV (Escola Internacional de Cinema de San Antonio de los Baños, nos arredores de Havana, Cuba).

Depois de realizar seus primeiros curtas-metragens, Leopoldo engajou-se na luta pela reconstrução e fortalecimento da ABD (Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas), entidade com representações em todas as regiões brasileiras. Nas gestões de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, durante os Governos Lula, ele assumiu cargos na SAv (Secretaria do Audiovisual) e participou ativamente de projetos como a criação da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação). Deu corpo à Programadora Brasil, coleção de filmes brasileiros selecionados e exibidos, com rico material de apoio, a estudantes e populares em cineclubes, escolas e associações de bairro. Foi secretário de Cultura da Prefeitura de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, e sonhou em dar novo dinamismo aos esquecidos estúdios da produtora Vera Cruz (ativa de 1949 a 1954). Quando Marta Suplicy assumiu, no Governo Dilma, a titularidade do MinC, Leopoldo Nunes foi convidado para comandar a SAv. Foi nesta função que participou do ato mais controvertido de seus onze anos como gestor público: interferência (para muitos “intervenção desestruturadora”) nos rumos da Cinemateca Brasileira. Dali em diante, a instituição que vivera, nas gestões Gilberto Gil-Juca Ferreira, uma verdadeira primavera, acumulou problemas que desaguaram no quadro atual, gravíssimo.

Leopoldo Nunes realizou cinco curtas-metragens (“A Idade do Lixo”, “O Profeta das Cores”, “O Argonauta Alemão”, “Erra uma Vez” e “A Lata”, este selecionado pelo Festival de Brasília do Cinema Brasileiro para sua principal competição) e um longa documental, em parceria com Reinaldo Volpato, “O Profeta das Águas”.

Abaixo, a Revista de CINEMA publica texto de Alfredo Manevy, professor universitário e colega de Leopoldo Nunes nas gestões de Gilberto Gil.

 

Leopoldo: um construtor de utopias para o cinema brasileiro

Por Alfredo Manevy

Conheci Leopoldo Nunes como um sonhador e exímio articulador em favor do cinema brasileiro. É a primeira coisa que me vem a mente quando sou informado de sua partida no dia de ontem, aos 54 anos, ainda muito jovem. É com carinho e emoção que lembro como foi conviver com ele, especialmente em dois anos de intensos trabalhos na gestão Gil, morando sob o mesmo teto no Cerrado e participando na construção diária de engenhosos programas e ações para o cinema nacional e para a área cultural. Sem falar das amizades que ele me trouxe para a vida, por exemplo o querido Fred Maia. Ou de conhecer o Sócrates (ao menos suas pernas) pessoalmente, em casa. Graças ao Leopoldo, seu jeito agregador tão presente naqueles anos, eu viria a ter minha própria passagem pelo governo Lula. Me sinto agora um privilegiado de ter sido seu parceiro de jornada, já que se revelam agora tão raros os períodos históricos em que é possível realizar, em tamanha escala, sonhos coletivos, transformando-os em políticas e conquistas reais, dentro das regras democráticas. Especialmente na área de política da cultura, sempre tão objeto de ataques ou desprezos históricos, cíclicos em nossa história nacional.

Nestes trópicos em que a própria existência de um cinema brasileiro – com nome próprio – volta hoje a ser questionada, em pleno sec XXI (!!!) de forma aberta ou velada, lembramos que a cinematografia nunca foi estável e garantida. Ela depende do prestígio e qualidade dos nossos filmes, mas também de muitas outras frentes de luta: de cineastas que em algum momento fizeram a organização do setor avançar, indo para uma outra seara do fazer audiovisual, a chamada política cinematográfica: Gonzaga, Cavalcanti, Viany, Dahl, Carlos Avelar, Calil.

Era início da gestão do MinC em 2003 e pareciam ser tempos de testar as possibilidades de uma democracia mal realizada nestas terras. Para desafiar pretensas hierarquias, as vezes invisíveis, de poder. Leopoldo combinava uma sólida formação em cinema (na ECA e no ICAIC em Cuba) com um irresistível jeito sedutor de matuto de Santa Fé do Sul. Como bem explicou Antonio Candido, são os seres mais habilidosos e sábios esses do interior. Para quem vinha das bases do cinema brasileiro, surpreendia a facilidade e coragem para se movimentar nas altas hierarquias de Brasília, ganhando espaço para a causa de um cinema mais democrático e acessível (o projeto Programadora Brasil é um dos mais bonitos que concebeu, ainda que inconcluso). Combinava duas genuínas militâncias: no cinema brasileiro e no partido dos trabalhadores; e se acaso as duas entrassem em conflito, o compromisso de Leopoldo era com a cultura.

Assessorando o Orlando Senna, abriu passagem para um novo entendimento geracional e programático da política cinematográfica, vista como política pública, e não política de balcão. Tratada como política abrangente, incluindo a TV, a indústria, a dimensão arte e a dimensão econômica, sem preconceitos. Ainda que, de certa forma, o coração de Leopoldo tenha sempre pulsado pelo documentário e por abrir espaço para os independentes e novos realizadores.

E, sobretudo, vejo Leopoldo como um sujeito com grande capacidade de implementação: em especial de programas de grande complexidade conceitual, talento raro em estruturas governamentais onde muitos se perdem e não conseguem dar concretude a suas ideias. Esse período foi imensamente produtivo em termos de ações, dezenas de editais, gerou novidades conceituais no debate cultural e criou bases para um dos ciclos mais ricos do nosso cinema. Os editais do DOCTV, as políticas para animação e para o cinema infantil, para uma televisão pública, os impulsos para a Ancinav e a Ancine moderna, que promoveram uma transformação relevante no audiovisual na última década. Quando se destacam a liderança de Manoel Rangel, Mario Borgneth e Mario Diamante, Debora Peters, entre tantos outros.

A dedicação do Leopoldo e de todas as pessoas que o acompanhavam no MinC, na Ancine e na EBC, contribuiu para colocar o cinema brasileiro em outro patamar de modernidade, nos tempos em que tínhamos Ministros com um projeto definido para a cultura (Gilberto Gil e Juca Ferreira) promovendo condições de fazer, pensar e circular que eram há muito demandadas. Ao que tudo indica, no avançado processo de destruição atual, no projeto de terra arrasada do governo Bolsonaro, capaz de implodir em poucos anos um trabalho de três décadas, é fundamental homenagear o espírito aguerrido do Leopoldo daqueles anos, sua dedicação para conquistar terreno e bases sociais, legais, políticas e econômicas do fazer cinema no Brasil. É claro que o momento agora é outro, há tanto a preservar quanto a conquistar. Mas o espírito precisa ser esse.

Isso não significa que ele não tenha cometido erros na política cinematográfica. Sua condução da crise na cinemateca brasileira, por exemplo, na segunda volta ao MinC, ajudou a colocar em xeque um trabalho que ele próprio havia ajudado a construir. Uma pena. Mas os acertos foram maiores que os erros.

Quem o conheceu de perto, sabe que ele podia ser uma das pessoas mais encantadoras ou difíceis. Ultimamente lamento que tenhamos nos afastado: uma certa mágoa, que parecia não ter solução, era voltada aos que gostavam dele e o admiravam. Entre eles eu mesmo. Mas o que ficará, ao menos para mim, é o Leopoldo apaixonado pelo Brasil, pelo cinema brasileiro enquanto pulsão vital do que podemos ser como país. Enquanto um sonhador e romântico boêmio, mas capaz de fazer as coisas acontecerem. Algo genuíno nele e muito raro de se encontrar.

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