Othon Bastos revisita seus grandes papeis no cinema
Bastos em cena de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”

Por Maria do Rosário Caetano

O ator baiano Othon Bastos, que viveu no cinema papeis da grandeza do cangaceiro Corisco, em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, e do rude fazendeiro Paulo Honório, em “São Bernardo”, está enfrentando a pandemia do Covid-19 com muita lucidez, cuidados sanitários e até senso de humor. Ao relembrar um de seus filmes mais recentes – “O Último Cine Drive-in” (Iberê Carvalho, 2014) – ele diz, em tom de brincadeira: “já sugeri ao Iberê e à Maíra (Carvalho, produtora e diretora de arte do filme) que é hora de realizarmos ‘A Volta do Cine Drive-in’”. Afinal, “a cada nova semana, aparece um nova e atrativa sala para espectadores motorizados”.

O ator, de 87 anos, lúcido, inteligente e com muita história para contar, lembra que “o Open-Air, projeto de exibições ao ar livre, famoso por sua tela gigante, está criando na Marina da Glória carioca o seu próprio Drive-in”. Quando o baiano, nascido em Tucano, aceitou o convite de Iberê Carvalho para atuar em “O Último Cine Drive-in”, sabia que faria um filme-tributo a espaço que teimava, apesar de todas as dificuldades, em não encerrar suas atividades. Tratava-se de sala sem paredes instalada no Autódromo de Brasília e mantida por proprietária de empenho único.

“Erramos ao dizer que era o último” – constata bem-humorado. “Os Drive-in voltaram com força total e servem, agora, de cenário não só para filmes, mas também para festas, inclusive de casamento. Temos que fazer o novo filme. Estou esperando o roteiro” (risos).

O último grande papel de Othon Bastos no cinema foi o de Tancredo Neves, em “O Paciente”, de Sérgio Rezende, lançado em 2018. Na Globo, ele atuou nas novelas “Espelho da Vida” e “Éramos Seis”, ambas recentes.

A Revista de CINEMA conversou, por telefone, com Othon Bastos. O que começou com um depoimento sobre o amigo e conterrâneo Geraldo del Rey, o vaqueiro Manuel de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, transformou-se em fascinante conversa sobre cinema, método de trabalho, amizade e parcerias.

Revista de CINEMA – Você foi amigo e colega de trabalho de Geraldo del Rey (1920-1993). Certa vez, você afirmou que Del Rey levava seu ofício a sério, a ponto de, ao interpretar o vaqueiro glauberiano, carregar pesada pedra na cabeça e subir de joelhos o enorme caminho que levava à Igreja de Monte Santo.

Othon Bastos – Sim , Geraldo era stanislavskiano, levava seu ofício muito a sério, fazia questão de vivenciar a experiência real do personagem. Glauber chegou a pensar em uma pedra cenográfica, para evitar um acidente, algo que impossibilitasse o ator de seguir no filme. Mas Geraldo fez questão de carregar aquela pedra de uns oito quilos, de subir aquela ladeira imensa, como faziam os penitentes. Você imagina o que é carregar uma pedra sobre a cabeça e movimentar-se de joelhos, ladeira acima? Pois ele fez isso.

Qual era, nas filmagens de “Deus e o Diabo”, o seu método de interpretação?

Sou brechtiano. Interpretei o cangaceiro Corisco dentro dos princípios de Bertolt Brecht. Eu nem seria o Corisco, o papel era de outro ator baiano, que acabou desistindo, pois foi para o Rio, trabalhar com Roberto Pires no policial “O Crime de Sacopã”. Eu estava totalmente envolvido com os ensaios de “Eles Não Usam Black-Tie”, de Gianfrancesco Guarnieri, peça com a qual nós, do grupo Sociedade Teatro dos Novos, íamos inaugurar o Teatro Vila Velha, em Salvador. Eu tinha 20 e poucos anos e estava entregue à montagem e à inauguração do novo teatro. Estava em casa, quando Glauber chegou, todo empoeirado, com Marrom, motorista do jipe que o trouxera de Monte Santo. Ele me convidou para interpretar o Corisco, me explicou o papel, disse que haveria flashbacks, me deu o roteiro. Argumentei que tinha compromisso com a peça e com o Teatro Vila Velha. Ele, com aquele jeito empolgado dele, argumentou que ia dar para fazer o filme e a peça. Então, tive 15 dias para me preparar. Foi uma loucura.

Que valeu a pena, pois o seu Corisco transformou-se em personagem seminal. Aqueles pulos-rodopio que ele dá na caatinga viraram momento de antologia. Sua imagem está no icônico cartaz do filme.

“Deus e o Diabo” é um filme em que tudo deu certo. Geraldo del Rey está maravilhoso como o vaqueiro Manuel. Lídio Silva, o “Deus negro”, o padrinho Sebastião, de Manuel, tem um desempenho notável. Maurício do Vale, como o matador de cangaceiros, faz um trabalho impressionante. Yoná Magalhães, a Rosa, e Sônia dos Humildes, a cangaceira Dadá, estão ótimas. Você sabia que o Marrom, motorista do jipe usado pelo Glauber, interpretou o violeiro Cego? Ele atua conosco na caatinga. Há uma sequência – aquela em que batizo o vaqueiro Manuel como “Satanás” – em que o Cego passa a mão no meu rosto, uma cena muito bonita. Estávamos todos envolvidos em um projeto ousado, que não pretendia repetir o já feito. O beijo em Rosa não podia ser como o de Clark Gable e Vivien Leigh. Tinha que ser selvagem. No resultado final de “Deus e o Diabo”, acima de tudo, estava o talento e a generosidade do Glauber. Ele aceitava nossas sugestões, ouvia, trocava ideias. Eu tinha vinte poucos anos, pequena experiência no cinema, mas mesmo assim dei meus palpites. Sugeri que eliminasse os flashbacks, ou seja, o encontro de Corisco, em tempo passado, com Lampião, que seria interpretado por outra pessoa. Como ator brechtiano, propus-me a interpretar os dois personagens. Como Corisco é quem narra aquela história, ele pode tudo. Pode interpretar a si mesmo e virar para o lado e incorporar Lampião. Ao me transformar no capitão Virgulino, eu me fazia de cego de um olho. Como o filme tinha uma produção modesta, Glauber até ganhou com a opção de eu mesmo fazer os dois personagens. Sabe que, no jipe, de Salvador até Monte Santos (387 km), um percurso complicado, que durou quase 10 horas, nós conversamos sem parar, fomos trocando ideias enquanto o Marrom dirigia. Ah, não posso esquecer outras pessoas muito importantes no filme: Paulo Gil Soares e Walter Lima Jr, muito jovens, que foram assistentes de direção. Paulo Gil (1935-2000), o príncipe dos poetas baianos, ajudou nos diálogos, fez a cenografia e os figurinos. Um talento. E a trilha do Sérgio Ricardo? Uma maravilha.

Você conviveu com Geraldo del Rey na Universidade Federal da Bahia? Chegaram a montar peças juntos?

Antes de falar de minha convivência com Geraldo, quero lembrar a cena inicial dele em “Deus e o Diabo”, quando, por uma desavença numa partilha de vacas, mata o coronel Moraes (Milton Roda). Uma sequência impressionante, na qual entram os versos cantados por Sérgio Ricardo – “Meu filho, tua mãe morreu”. Muito forte. Quanto à nossa convivência na juventude, ela foi pequena. Éramos de turmas diferentes. Ele, do grupo do cinema e eu, da turma do teatro, da Sociedade dos Novos. Geraldo já havia feito filmes com Roberto Pires e Trigueirinho Neto, tinha os projetos cinematográficos dele, era um rapaz muito bonito, um Alain Delon baiano. Ele, além de bonito e bom ator, era cantor. E tinha uma irmã que cantava. Às vezes, raras, nos uníamos para beber uma cerveja e ouvi-los cantar. Trabalhamos num mesmo filme, “O Pagador de Promessas” (1962), do Anselmo Duarte, premiado com a Palma de Ouro, mas não contracenamos. Ele era o Bonitão (risos), como se precisasse desse nome para dizer o quanto ele era bonito, e eu fazia o jornalista que cobria a luta do pagador de promessa para colocar a cruz dentro da Igreja. Cada um no seu núcleo. Ele estudou no curso de teatro da UFBa, mas não éramos próximos. Como eu disse, tínhamos projetos diferentes. O sucesso dele chegou primeiro, ele foi fazer novelas no Rio e em São Paulo, trabalhou na Globo. Eu só chegaria à emissora nos anos 1980. E ele continuou fazendo um filme atrás do outro. Eu passei quatro anos sem fazer um longa que fosse depois de “Deus e o Diabo”.

Por que? O teatro era sua prioridade absoluta?

O teatro sempre foi muito importante na minha vida, mas a razão principal não foi essa. Todos os convites que eu recebia era para fazer cangaceiro, bandido, estuprador, enfim, pessoa violenta. Não aceitei. Preferi passar quatro anos no teatro. Quando Paulo Cezar Saraceni me convidou para “Capitu”, adaptação de “Dom Casmurro”, aí sim, fiquei entusiasmado. Eu ia fazer um “Othelo brasileiro”, um personagem marcado pelo ciúme. Dali em diante, os trabalhos no cinema foram se somando, vieram “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, “Os Deuses e os Mortos”, do Ruy Guerra…

Como foi voltar a trabalhar com Glauber? E atuar no exasperado filme de Ruy Guerra?

Voltar a trabalhar com Glauber no “Dragão” foi maravilhoso. Você percebeu que interpretei meu papel, um professor de História, como se fosse o próprio Glauber? Fiz com essa intenção clara, com a barba igual à dele, os gestos dele, a barriga, tudo… Ruy Guerra é um poeta. Sim, o filme é desesperado, poético como seu criador.

E depois do “Dragão da Maldade” e dos “Deuses e Mortos”, chegava a hora de seu maior personagem, o rude Paulo Honório, de “São Bernardo”. 

Claro, o maior de todos, o mais difícil, o que mais me exigiu. O Paulo Honório do Graciliano Ramos era fisicamente diferente de mim. No jeito de ser, então, nem se fala. Rude, bruto. Leon (Hirszman) era um diretor incrível, dedicado ao extremo. A fotografia, do Lauro Escorel. Ensaiávamos dias inteiros, sem descanso. O celuloide colocado no chassi durava 3 minutos e 45 segundos. Então, cronometrávamos, nos ensaios, a duração de cada sequência. A sequência final, a da vela, nos consumiu. Gastamos 12 horas até achar a vela ideal, a que duraria o tempo necessário. Além de Leon e sua equipe, contamos com um grupo de atores maravilhosos: Isabel Ribeiro, Vanda Lacerda, Mário Lago, Jofre Soares. Você se lembra da cena do jantar? Foi outra que nos exigiu mais de oito horas de ensaio, para que tudo saísse como Leon queria.

Você fez, depois, muitos filmes: “Os Sermões”, de Júlio Bressane, “Central do Brasil” e “Abril Despedaçado”, ambos de Walter Salles, “Bicho de Sete Cabeças”, da Laís Bodanzky… Como os cines drive-in viram o “point” cinematográfico de nossos dias, queria que você falasse de “O Último Cine Drive-in”, feito em Brasília. 

Veja você. Quando o Iberê me convidou para o filme, aceitei com muito carinho, pois vi que eles eram pessoas muito dedicadas, me trataram muito bem. Nossas condições de trabalho eram muito difíceis. Filmávamos de madrugada, pois durante o dia a turma do kart usava o Autódromo e fazia uma barulheira daquelas. À noite, acontecia a exibição cinematográfica. Nos sobrava a madrugada. E pensar que os Drive-in renasceriam com essa força, hein? Quem poderia imaginar.

Você tem convites para novos filmes?

Não, pois está tudo parado. Com a pandemia, estamos em compasso de espera. Mas o último filme que eu fiz, “O Paciente”, me permitiu realizar um trabalho muito desafiador. Imagine, o Sérgio Rezende, um grande diretor, que não tem o reconhecimento que merece, me convidou para interpretar Tancredo Neves (1910-1985). Somos, na aparência fisica, totalmente diferentes. Sérgio não se preocupou com isso. Quis que eu fizesse o personagem. Fiz e foi um desafio maravilhoso. Gosto muito do filme. Trabalhei com Sérgio Rezende em “Mauá, o Imperador e o Rei” e “Zuzu Angel”. Faço questão de repetir: ele é um diretor injustiçado. E, para encerrar, cito um dizer de Pablo Picasso, do qual gosto muito: “A inspiração existe, mas ela precisa pegar você trabalhando!”. Gosto muito de trabalhar.

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(1) Reader Comment

  1. Participei com Othon do filme Fogo Morto, de Marcus Farias em 75 ou 76, mas jamais contracenamos. É pena. Minha outra cena com ele foi diferente. Eu assistia ao Deus e o Diabo, aqui em João Pessoa, quando, na famosa sequência em que Othon faz o Corisco e Lampião, quase tudo aos sussurros,um gaiato começou a dar gritinhos chatos. Eu disse “Cara, se não está querendo ver o filme, saia, porque estou afim”. Ele continuou. “Cara, se continuar eu vou aí quebrar sua cara”. Ele continuou, eu me ergui dando um urro, as luzes se apagaram. Desnorteado, cego, sentei-me. Imaginei que fosse alguém que tivesse feito aquilo pra evitar a briga. Mas nada de voltar a energia, todo mundo começou a sair… e só então vi, na rua, que faltara energia em toda João Pessoa!

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