Morre Wills Leal, o criador da Roliúde Nordestina
Wills Leal e José Bezerra © Maria do Rosário Caetano

Por Maria do Rosário Caetano

O criador da Roliúde Nordestina, projeto cinematográfico implantado no pequeno município paraibano de Cabaceiras, morreu na madrugada desta quinta-feira, 7 de maio, em João Pessoa. Ele se chamava Wills Leal, tinha 83 anos e era um homem de múltiplos ofícios: jornalista, pesquisador, escritor, ex-secretário de Turismo da Paraíba e agitador cultural. Parecia um personagem de Ariano Suassuna. Sabia tudo sobre bodes, amava o Nordeste e sua Paraíba natal e tinha memória enciclopédica.

Wills Leal era um polemista incansável. Presidente da Academia Paraibana de Cinema, criada por ele, andava, nos últimos anos, muito doente e estava perdendo a visão e a audição. Mesmo assim ia a todas as sessões do Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro. E frequentava todos os debates festivaleiros, para desfiar suas infindáveis memórias e ideias controvertidas. Em dezembro do ano passado, já quase surdo, fez-se acompanhar de sua cuidadora, que repetia, aos gritos, no ouvido dele o que se falara na mesa ou na plateia.

Foram memoráveis as participações de Wills Leal em seminários, em especial os que se referiam à Roliúde Nordestina, projeto questionado pelas novas gerações de curta-metragistas paraibanos. Memoráveis foram, ainda, suas intervenções em debates sobre Assis Chateaubriand, o poderoso Chatô, paraibano como Wills, ou sobre o artista Péricles Leal, criador do “Amigo da Onça” (também paraibano), de quem fora amigo.

Inesquecível, registre-se, foi a participação de Wills em mesa-redonda que debateu a trágica produção do filme “Salário da Morte”, único (e malogrado) longa ficcional de Linduarte Noronha, realizado em 1971. Este filme levou à falência seus dois produtores, o escritor e ator W.J. Solha e o romancista José Bezerra Filho. Ao lado do professor da UFPB, Mirabeau Dias, e do escritor Bezerra (Solha, ator em “A Canga”, “O Som ao Redor”, “Era Uma Vez, Verônica” não quis participar da contenda), Wills relembrou detalhes preciosos da produção ficcional de Linduarte Noronha (1930- 2012), que fez história como exemplo de sonho que virou pesadelo.

Há, porém, fato que nos oferece formidável exemplificação do que foi a veia polemista de Wills Leal. Na década de 1960, ele escreveu um pequeno livro chamado “O Nordeste no Cinema” e pediu a Jean-Claude Bernardet que escrevesse o prefácio, pois encontrara modesta editora disposta a publicar a obra. O ensaísta e ex-professor da UnB, então já nos quadros da Escola de Comunicação e Arte da USP, e também polemista notável, não se fez de rogado. Escreveu um “prefácio” corrosivo. Na verdade, uma crítica demolidora. Questionou tudo que dava sustentação ao livro de Wills: o conceito de cinema nordestino, ideias sobre “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Enfim, não deixou pedra sobre pedra.

Contratempos na vida do autor de “O Nordeste no Cinema” impediram a publicação do livro. Os originais desapareceram. Até que Wills os encontrou e, em 1982, os publicou.

E o prefácio de Bernardet? Ficou escondido no fundo de uma gaveta? Não. Wills Leal o publicou, só que transformado em posfácio. Sua corajosa postura deu origem a um dos raros livros brasileiros em que um autor publica a mais demolidora das avaliações de sua obra no mesmo volume.

Wills deixa muitos livros. O mais bem editado deles é “O Cinema na Paraíba. O Cinema da Paraíba”, em formato álbum, capa dura, com poderoso material ilustrativo (centenas de fotos e recortes de jornais e revistas). E informações sobre nomes consagrados (Linduarte Noronha, Vladimir Carvalho), realizadores que se firmavam (Manfredo Caldas, Vânia Perazzo, Marcus Vilar, Torquato Joel, Bertrand Lira) e os então “novíssimos”, aqueles que chegavam fazendo muito barulho, causando polêmica.

Em 2007, ano em que Wills lançou os dois luxuosos volumes (“com 616 páginas e 579 ilustrações”, orgulhava-se) do cinema na e da Paraíba, a Roliúde Nordestina estava bombando. Guel Arraes, respaldado pela Rede Globo e pelo imenso talento de Matheus Nachtergaele e Selton Mello, produzira série, transformada em filme, chamada “O Auto da Compadecida” (2000). Na TV – registrou o Ibope – o texto de Ariano Suassuna bateu recordes do horário. Nos cinemas, em versão suavemente resumida, vendeu mais de 2 milhões de ingressos. Daniel Filho se entusiasmou e bradou, ao festejar o sucesso da fita: “trata-se do verdadeiro Milagre da Compadecida”.

Euforia no Sul e indignação no Nordeste paraibano. Novas produções chegavam do Rio de Janeiro (ou de São Paulo) para utilizar os cenários de Cabaceiras e do Lajedo do Pai Mateus, magnífico (e “místico” para alguns) complexo rochoso, que encantou do carioca Júlio Bressane ao pernambucano Guel Arraes. O primeiro lá realizou “São Jerônimo”, com Everaldo Pontes, e o segundo, “Romance”, com Letícia Sabatella e Wagner Moura. Foi então que, liderados por Ana Bárbara Ramos, autora do ótimo curta-metragem “Cabaceiras” (2007, disponível no Porta Curtas), os curta-metragistas paraibanos resolveram questionar os gastos governamentais destinados ao fomento do “polo de cinema de Cabaceiras”.

Em debate histórico, no Hotel Tambaú, promovido pelo festival Aruanda, os jovens cineastas demoliram o projeto “megalomaníaco” de Wills Leal, o espaçoso ex-secretário de Turismo da Paraíba. A pequena Cabaceiras, onde não chovia nunca, continuava pobre, o tal polo era um “sonho virtual” e a produção paraibana carecia de recursos, por mínimos que fossem.

O pai da Roliúde Nordestina não se deu por vencido. Continuou valorizando o gigantesco letreiro plantado na entrada da cidade sertaneja e inspirado na matriz parodiada, a poderosa Hollywood. Continuou usando todas as suas forças para levar o projeto paraibano adiante. Criou, em parceria com a Prefeitura de Cabaceiras, um pequeno museu na cidade (com imagens de duas dezenas de filmes lá realizados), deu entrevistas (muitas à repórter Bernadete Duarte, do Canal Brasil) sobre as virtudes de seu projeto turístico-cinematográfico, cantou a beleza do Lajedo do Pai Matheus e mostrou-se um resistente, como as cabras, que ele e Suassuna amavam. Mas vieram os males de saúde e Wills Leal já não podia enfrentar os pouco mais de 200 km que separam João Pessoa, capital do estado, de sua Cabaceiras.

A Roliúde Nordestina, sua “criatura” tão idealizada e defendida, morre com seu criador? Só o tempo dirá.

 

PRINCIPAIS FILMES “ROLIÚDIANOS”:

1998 – “São Jerônimo”, de Júlio Bressane
2000 – “O Auto da Compadecida”, de Guel Arraes
2002 – “Viva São João”, de Andrucha Waddington (doc)
2003 – “Madame Satã”, de Karim Aïnouz
2006 – “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes
2007 – “Canta Maria”, de Francisco Ramalho Jr
2007 – “Cabaceiras”, de Ana Bárbara Ramos (curta)
2008 – “Romance”, de Guel Arraes
2015 – “Garoto”, de Julio Bressane
2016 – “Por Trás do Céu”, de Caio Soh
2017 – “Beiço de Estrada”, de Eliézer Rolim

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