Rede de Ódio

Por Maria do Rosário Caetano

O cineasta polonês Jan Komasa, 38 anos, gosta de temas explosivos. Quem acessar as plataformas digitais, poderá assistir a dois de seus filmes mais recentes: o novíssimo “Rede de Ódio”, sobre alpinista social, especializado em destruir reputações na internet, e “Corpus Christi”, candidato ao Oscar de melhor produção internacional, em fevereiro último (perdeu para o coreano “Parasita”), que soma fé, sacerdócio, delinquência juvenil e pedofilia.

Os dois longas-metragens de Komasa, que se somam a dez títulos feitos para TV (séries e documentários), podem ser vistos na Netflix (“Rede de Ódio”) e no Cinema Virtual (“Corpus Christi”). O público mais exigente questionará a verossimilhança das tramas construídas por Mateusz Pacewitz, roteirista e ator, de apenas 28 anos, parceiro cinematográfico do badalado realizador polonês.

Pacewitz mantém sintonia fina com o universo de personagens jovens e mostra-se eficiente na construção de tramas marcadas pela ousadia moral, além de bastante envolventes. “Rede de Ódio” e “Corpus Christi” são protagonizados por rapazes em fase de explosão hormonal e dispostos a tudo para realizar desejos e sonhos. Por isso, atraem nossa atenção.

Tomasz Giemsa (Maciej Musialowski), o protagonista absoluto de “Rede de Ódio”, é um estudante de Direito, originário de família interiorana e pobre. Sob acusação de plágio, ele acaba expulso de importante universidade polonesa, na qual estuda graças ao apoio financeiro do casal Krasuck, rico, chique e progressista. Resolve, então, usar suas habilidades nas redes sociais para se dar bem.

Daniel (Bartosz Bielenia), também protagonista absoluto de “Corpus Christi”, sonha em ser padre, mas a delinquência juvenil mancha seu currículo. Quando o filme começa, ele está detido em um reformatório. Os regulamentos da Igreja Católica, fortíssima na Polônia (país de origem do papa João Paulo II), bloqueiam o exercício do sacerdócio a quem tem ficha criminal.

Mateusz Pacewitz garante ter encontrado inspiração em fatos reais. Um jovem ex-presidiário teria assumido vaga de sacerdote em pequeno vilarejo polonês. No filme, Daniel, dotado de boa oratória, aprimorada no cárcere, oficiará, em substituição inesperada do velho vigário, a missa do dia de Corpus Christi. Os fiéis ficarão encantados com o novo pastor. Na vida civil, e no frescor da juventude, o “padre” substituto seguirá apaixonado por rock, motocicleta e bebidas alcoólicas. E será perturbado pelos clamores do sexo. Bem narrado, o filme se deixa ver com interesse, desde que acreditemos nas facilidades que o protagonista encontra para exercer o ofício de vigário-substituto. E na ingenuidade do “rebanho” católico.

“Rede de Ódio”, por sua vez, é um filme marcado pela urgência. Seu tema – o submundo digital – é questão posta na linha de frente dos problemas mais graves de nosso tempo. Ao empreender apavorante descida aos infernos das redes sociais, Komaza só faz aumentar as preocupações que nos levam (a nós brasileiros, em especial) a temores próximos da paranoia.

Quando o filme começa, Tadeusz Giemsa sofre, com frieza glacial, pelo menos na aparência, grande humilhação. Dois professores o questionam por ter plagiado ideias alheias em importante trabalho acadêmico. Ele se defende com humildade de bom moço, diz-se atarefado e dividido entre os estudos e trabalho para seu próprio e necessário sustento. Mesmo assim, acaba expulso da instituição. Antes de sair, pede autógrafo à professora num dos livros por ela publicados.

Num segundo momento, veremos Tadeusz visitando o casal Krasuck, seus mecenas. Senta-se à mesa de jantar com eles, defensores dos Direitos Humanos, e fixa os olhos na jovem Gabi (Vanessa Alexander), loura e modernete, sedutor objeto de desejo. Mente sobre sua vida acadêmica e mostra o autógrafo da renomada professora. Ao despedir-se, é levado à porta pela bela Gabi. Roga a ela que o adicione às suas redes sociais. Basta, garante a moça, que “você me peça amizade no Facebook”. Ele conta que “há sete anos” segue, em vão, nesse intento.

De propósito, Tomasz deixa o celular (no modo gravador) no sofá da confortável casa dos Krasuck. Por isso, ouvirá tudo o que pais e filha falam dele. Até que não sabe portar-se à mesa, tanto que embaraçou-se com o camarão, do qual comeu inclusive cabeça e rabo. Nova humilhação e consequente aumento de suas já elevadas doses de ressentimento.

Expulso da Universidade, sem trabalho e sem um tostão, o jovem Tadeusz terá que se virar. E o fará em um perfeito “gabinete do ódio” (bem parecido com o descrito, cotidianamente, nas páginas da mídia política brasileira). Ou seja, em empresa de relações públicas, que, à custa de trolagem e práticas assemelhadas, mente, desinforma e destrói reputações dos rivais de seus clientes.

O ambicioso Tomasz vai brilhar no novo emprego. Desenvolto, obsessivo e dono de ideias que passam a quilômetros dos bons procedimentos éticos, ele se tornará um talento no qual vale apostar. Agradará à sua chefe em muitos sentidos, até na intimidade.

Graças ao casal Krasuck, amigo de candidato progressista à prefeitura de Varsóvia, o jovem ressentido, que brilhava na destruição de marcas comerciais, penetrará no mundo da política partidária. Sob a fachada de apoiador jovem, pois cheio de ideias novas, de um candidato a favor dos Direitos Humanos, Tadeusz se envolverá, cada vez mais, em submundo marcado pela intolerância religiosa, pela xenofobia e pelo racismo. Um game de grande sucesso pontuará o filme com suas figuras sedutoras, de voz metálica e estética calcada na violência. O jogo digital e outras práticas de trolagem, memes e fake news resultarão muito semelhantes aos descritos no livro “História da Catástrofe Brasileira – Ano I – O Inimaginável Foi Eleito” (Ed. Record, 2020), de Ricardo Lísias. O escritor paulistano deparou-se, em suas pesquisas, com game em que um herói (Bolsonaro) enfrenta e derrota feministas, homossexuais e outros representantes das chamadas minorias identitárias.

Com “Rede de Ódio”, Jan Komasa e seu roteirista Mateusz Pacewitz simplificam a complexidade da narrativa e exageram ao concentrar, em um só personagem, poderoso conjunto de ações que exigiriam farta e dispendiosa colaboração. Sim, as redes sociais são capazes de destruir reputações, pois baseiam-se em sensações primárias e na ojeriza à reflexão. Oferecem ao destinatário aquilo que ele deseja receber. Mas o facilitário torna-se por demais folhetinesco quando Tomacz, de uma hora para outra, transforma-se em figura de proa na campanha do candidato progressista. E descamba para o folhetinesco no momento em que, na maior, consegue enredar o político em trama homoafetiva.

Mesmo assim, “Rede de Ódio” resulta em filme capaz de nos deixar alertas, pois consegue desenhar pesadelo que espelha muito do confuso e atordoante tempo histórico que estamos vivendo. Um tempo avesso ao conhecimento, à ciência, à ética e à fraternidade.

Rede de Ódio | The Hater
Polônia, 2h10′, 2020
Thriller dramático
Direção: Jan Komasa
Roteiro: Mateusz Pacewitz
Elenco: Maciej Musialowski, Vanessa Alexander, Agata Kulesza, Danuta Stenka e Jacek Koman
Fotografia: Radoslaw Ladczuk
Censura: 18 anos
Na Netflix (para assinantes)

Corpus Christi | Boze Cialo
Polônia, 1h56′, 2019
Drama
Direção: Jan Komasa
Roteiro: Mateusz Pacewitz
Elenco: Bartosz Bielenia, Aleksandra Konieczna, Eliza Rycembel, Tomasz Zietek, Lucasz Simlat, Leszek Lichota
Censura: 16 anos
No Cinema Virtual (acesso avulso a R$24,90)

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