“Equivalências” revê trajetória da fotógrafa inglesa que adotou o Brasil

Maria do Rosário Caetano

Maureen Bisilliat nasceu na Inglaterra, há mais de 80 anos. Passou pelos EUA, pela Argentina e fincou raízes no Brasil. Raízes tão profundas, que se não tivesse sotaque carregado todos a reconheceriam como vigorosa hippie brasileira, daquelas que um dia curtiram Arembepe.

Quem assistir ao longa documental e autobiográfico “Equivalências – Aprender Vivendo” (disponível em DVD, lançado pelo IMS), verá que Maureen tudo fez para amar, compreender e divulgar o Brasil, seja com suas fotografias, livros, exposições ou filmes. Cumpriu itinerário de causar inveja a missionários como José de Alencar, Mário de Andrade, Luís da Câmara Cascudo e Ariano Suassuna.

Itinerário que resultou em viagens por todos os Brasis, do Xingu à Bahia, dos sertões de Minas Gerais ao Recife cabralino, do Acre dos Ashaninka aos descendentes de escravizados nas minas de Ouro Preto, do Vale do Jequitinhonha aos mangues paraibanos.

Para entender o Brasil, Maureen mergulhou na obra de Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Jorge de Lima, Mário de Andrade, Jorge Amado, Carlos Drummond, João Cabral e Adélia Prado. E saiu, Brasil profundo adentro, em busca de vaqueiros roseanos, mestres de saveiros baiano-amadianos, catadores de caranguejos, sertanejos euclidianos, artesãs jequitinhonhas. Aos indígenas, escorada nos Irmãos Villas-Boas e em Darcy Ribeiro, dedicou longos meses de convivência e milhares de imagens, fixas e em movimento.

Um dia, instigada pelo inquieto Darcy Ribeiro, partiu em viagem por países da América Latina (Bolívia, Guatemala e México). O autor de “Maíra”, responsável (junto com Fernando Morais) pela conceituação do Memorial da América Latina, pediu a ela que registrasse a criatividade de artistas populares. Maureen botou o pé na estrada e trouxe poderoso acervo de imagens e peças artesanais, exposto, ainda hoje, no Pavilhão da Criatividade Popular. O Memorial foi plantado, com projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, na Barra Funda paulistana.

Num dos momentos mais reveladores de “Equivalências” – tanto que abre o texto de Roberto Gervitz no DVD-IMS – Maureen Bisilliat reencontra, décadas depois, um vaqueiro do sertão roseano. Antes de entabularem conversa, ele, já idoso, pergunta o nome dela, que responde: “Marina”. Faltou dizer, para soar ainda mais familiar e afetivo, “Maurinha”. Pois é assim, apaixonada por indígenas, tema de seu primeiro longa documental (“Xingu Terra”, 1981), e por gente das roças, sertões e grotões, que ela vai revendo sua trajetória em “Equivalências”, realizado no decorrer dos últimos oito anos.

No livreto que acompanha o DVD, Maureen dá conta da tumultuada aventura de edição de seu imenso acervo de imagens: “trabalhamos, Felipe Lafé e eu, o correspondente a 20 terabytes armazenados nos mais variados suportes – película 16 milímetros, U-Matic, Betacam, VHS, HD, mini-DV etc”. Juntos, eles empreenderam a organização parcial de tão prolífica produção, iniciada na década de 1960 (o projeto original da filha de diplomata era ser pintora).

Uma parte do patrimônio de imagens da artista passou a compor o Acervo de Vídeo Maureen Bisilliat no IMS. A experiência de oito longos anos dedicados a “Equivalências” fascinou a fotógrafa-diretora: “empreendemos um descobrimento a quatro mãos, rico e raro na sua duração, quase uma década de gritos, berros e aproximações que foram – ou acredito ter sido –, para ele (Felipe), um mestrado. Para mim, uma extensão de vida”.

Ao longo de “Equivalências – Aprender Vivendo”, dois importantes colaboradores de Maureen ganham espaço nobre na narrativa: o jornalista Audálio Dantas (1929-2018) e o diretor de fotografia Lúcio Kodato.

Audálio lembrará trabalho que fizeram para a revista Realidade. Juntos, se meteram em mangue onde crianças e adultos catavam caranguejos. Enquanto ele colhia registros verbais de gente que vivia atolada na lama, ela exercia seu ofício com a eletricidade costumeira. Como sumira do alcance de suas vistas, Audálio perguntou a um catador se sabia onde ela estava. “Sua mulher” – respondeu o inquirido – “está metida na lama, parece até um homem”. O repórter esclareceu não tratar-se de sua esposa, mas sim de colega de trabalho. Quando regressaram a São Paulo, a reportagem de Audálio e as imagens da “esposa que parecia homem” transformaram-se em capa da revista.

Maureen Bisilliat é mais conhecida por suas fotos artísticas, mas nunca esquece de seus trabalhos jornalísticos. “Tive muitas alegrias com o fotojornalismo. Depois da Realidade, a editora Abril me encomendou material para a Quatro Rodas. Me enviaram à China, para registrar o uso do automóvel naquele país. Foi uma experiência inesquecível”, conta ela em “Equivalências”.

Lúcio Kodato, que trabalhou com Maureen Bisilliat no longa-metragem “Xingu Terra”, relembra a parceria: “esse documentário teve sua gênese em 1973, quando ela viajou ao Parque Nacional do Xingu, pela primeira vez, levada pelos irmãos Orlando e Cláudio Villas-Boas”. Dois anos depois, “Maureen recebeu o convite da Bienal de São Paulo para montar Sala Especial sobre cultura e vida cotidiana dos indígenas xinguanos”. Ao decidir complementar o livro fotográfico Xingu – Território Tribal, resultante da viagem e premiado pela Kodak (Alemanha/1980), Maureen concluiu que um documentário de longa-metragem seria o formato ideal. Convidou, então, Kodato para ser o diretor de fotografia. Por seu trabalho, ele conquistaria o Troféu Candango do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 1981 (e Sidney Paiva Lopes, o Candango de melhor som). “Depois” – lembra o fotógrafo –, “o filme seria convidado a abrir o Margaret Mead Film Festival, promovido pelo Museu de História Natural de Nova York. Guardo as melhores lembranças da experiência no Xingu”.

O cineasta e diretor de fotografia Lauro Escorel, que estreou no cinema como still de “Terra em Transe” (Glauber Rocha/1967), convidou Maureen Bisilliat a participar de seu longa documental “Fotografação”, lançado meses atrás no circuito de arte brasileiro.

A conversa de Escorel com Maureen alcança uma série de temas, sendo o principal, a contribuição de grandes fotógrafos que deixaram seus países de origem, para radicar-se no Brasil. Caso de Augusto Stahl, Marcel Gautherot, Hildegard Rosenthal, Pierre Verger e Jean Manzon.

Para Lauro, a importância do trabalho de Maureen Bisilliat é imensa. “Ela é uma das grandes fotógrafas remanescentes daquela geração que nos apresentou ao Brasil pela fotografia”. O primeiro contato do diretor de fotografia de “São Bernardo” (Hirzman, 1973) com a obra dela aconteceu no final da década de 1960, “quando Maureen publicou o livro ‘A João Guimarães Rosa’, inspirado por sua leitura de ‘Grande Sertão: Veredas’”. Ali – relembra –, “os personagens e as paisagens do sertão de Minas se materializaram para mim”. Daquele momento em diante, Escorel ficou de olho no trabalho de Maureen. “Seus ensaios fotográficos tornaram-se referências obrigatórias para mim”. A ponto de influenciar o trabalho do jovem diretor de fotografia: “o cromatismo e a luz das suas imagens feitas entre os índios do Xingu me influenciaram quando fotografei ‘Brincando nos Campos do Senhor’ (Hector Babenco, 1991)”.

“O olhar de Maureen” – conclui Escorel – “apreendeu o Brasil com profunda sensibilidade e assim foi com naturalidade que ela veio a se tornar minha principal interlocutora no ‘Fotografação’. Eu não poderia contar a história da nossa fotografia sem contar com a participação dela”.

A documentarista Luciana Burlamaqui realizou, por sete anos (de 2002 a 2008), o longa-metragem “Entre a Luz e a Sombra”. No centro de sua densa narrativa, está a atriz Sophia Bisilliat, filha da fotógrafa e cineasta Maureen. Em busca de novos desafios, a atriz abandonou os palcos e resolveu atuar no sistema penitenciário paulistano, em especial na Casa de Detenção do Carandiru. Para tanto, criou o projeto “Talentos Aprisionados” e estabeleceu parceria com dois rappers, Dexter e Afro-X, ambos encarcerados e integrantes da dupla 509-E. Graças à decisão de juiz, que acreditou na arte como meio de ressocialização de detentos, eles puderam sair do presídio para fazer shows.

O documentário, premiado na Mostra de Cinema e Direitos Humanos da América do Sul e no Festival de Cinemas e Culturas da América Latina de Biarritz-França, contou com o apoio entusiasmado de Maureen. E até com a imagem dela, que aparece por alguns segundos no meio do filme e nos minutos finais, também em breve instante. Mesmo assim, Luciana tem Maureen como uma de suas protagonistas.

“Em muitos festivais internacionais, nos quais nosso documentário foi apresentado” – testemunha –, “surgia sempre muito interesse por ela, mesmo que as pessoas não tivessem conhecimento da trajetória da grande fotógrafa que ela é”.

A documentarista pega de empréstimo o título de um livro do moçambicano Mia Couto, para concluir que ficava claro para o público que “Maureen é o ‘Fio das Missangas’, aquele que reúne e sustenta os adornos de um colar, sem aparecer”. E mais: “todo o trabalho desenvolvido, ao longo de décadas, no sistema penitenciário por sua filha Sophia, tentativa de dar vez, vida, dignidade e voz aos encarcerados através da arte – foco do meu filme –, teve o suporte ancestral, imagético, afetivo, artístico, sensorial e material (incluindo o financeiro) de Maureen”.

Luciana arremata, agradecida: “Maureen Bisilliat doou seu instinto, seu exemplo e deu vida ao sonho de Sophia, que também era o seu: a humanização do sistema carcerário e de todos nós”.


Equivalências – Aprender Vivendo
Brasil, 96 minutos, 2019
Direção e roteiro: Maureen Bisilliat
Documentário que percorre a trajetória da fotógrafa e documentarista anglo-brasileira
Fotografia: Lúcio Kodato, Fábio Knoll, Sophia Bisilliat e Maureen Bisilliat
Montagem: Felipe Lafé
Produtora: Talentos Aprisionados
Disponível em DVD, lançado pelo IMS (Instituto Moreira Salles). Acompanha livreto com ensaio de Roberto Gervitz e extras com sequências adicionais dos documentários “Morro da Mangueira”, “Quem São os Irmãos” e “Procurando Dona Guia Maureen no IMS”.
Preço: R$44,90

 

MAUREEN BISILIAT NO CINEMA
A fotógrafa e cineasta nasceu na Inglaterra em 1931 e chegou ao Brasil em 1957

Como diretora

1970 – “Yaô – Iniciação de Filho de Santo” (doc, 56 minutos)
1981 – Xingu Terra” (documentário, 76′)
1981 – “Xingu/Luta – Epílogo” (animação-doc, 9′), parceria com Marcelo Tassara
1985 – “O Turista Aprendiz” (doc, 56′)
1999 – “Bahia Amada Amado” (doc- 13′), parceria com Marcelo Tassara
2019 – “Equivalências – Aprender Vivendo” (doc. 96′)

Participação

2009 – “Entre a Luz e a Sombra”, de Luciana Burlamaqui (doc., 150 minutos)
2020 – “Fotografação”, de Lauro Escorel (doc, 76′)

Roteirista

1969 – “A João Guimarães Rosa”, de Roberto Santos (doc-animação por table top – 10′) – Roteiro em parceria com Marcelo Tassara)

PRINCIPAIS LIVROS

1969 – “A João Guimarães Rosa – Fim de Rumo, Terras Altas, Urucuia”
1977 – “A Visita” (inspirado em poema de Carlos Drummond de Andrade)
1979 – ‘Xingu – Território Tribal’ (com os irmãos Orlando e Cláudio Villas-Boas)
1982 – “Sertões: Luz e Trevas” (inspirado em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha)
1983 – “O Cão Sem Plumas” (inspirado em poema de João Cabral de Mello Neto)
1995 – “Chorinho Doce” (inspirado em poemas de Adélia Prado)
1996 – “Bahia Amada Amado” (inspirado em romances de Jorge Amado)

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